Retrospectiva 2021

O ano de 2021 foi marcado pelo recrudescimento da pandemia no início do ano, o avanço da vacinação pelo país a partir de abril, pelo declínio do número de casos e mortes causados pela doença à medida em que um número maior de pessoas foram sendo vacinadas e o surgimento de uma nova variante do coronavírus muito mais transmissível que suas versões anteriores – uma espécie de Delta 3.0 Sport Turbo. E, como em 2020, termina com um presidente aloprado fazendo de tudo para impedir o avanço da vacinação – desta vez em crianças.

Na política, a sensação é a de que há mais de três anos estamos vivendo dentro do filme “O Feitiço do Tempo”, mas em uma versão terror, dirigida pelo James Wan. Foi o ano em que assistimos as instituições – salvo honrosas exceções – serem definitivamente aparelhadas e utilizadas para fins não republicanos por quem nos governa, o ano dos orçamentos secretos do Lira, dos tratoraços do Centrão, da tentativa de golpe militar em pleno 7 de setembro, etc.

E foi também o ano em que vimos a economia ir à breca e a fome – problema que julgávamos definitivamente debelado – voltar a assolar o país (no momento em que escrevo, quase 50 milhões de brasileiros encontram-se em situação de insegurança alimentar moderada ou grave).

Diante de tanta notícia ruim, cabe-nos, parafraseando Hölderlin, perguntar: e por que poesia em tempos de tanta carência?

Como em quase tudo na minha vida – da qual sou um expectador curioso, mas relativamente impotente diante de seu fluxo incessante -, eu não tenho a resposta. Nem pretendo te-las. Apenas desconfio que tem muito a ver com aquilo que o filósofo norte-americano Richard Rorty disse em O fogo da vida, seu último artigo escrito e publicado antes de morrer (e cuja leitura completa eu recomendo enfaticamente):

“(…) Como quer que tenha sido, agora gostaria de ter passado mais tempo da minha vida com os versos. Não porque tema ter perdido verdades que são incapazes de serem enunciadas em prosa. Não existem tais verdades; não existe nada sobre a morte que Swinburne e Landor soubessem, mas que Epicuro e Heidegger fracassaram em descobrir. Ao contrário, é porque teria vivido mais plenamente se tivesse sido capaz de recitar mais velhas estrofes – da mesma forma que também teria se tivesse feito mais amigos íntimos. Culturas com vocabulários mais ricos são mais plenamente humanas – mais distantes das bestas – do que aquelas com vocabulários mais pobres; homens e mulheres individualmente são mais plenamente humanos quando suas memórias estão amplamente repletas de versos.”

Acho que é mais ou menos por aí: a poesia nos torna mais humanos, mais humildes, mais compreensivos, mais empáticos. Não que o poema seja sempre uma mensagem de solidariedade e amor, edulcorado por belas palavras. Não. O poema às vezes é duro, agressivo, triste, amargamente verdadeiro. Mas, embora o poeta possa ser um fingidor, como nos adverte Pessoa, o poema raramente é dissimulado. O bom poema, nunca.

Tendo essas verdades relativas como norte, fiz, com base em minhas predileções pessoais (todas as listas não o são?), uma relação daqueles poemas que considero os melhores publicados no blog nesse interminável ano de 2021, ordenados pelo mês de publicação.

