José Luís Peixoto – na hora de pôr a mesa…

na hora de pôr a mesa, éramos cinco: o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs e eu. depois, a minha irmã mais velha casou-se. depois, a minha irmã mais nova casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje, na hora de pôr a mesa, somos cinco, menos a minha irmã mais velha que está … Continue lendo José Luís Peixoto – na hora de pôr a mesa…

Sophia de Mello Breyner Andresen – Eu me Perdi

Eu me perdi na sordidez de um mundo Onde era preciso ser Polícia agiota fariseu Ou cocote Eu me perdi na sordidez do mundo Eu me salvei na limpidez da terra Eu me busquei no vento e me encontrei no mar E nunca Um navio da costa se afastou Sem me levar

Eugénio de Andrade – Quase Epitáfio

O outro sabia. Tinha uma certeza. Sou eterno, dizia. Eu não tenho nada. Amei o desejo com o corpo todo. Ah, tapai-me depressa. A terra me basta. Ou o lodo.

W. H. Auden – Funeral Blues

BLUES FÚNEBRE Que parem os relógios, cale o telefone, jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais, que emudeça o piano e que o tambor sancione a vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço, escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu. Que as pombas guardem … Continue lendo W. H. Auden – Funeral Blues

Mia Couto – Falta de Reza

Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços: … Continue lendo Mia Couto – Falta de Reza

João Cabral de Melo Neto – A Viagem

Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – A Viagem

José Saramago – Demissão

Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.