Wislawa Szymborska – As três Palavras mais Estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba já se perde no passado. Quando pronuncio a palavra Silêncio, suprimo-o. Quando pronuncio a palavra Nada, crio algo que não cabe em nenhum não ser. Trad.: Regina Przybycien

Paulo Henriques Britto – Três Peças Dispépticas

I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Três Peças Dispépticas

Wislawa Szymborska – Entre Muitos

Sou quem sou. Inconcebível acaso como todos os acasos Fossem outros os meus antepassados e de outro ninho eu voaria ou de sob outro tronco coberta de escamas eu rastejaria. No guarda-roupa da natureza há trajes de sobra. O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo. Cada um cai como uma luva e … Continue lendo Wislawa Szymborska – Entre Muitos

Paulo Henriques Britto – de “Biographia Literária”

IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o … Continue lendo Paulo Henriques Britto – de “Biographia Literária”

Wislawa Szymborska – Fim e Começo

Depois de cada guerra alguém tem que fazer a faxina. Colocar uma certa ordem que afinal não se faz sozinha. Alguém tem que jogar o entulho para o lado da estrada para que possam passar os carros carregando os corpos. Alguém tem que se atolar no lodo e nas cinzas em molas de sofás em … Continue lendo Wislawa Szymborska – Fim e Começo

Paulo Henriques Britto – de “Cinco Sonetos Frívolos”

V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se … Continue lendo Paulo Henriques Britto – de “Cinco Sonetos Frívolos”

Wislawa Szymborska – A Vida na Hora

A vida na hora. Cena sem ensaio. Corpo sem medida. Cabeça sem reflexão. Não sei o papel que desempenho. Só sei que é meu, impermutável. De que se trata a peça devo adivinhar já em cena. Despreparada para a honra de viver, mal posso manter o ritmo que a peça impõe. Improviso embora me repugne … Continue lendo Wislawa Szymborska – A Vida na Hora

Ferreira Gullar – Cantiga pra não Morrer

Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa … Continue lendo Ferreira Gullar – Cantiga pra não Morrer

Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

IV Até onde a vista alcança é real todo o visível. Como dançarina e dança formam um todo indistinguível, assim também não há esperança de se atingir algum nível em que uma e outra substância se separem, dando alívio à consciência inquietante de que no próximo instante o erro vai ser dissipado. Não vai. O … Continue lendo Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

Wislawa Szymborska – Escrevendo um Currículo

O que é preciso? É preciso fazer um requerimento e ao requerimento anexar um currículo. O currículo tem que ser curto mesmo que a vida seja longa. Obrigatória a concisão e seleção dos fatos. Trocam-se as paisagens pelos endereços e a memória vacilante pelas datas imóveis. De todos os amores basta o casamento, e dos … Continue lendo Wislawa Szymborska – Escrevendo um Currículo