Feliz ano novo e que venha 2022!, interminável ou não…

1. Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente
Nós, este povo, em um pequeno e solitário planeta
Viajando através do espaço acidental
Passando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóis
Para um destino onde todos os sinais nos advertem que
É possível e imperativo que aprendamos
Uma verdade corajosa e surpreendente!
2. Eavan Boland – O barógrafo
Encontrei-o no cais,
um retângulo de madeira,
um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel.
3. Anna Belle Kaufman – Frio conforto
Quando minha mãe morreu,
um dos seus bolos de mel permaneceu no freezer.
Eu não poderia suportar o seu desaparecimento,
então, abandonado, ele esperou
em sua caverna de gelo atrás das bandejas de metal
por mais dois anos.
4. Wendell Berry – O desejo de ser generoso
Tudo a que sirvo morrerá, todos os meus deleites,
a carne acesa de minha carne, jardim e campo,
os lírios silenciosos que se encontram na floresta,
as florestas, a colina, a terra toda, tudo
arderá na maldade humana, ou encolherá
na própria velhice. 
5. Una Mannion – Sepultado agachado
Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis e
por toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você.
Primeiro, o pé de uma pequena criança,
movimentos lentos do pincel em seus ossinhos,
sua forma na vala ganhando definição, um lento nascimento
no canto do campo à beira da água.
6. Lisel Mueller – Imortalidade
No castelo da Bela Adormecida
o relógio bate cem anos
e a garota na torre volta ao mundo.
O mesmo ocorre com os criados na cozinha,
que nem sequer esfregam os olhos.
7. Ellen Bass – O panorama geral
Eu tento ver o panorama geral.
O sol, língua ardente
que nos lambe como uma mãe encantada
por sua nova cria, se consumirá.
Tudo é transitório.
8. X. J. Kennedy – O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez
Imagine que sua vida seja um telescópio dobrado
Atemporal, que desmoronou num piscar de olhos
Do ventre de sua mãe, você, berrando, cai
Em uma casa de repousos. Imagine que você destrói
Seu carro, seu casamento — uma criança devastando
Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhento
Com a amada, fechando às pressas o zíper das calças
Ao ouvir os passos de seus pais no andar de baixo — tudo de uma vez.
9. Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc
Fui à montanha dos túmulos:
lá cheguei cruzando o ermo
da Can Tunis, coberto de seringas
e de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,
as estátuas de trapo dos drogados.
10. Edward Field – Máscara mortuária
No espelho, agora,
      o que vejo
me lembra
      que eu não estarei aqui para sempre.
Não me sinto nada
      como aquela cara.
Por dentro, protesto,
      eu sou completamente diferente.
11. Antonio Carlos Secchin – [Não, não era ainda a era da passagem]
Não, não era ainda a era da passagem
 do nada ao nada, e do nada ao seu restante.
12. Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank
Chove sobre a casa
de Anne Frank
e sobre os turistas
amontoados sob a sombra
de seus guarda-chuvas,
sobre os perfeitamente silenciosos
turistas que prefeririam estar
em outro lugar
13. Robert Morgan – Outono branco
Ela sempre gostou de ler, inclusive
na infância, durante a Guerra da Secessão,
e depois desenvolveu o hábito de ficar acordada
junto ao lampião perto da lareira depois que,
concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.
14. Mary Oliver – Quando estou entre as árvores
Quando estou entre as árvores,
especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,
mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,
elas emitem tantos sinais de alegria.
15. Donald Hall – Últimos dias
“Era razoável
esperar.” Então ele escreveu. No dia seguinte,
em um consultório,
a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,
tensa, sua secretária
em pé, de costas para a porta.
“Trago péssimas notícias,”
disse Letha. “A leucemia voltou.
Não há nada a fazer.”
16. Louise Glück – Acalanto
Minha mãe é especialista em uma coisa:
enviar pessoas que ela ama para o outro mundo.
Os pequeninos, os bebês — estes
ela embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizer
o que ela fez pelo meu pai;
o que quer que tenha sido, tenho certeza de que foi o certo.
17. Warsan Shire – para mulheres que são ‘difíceis’ de amar
Você é um corcel correndo sozinha
e ele tenta doma-la
compara você a uma autoestrada impossível
para uma casa em chamas
diz que você o está cegando
que ele nunca poderia deixar você
18. Louise Glück – Santas
Em nossa família, havia duas santas,
minha tia e minha avó.
Mas suas vidas foram diferentes.
19. Mary Oliver – Canção dos construtores
Em uma manhã de verão
sentei-me
em uma encosta
para pensar em Deus—
20. Adrienne Rich – Fotografias do Hubble: Após Sappho
Deve ser a visão mais desejada de todas
a pessoa com quem você espera viver e morrer

entrando numa sala, voltando-se para olhar para você, vis-à-vis
Deveria haver ainda algo

mais desejável: 
21. Edward Field – Ícaro
Apenas as penas flutuando ao redor do chapéu
Mostravam que algo mais espetacular havia ocorrido
Além do afogamento habitual. A polícia preferiu ignorar
Os aspectos confusos do caso
E as testemunhas correram para uma guerra de gangues.
22. Lynn Ungar – Pandemia
E se pensasses nisso
da mesma forma que os judeus consideram o Sabbath —
o mais sagrado dos tempos?
22. Lisel Mueller – Românticos
Os biógrafos modernos se preocupam
em “o quão longe” foi sua terna amizade.
Eles se perguntam o que exatamente significa
quando ele escreve que pensa nela constantemente,
seu anjo da guarda, amada amiga.
23. R S Thomas – Charneca
É bela e calma;
                o ar rarefeito
como o interior de uma catedral

