Wislawa Szymborska – Sobre a morte sem exagero

Não entende de piadas, de estrelas, de pontes, de tecer, minerar, lavrar a terra, de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhã intromete sua última palavra sem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisas diretamente ligadas ao seu ofício: nem cavar uma cova, nem fazer um caixão, … Continue lendo Wislawa Szymborska – Sobre a morte sem exagero

Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguém que está em um barco para o norte de Tenerife, em cinquenta e sete. Um rapaz que, da amurada, mira o férreo poente sobre o mar e estuda arquitetura em Barcelona, para onde retorna agora. Aviso-te com um sinal de alerta: a alegria que sentes ao deixar teu pai … Continue lendo Joan Margarit – Inverno de 95

Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um … Continue lendo Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Henry Reed – Os nomes das peças

Hoje nós temos os nomes das peças. Ontem Tivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã Teremos o que fazer depois da ordem de "fogo". Mas hoje, Hoje nós temos os nomes das peças. A japonica Arde como coral em todos os jardins da vizinhança, E hoje nós temos os nomes das peças. Isto é … Continue lendo Henry Reed – Os nomes das peças

Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular

https://youtu.be/dLQ33EHkypU Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, 'tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não … Continue lendo Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular

Braulio Tavares – [para mim tanto faz]

para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo vivaa gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva

Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a … Continue lendo Francisco Brines – Métodos de conhecimento

João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma bala enterrada no corpo, fazendo mais espesso um dos lados do morto; assim como uma bala do chumbo pesado, no músculo de um homem pesando-o mais de um lado qual bala que tivesse um vivo mecanismo, bala que possuísse um coração ativo igual ao de um relógio submerso em algum corpo, ao … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina