Ferreira Gullar – O Universo

O que vi do universo até hoje foi pouco mas, se penso em quanto meço, posso dizer que foi muito. Sei, de ler, que o universo é de tais dimensões que a própria luz só o atravessa depois e bilhões e bilhões de anos, e que nele há multidões de galáxias e sóis que talvez … Continue lendo Ferreira Gullar – O Universo

Ferreira Gullar – Infinito Silêncio

    houve        (há) um enorme silencio anterior ao nascimento das estrelas    antes da luz    a matéria da matéria de onde tudo vem incessante e onde      tudo se apaga      eternamente esse silencio    grita sob a nossa vida    e de ponta a ponta    a atravessa         estridente.

Ferreira Gullar – A Propósito do Nada

sou   para o outro este corpo esta   voz sou o que digo   e faço   enquanto passo mas   para mim só sou   se penso que sou enfim se sou   a consciência   de mim e quando   vinda a morte   ela se apague serei o que alguém acaso   salve     do olvido já que   para mim   (lume apagado) nunca … Continue lendo Ferreira Gullar – A Propósito do Nada

Ferreira Gullar – Os Mortos

os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos,    certas sinfonias        algum bater de portas,    ventanias     Ausentes     de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso     se de fato     quando vivos     acharam a mesma graça

Carlos Drummond de Andrade – Retrato de Família

Este retrato de família Está um tanto empoeirado. Já não se vê no rosto do pai Quanto dinheiro ele ganhou. Nas mãos dos tios não se percebem As viagens que ambos fizeram. A avó ficou lisa, amarela, Sem memórias da monarquia. Os meninos, como estão mudados. O rosto de Pedro é tranquilo, Usou os melhores … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Retrato de Família

Ferreira Gullar – Redundâncias

Ter medo da morte é coisa dos vivos o morto está livre de tudo o que é vida Ter apego ao mundo é coisa dos vivos para o morto não há (não houve) raios rios risos E ninguém vive a morte quer morto quer vivo mera noção que existe só enquanto existo

Ferreira Gullar – Visita

no dia de finados ele foi ao cemitério porque era o único lugar do mundo onde podia estar perto do filho mas diante daquele bloco negro de pedra impenetrável entendeu que nunca mais poderia alcançá-lo       Então apanhou do chão um pedaço amarrotado de papel escreveu eu te amo filho pôs em cima do mármore sob … Continue lendo Ferreira Gullar – Visita

Ferreira Gullar – A Alegria

O sofrimento não tem nenhum valor. Não acende um halo em volta de tua cabeça, não ilumina trecho algum de tua carne escura (nem mesmo o que iluminaria a lembrança ou a ilusão de uma alegria). Sofres tu, sofre um cachorro ferido, um inseto que o inseticida envenena. Será maior a tua dor que a … Continue lendo Ferreira Gullar – A Alegria