esperando uma presença. 
24. Jane Hirshfield – Hoje, outro universo
O arborista determinou:
senescência         pragas        cancro
acelerado pela seca
                                    mas, em qualquer caso,
não podável       não tratável       não passível de escoras.
25. Barbara Crooker – No meio
(No meio) de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,
batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.
26. Gastão Cruz – Pedro Hestnes
Agradeço muito por ela ter respeitado o meu nível e me mantido motivada. Ela lidou muito bem com meu corpo já não tão jovem e fora de forma. Não poderia querer uma instrutora melhor.
27. Denver Butson – Meu irmão
Para escapar das dores de cabeça e aos medos de uma esposa infiel
meu irmão em perpétua reabilitação usuário de drogas
maquinista encrenqueiro preso aos 14 por incêndio premeditado
e encarcerado por algumas semanas (...)
28. Ursula K. Le Guin – Como me parece
No vasto abismo antes do tempo, o eu
não existe, e a alma se mistura
com a névoa, a rocha e a luz.
29. Pattiann Rogers – Perspectiva de alcance
Lá em cima, longe desta estrada,
Longe das partículas de geada
Que revestem a casca de cada gravanço,
E do rijo inseto arqueiro em seu avanço (...)
30. Daniel Filipe – A invenção do amor
Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor
31. Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894
É uma música modesta
como um jantar na cozinha,
hospitaleira como ter tido filhos.
Compadece-se do corpo
que a maré arrasta
à praia invernal de cada um.
32. Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá
Em um livro do meu pai, leio
a frase: «A ti, que me lês».
É o título de uma elegia
escrita há dois séculos, ou um sopro
de solitude que se elevou
ao leitor imaginário de 
fora dos círculos do tempo.
33. Stephen Dunn – O não dito
Uma noite, ambos precisaram de coisas diferentes
do mesmo tipo; ela, de consolo; ele, ser consolado.
34. Jennifer Maier – Uma história verdadeira
Um homem idoso estava morrendo em um hospital,
contou-me um amigo médico.

Estava com oitenta e nove anos, e a vida toda fora um alfaiate em uma loja
embaixo do quarto onde nasceu.
35. Natalie Diaz – Meu irmão às 3 da manhã
Ele se sentou de pernas cruzadas, chorando nos degraus,
quando mamãe destrancou e abriu a porta da frente.
        Meu Deus, ele disse. Meu Deus.
                Ele quer me matar, mamãe.
36. Dorianne Laux – Histórias de família
Tive um namorado que me contava histórias sobre sua família,
como a de certa vez em que uma discussão terminou quando seu pai
agarrou um pedaço aceso de um bolo de aniversário com ambas as mãos
e o arremessou pela janela do segundo andar.
37. Sara Teasdale – Chegarão chuvas suaves
Chegarão chuvas suaves e o cheiro de chão,
E andorinhas revoando, seus rútilos sons;
38. Linda Pastan – Elegia
Nosso último corniso inclina-se
sobre o solo da floresta

