Mês: outubro 2019
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Wislawa Szymborska – Sobre a morte sem exagero

Não entende de piadas,de estrelas, de pontes,de tecer, minerar, lavrar a terra,de construir navios e assar bolos. Quando falamos de planos para amanhãintromete sua última palavrasem nada a ver com o assunto. Não sabe sequer as coisasdiretamente ligadas ao seu ofício:nem cavar uma cova,nem fazer um caixão,nem arrumar a desordem que deixa. Ocupada em matar,o…
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Ferreira Gullar – Reflexão

Está fora de meu alcance o meu fim Sei só até onde sou contemporâneo de mim
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Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai…
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Manuel António Pina – Eugénio de Andrade no seu leito de morte

Na mão de Ana o iogurte não iluminava, escurecia, comunhão ajoelhada no fundo do coração do dia dividido onde, desperto, ele dormia. O movimento da colher embalava-o como uma música que quase se ouvia neste mundo ou um colo que o adormecia. A tarde declinava, as sombras, como sonhos, alongavam-se na almofada; tudo fazia um…
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Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. OntemTivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonicaArde como coral em todos os jardins adjacentes,E hoje nós temos a nomeação das peças. Isto é o zarelho móvel inferior. E istoÉ o…
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Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular
Eis o melhor e o pior de mim No meu termômetro o meu quilate Vem, cara, me retrate Não é impossível Eu não sou difícil de ler Faça sua parte Eu sou daqui, eu não sou de Marte Vem, cara, me repara Não vê, ‘tá na cara Eu sou porta-bandeira de mim Só não se…
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Braulio Tavares – [para mim tanto faz]
![Braulio Tavares – [para mim tanto faz]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/10/images-13.jpeg)
para mim tanto fazestar alegre ou tristeeu preciso é que o tempo voe,que o tempo viva a gente só lembraque o segundo existequando vê um relógioem contagem regressiva
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Francisco Alvim – Nada, mas nada mesmo

Nada, mas nada mesmo tem a menor importância Nem antesNem depoisNem durante
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Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a…
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João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de…