oferecendo frutos
aos pássaros, aos esquilos.
39. Denise Levertov – Conversando com a dor
Ah, dor, eu não deveria trata-la
como um cão vira-latas
que vem à porta dos fundos
por uma migalha, por um osso descarnado.
Eu deveria confiar em você.
40. Joseph Stroud – Nós
Tentando amarrar meus sapatos, desajeitado, incapaz de descobrir
a lógica disso, atrapalhado, enquanto meu pai fica ali,
sua raiva crescendo por um filho que não consegue fazer nem
essa coisa mais simples pela primeira vez, não consegue nem mesmo
dar o nó para manter seus sapatos nos pés
41. Mark Wunderlich – O Deus do Nada
Meu pai caiu do barco.
Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.
Ele havia saído de barco com seu cachorro para
caçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin.
42. Ellen Bass – O importante é
amar a vida, ama-la mesmo
quando você não tem estômago para isso
e tudo o que você guardou afetuosamente
se desfaz feito papel queimado em suas mãos,
sua garganta repleta desse lodo.
43. Barbara Crooker – Vida comum
Este foi um dia em que nada aconteceu,
as crianças foram para a escola
sem esquecer de seus livros, lanches, luvas.
44. Czesław Miłosz – Elegia para N. N.
Diga-me se é muito longe para você.
Você poderia vir sobre as ondas mansas do Báltico
passando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,
poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria em
Labrador, branca nesta época do ano.
45. Robinson Jeffers – Carmel Point
A extraordinária paciência das coisas!
Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —
Quão belo quando o vimos pela primeira vez,
Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias; (...)
46. Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro
Isso é o que eu herdei —
Nunca foi minha própria vida,
Mas o nome de uma casa que ouvi
E outras ouviram como uma advertência
Do que poderia acontecer a uma menina
Atrevida e apanhada pela má-sorte:
Um fragmento de um destino
Desolador, uma nota-marreta de medo —
47. Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz
Eu não queria pagar para estacionar meu carro,
por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.
New London fica a uma hora de carro,
mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.
48. Charles Simic – Igreja de madeira
É só uma choupana fechada com uma torre
Sob o céu de um verão escaldante
Em uma estrada secundária percorrida raramente
Onde as sombras de árvores grandes
Roçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,
E corvos privados de carniça
Grasnam uns com os outros sobre dias melhores.
49. Ada Limón – Mar aberto
Não adianta enganar e tramar e perder
os outros fantasmas, empurrar o sepultado mais fundo
no lodo arenoso, na lama ribeirinha, pois mesmo assim você vem,
minha fiel, o som de um corpo tão persistente
na água que eu não sei dizer se é uma onda ou você
movendo-se através das ondas.
50. Stephen Dobyns – Percepções
O terrível desequilíbrio que ocorre com a idade
quando você de repente vê que, de suas amizades,

mais morreram do que restaram vivos. 
51. W. S. Merwin – Juventude
Durante toda a juventude estive procurando por você
sem saber o que eu procurava

ou de como chama-la acho que eu nem
mesmo sabia o que estava procurando como

poderia reconhece-la quando a visse
52. Jane Kenyon – A pera
Há um momento na meia idade
em que você fica entediado, irritado
por sua mente medíocre, assustado.
53. Eavan Boland – E alma
Minha mãe morreu em um verão —
o mais úmido nos registros do Estado.
Safras apodreciam no oeste.
54. Francisco Brines – Últimos dias
Na herdade ele confina a memória
e o corpo que declina. Tudo morre
sobre este mundo vivo; e a laranjeira,
e o voo do pombo, são traspassados
por um raio outonal de azul.
55. Donald Hall – Afirmação
Envelhecer é perder tudo.
Velhice, todos a conhecemos.
Mesmo quando somos jovens,
às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeça
quando perdemos um avô.
56. Mary Oliver – O martim-pescador
Agradeço muito por ela ter respeitado o meu nível e me mantido motivada. Ela lidou muito bem com meu corpo já não tão jovem e fora de forma. Não poderia querer uma instrutora melhor.
58. Kenneth Rexroth – Delia Rexroth
A Califórnia entra num
Verão modorrento, e o ar
Está repleto da agridoce
Fumaça de relva queimando
Nas colinas de São Francisco.
59. Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro
Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —
a forma como na semana em que o meu irmão se matou
a esposa dele e eu caímos na cama gargalhando
porque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,
e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.
60. Henry Wadsworth Longfellow – A reunião
Depois de uma longa ausência
     Nos vemos de novo, afinal:
O encontro nos dá prazer,
     Ou, ao contrário, aflição?
61. Mary Oliver – Primavera
Em algum lugar,
uma ursa preta
acaba de despertar
e lança seu olhar

montanha abaixo.
62. Jane Hirshfield – Um dia é vasto
Um dia é vasto.
Até o meio-dia.
Depois acaba.

Jane Hirshfield – Um dia é vasto

Um dia é vasto.
Até o meio-dia.
Depois acaba.

A água da lagoa de ontem, entrelaçada,
ainda está molhada em meus cabelos.

Eu não sei o que é o tempo.

Você nunca pode encontra-lo.
Mas você pode perde-lo.
Trad.: Nelson Santander
A Day Is Vast

A day is vast.
Until noon.
Then it’s over.

Yesterday’s pondwater
braided still wet in my hair.

I don’t know what time is.

You can’t ever find it.
But you can lose it.

Diane di Prima – Poema de aniversário pro meu avô no dia da mentira

Hoje é o seu
aniversário e eu tentei
escrever essas coisas antes,
mas agora
em meio à loucura crescente, eu quero
agradecê-lo
por me dizer o que esperar
por não poupar
as palavras, lá naquela sala encerada do Bronx
agradecê-lo
por chorar abertamente durante
as inúmeras óperas italianas
desoladoras obrigada
por puxar meu cabelo quando
eu puxava as folhas das árvores assim
eu saberia o que elas sentiam, nós estamos
envolvidos nisso agora, revolução, até os
joelhos e a maré está subindo, eu abraço
estranhos na rua, repletos de amor, o deles
e o meu, o amor que você nos disse que deveria chegar
ou morreríamos, disse a todos eles naquele parque no Bronx, eu escutando
no anoitecer primaveril do Bronx, respirando estrelas, tão glorioso
para mim o seu cabelo branco, sua altura seus ferozes
olhos azuis, raros entre os italianos, eu ficava
de longe olhando pra você, meu vô
as pessoas ouviam, eu fico
de longe ouvindo enquanto derramo a sopa
jovens com luz em seus rostos
na minha mesa, falando de amor, falando de revolução
que é amor dito ao contrário, como
você amaria todos nós, trovejaria a sua sabedoria anarquista
sobre nós, trovejaria Dante, e Giordano Bruno, homens disciplinados
inclinados aos seus fins, então quero que saiba
que fazemos isso por você e pela sua gangue, Carlo Tresca,
por Sacco e Vanzetti, sem saber
ou pensar sobre isso, assim como fazemos por Aubrey Beardsley
Oscar Wilde (todas as luzes da rua
devem ser roxas), fazemos
por Trotsky e Shelley e pelo grande/tolo
Kropotkin
pelos Grevistas de Eisenstein, pelo tédio de Jean Cocteau, fazemos isso
pelas estrelas que pairam sobre o Bronx
para que elas possam olhar para a terra
sem sentir vergonha.

Trad.: Fernanda Morse

April Fool Birthday Poem for Grandpa

Today is your
birthday and I have tried
writing these things before,
but now
in the gathering madness, I want to
thank you
for telling me what to expect
for pulling
no punches, back there in that scrubbed Bronx parlor
thank you
for honestly weeping in time to
innumerable heartbreaking
italian operas for
pulling my hair when I
pulled the leaves off the trees so I’d
know how it feels, we are
involved in it now, revolution, up to our
knees and the tide is rising, I embrace
strangers on the street, filled with their love and
mine, the love you told us had to come or we
die, told them all in that Bronx park, me listening in
spring Bronx dusk, breathing stars, so glorious
to me your white hair, your height your fierce
blue eyes, rare among italians, I stood
a ways off, looking up at you, my grandpa
people listened to, I stand
a ways off listening as I pour out soup
young men with light in their faces
at my table, talking love, talking revolution
which is love, spelled backwards, how
you would love us all, would thunder your anarchist wisdom
at us, would thunder Dante, and Giordano Bruno, orderly men
bent to your ends, well I want you to know
we do it for you, and your ilk, for Carlo Tresca,
for Sacco and Vanzetti, without knowing
it, or thinking about it, as we do it for Aubrey Beardsley
Oscar Wilde (all street lights shall be purple), do it
for Trotsky and Shelley and big/dumb
Kropotkin
Eisenstein’s Strike people, Jean Cocteau’s ennui, we do it for
the stars over the Bronx
that they may look on earth
and not be ashamed.

from Pieces of a Song (City Lights, 1990)

Anabel Torres – Quando meu corpo e minha cabeça

Quando meu corpo e minha cabeça
começaram a arder e a provocar incêndios,
minha mãe, como bombeiro enlouquecido,
me perseguia por toda a casa.

Apontava contra mim, implacável
o poderoso jorro de seu medo
e tratava de me enterrar.

Assim cresci.

Meu pai era diferente.

Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicção
as vantagens do gelo e do fogo.

Quando meus incêndios chegavam
a seu máximo ponto de fusão
se afastava, discreto.

Se fracassavam,
me sugeria novos lugares.
Me dava pistas sobre alguns incêndios que ele havia provocado.
Me falava das maravilhas da sombra
ou me trazia fósforos.

Se estava longe, mandava longas cartas,
celebrando a vida, a palavra,
nossa comum piromania.

E sempre acrescentava esse p.s.:
“Anabel, o dólar é estritamente para sorvetes ou fósforos”.

Quando meu pai temia por minha segurança
– e sem dúvida temia, pois conhecia não só meu amor pelo fogo
mas minha propensão às queimaduras –
o fazia sozinho, em sua casa.

Minha mãe, criada em San Benito, residente
do purgatório
bela
como um cesto de tangerinas
quando não era seu dia de turno,
com seu sorriso de cerejeiras e pássaro em seus dias livres,
ao morrer me amou por sobre todas as coisas:
não permitiu que eu herdasse sua mangueira.
Devolveu-a à sua família,
à casa de onde veio intacta.

Meu pai, ao morrer, há três anos, continuou morrendo.
Logrou tão dificilmente morrer, que inclusive
desde então
já saiu ileso de alguns atentados.

Amava tanto a vida. Era tão vigoroso
frente ao frio.
Era tão rico em incêndios.

Trad.: Carlito Azevedo

Cuando mi cuerpo y mi cabeza

Cuando mi cuerpo y mi cabeza
empezaron a arder y a hacer incendios,
mi madre, como un bombero enloquecido
me perseguía por toda la casa.

Apuntaba hacia mí, implacable,
el potente chorro de su miedo
y trataba de tumbarme.

Así crecí.

Mi padre fue distinto.

Defendió ante mí, por igual, y con igual vehemencia y convicción
las ventajas del hielo y el fuego.

Cuando mis incendios llegaban
a su máximo punto de fusión
se apartaba, discreto.

Si fracasaban,
me sugería nuevos sitios.
Me daba claves sobre algunos incendios que él había
hecho propios.
Me hablaba de las maravillas de la sombra
o me traía fósforos.

Si estaba lejos, mandaba largas cartas,
celebrando la vida, la palabra,
nuestra común piromanía.

Y siempre agregaba esta postdata:
‘Anabel, el dólar es estrictamente para helados
o fósforos’.

Cuando mi padre temía por mi seguridad
– y debió temer, pues conocía no sólo mi gusto por el fuego
sino mi propensión a las quemaduras –
lo hacía solo, en su casa.

Mi madre, criada en San Benito, residente
del purgatorio,
hermosa
como un reguero de mandarinas
cuando no estaba de turno,
con su risa de cerezos y pájaro en sus días libres,
al morir me amó por encima de todas las cosas:
No permitió que yo heredara su manguera.
La devolvió a su familia,
a la casa de donde era intacta.

Mi padre, al morir hace tres años, siguió muriendo.
Logró tan difícilmente morir, que incluso
desde entonces
ha salido ileso de algunos atentados.

Amaba tanto la vida. Era tan vigoroso
frente al frío.
Era tan rico en incendios.

Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,
uma ursa preta
acaba de despertar
e lança seu olhar

montanha abaixo.
A noite toda,
na inquietação viva e superficial
do início da primavera,

eu penso nela,
suas quatro patas pretas
agitando o cascalho,
sua língua

como uma chama rubra
tocando a grama,
a água fria.
Existe apenas uma questão:

como amar este mundo.
Eu penso nela
erguendo-se
como uma saliência negra e frondosa

para afiar suas garras contra
o silêncio
das árvores.
O que quer que seja

a minha vida
com seus poemas
e sua música
e suas cidades,

ela é também este ofuscante negror
descendo
a montanha,
respirando e fruindo;

o dia todo eu penso nela –
em suas presas brancas,
sua ausência de palavras,
seu amor perfeito.

Trad.: Nelson Santander

Spring

Somewhere
a black bear
has just risen from sleep
and is staring

down the mountain.
All night
in the brisk and shallow restlessness
of early spring

I think of her,
her four black fists
flicking the gravel,
her tongue

like a red fire
touching the grass,
the cold water.
There is only one question:

how to love this world.
I think of her
rising
like a black and leafy ledge

to sharpen her claws against
the silence
of the trees.
Whatever else

my life is
with its poems
and its music
and its cities,

it is also this dazzling darkness
coming
down the mountain,
breathing and tasting;

all day I think of her –
her white teeth,
her wordlessness,
her perfect love.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – As flores do mall

As jovens deusas, noturnas
aparições (roupas escuras,
prata queimando seus umbigos)
na cadência da pista,
começam a desbotar
com a premência dos anos,
os problemas, talvez os filhos
que ainda não têm. Olham
agora para os teus olhos com claro
desprezo (já tens quarenta)
e pensas em certas palavras
de Baudelaire que lhes darias
como se fossem teus frutos
(se ao menos se aproximassem), se
soubessem quem foi o poeta.
Mas elas dançam, te rodeiam
sem importar-lhes o que calas.
Envelhecendo sós, saltam
sobre teus textos (tão perpétuos
e frágeis), novas deidades,
elas, que dançam retiradas
de teu vaso de Lladró.

Trad.: Nelson Santander

* N. do T.: o título do poema faz, evidentemente, um trocadilho com o título da obra mais aclamada de Charles Baudelaire (mencionado no poema), Les Fleurs du mal, traduzido no Brasil literalmente como “As Flores do Mal”. Em países da língua espanhola, a palavra inglesa Mall foi devidamente assimilada, o que não ocorreu no Brasil, em que Mall virou Shopping Center – ou apenas Shopping -, Centro Comercial, etc.. Tratando-se de um trocadilho, s.m.j., irrecuperável em português, optei por manter o substantivo em inglês, justamente para não perder o efeito acridoce que a sua utilização empresta ao título.

Las flores del Mall

Las jóvenes diosas, nocturnas
apariciones (ropa oscura,
plata quemando sus ombligos)
en la cadencia de la pista,
comenzarán a despintarse
con la premura de los años,
los problemas, quizá los hijos
que no tienen aún. Ahora
miran tus ojos con un claro
desprecio (ya tienes cuarenta)
y piensas en ciertas palabras
de Baudelaire que les darías
como si fueran frutas tuyas
(si al menos se acercaran), si
supieran quién es el poeta.
Pero ellas danzan, te rodean
sin importarles lo que callas.
Envejeciendo solas, brincan
sobre tus textos (tan perpetuas
y frágiles), deidades nuevas,
ellas, que bailan retiradas
de tu florero de Lladró.

Henry Wadsworth Longfellow – A reunião

Depois de uma longa ausência
Nos vemos de novo, afinal:
O encontro nos dá prazer,
Ou, ao contrário, aflição?

A Árvore foi chacoalhada,
E poucos de nós perduramos,
Como os tais frutos do profeta,
No topo mais alto dos ramos.

Saudamos-nos cordialmente
No velho tom familiar;
E pensamos, mas só conosco,
Quão velho e grisalho ele está!

Falamos de um bom Ano Novo,
E também de um Feliz Natal;
Mas no fundo estamos pensando
Naqueles que aqui não estão.

Falamos de amigos e sorte,
Do que disseram, dos seus atos,
Até que os mortos são os vivos,
E os vivos pareçam os mortos.

E no fim nós mal distinguimos
Entre fantasmas e convivas;
E uma névoa de pesar rouba-nos
Nossas piadas mais festivas.

Trad.: Nelson Santander
The Meeting

After so long an absence
At last we meet again:
Does the meeting give us pleasure,
Or does it give us pain?

The tree of life has been shaken,
And but few of us linger now,
Like the Prophet’s two or three berries
In the top of the uppermost bough.

We cordially greet each other
In the old, familiar tone;
And we think, though we do not say it,
How old and grey he has grown!

We speak of a Merry Christmas
And many a Happy New Year;
But each in his heart is thinking
Of those who are not here.

We speak of friends and their fortunes,
And of what they did and said,
Till the dead alone seem living,
And the living alone seem dead.

And at last we hardly distinguish
Between the ghosts and the guests;
And a mist and shadow of sadness
Steals over our merriest jests.

David Mourão-Ferreira – Ladainha dos Póstumos Natais

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que hão de me lembrar de modo menos nítido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

Charles Simic – Medo

O medo passa de homem para homem
Inconscientemente,
Como uma folha passa o seu estremecimento
Para outra.

De repente, a árvore toda está tremendo,
E não há nenhum sinal do vento.

Trad.: Nelson Santander

Fear

Fear passes from man to man
Unknowing,
As one leaf passes its shudder
To another.

All at once the whole tree is trembling,
And there is no sign of the wind.

Linda Pastan – As Íris de Monet

Estas flores
sonharam em voltar
à cor pura –
os verdes
de indivisas águas,
os verdes
informes dos prados
assim como Deus disse:
Façam-se as
Íris.

Trad.: Nelson Santander

Monet’s Irises

These flowers
have dreamed themselves
back into pure color—
the greens
of undivided water,
the formless
greens of meadow
just as God said:
Let there be
Irises.