Ellen Bass – Durante a pandemia, ouço a gravação de A Love Supreme no Festival Juan-les-Pins, de 26 de julho de 1965

As primeiras notas familiares, reconhecíveis em qualquer lugar, me abençoam
nesta manhã selvagem. O sax de Coltrane sobe
e desce em cada beco, entra e sai das veias e sobre a face
das águas e nos corações de pedra.
E quando ele repete A love supreme de novo e de novo,
é como se, se o dissesse o suficiente, ele pudesse libertar
essa misericórdia dentro de mim, na diminuta cadeia ossicular,
na agitação química, na faísca, e em meu cérebro
recebendo-a — ainda que apenas
por estes trinta e dois minutos e quarenta e oito segundos.
Minha filha está doente, há sete semanas com o vírus.
Ontem, sentindo-se entediada, ela mandou uma mensagem. Que agarrei
como a um carrinho de compras. E carreguei com esperança.
Transformei em prece. Quando a porção do dia da Torá é recitada,
alguém fica de prontidão para corrigir as imprecisões.
As palavras devem vibrar precisamente no ar.
Então eu abro minha porta
para o alento de seu instrumento
que nada recusa, dissipando a grama, sarjetas e árvores,
concreto, carros, a toupeira puxando para baixo as alfaces novas.
Este som generoso que pode significar
tudo, nada, o que você precisar.
E deus não é isso? Não é?
Este arrepio? Este prostrar-se de joelhos?
Deuses caminham entre nós.
Mas os humanos são, apesar de tudo, uma promessa não cumprida.
E ainda assim, esses humanos parecem estar tentando
entrar… onde?
Eu quase posso ouvi-lo. Este velho planeta.
Minhocas passando terra por entre os tecidos.
Orquídeas, milho, rouxinóis atirando-se em canções
como se não houvesse amanhã. Que pode mesmo não haver.
Porém, ainda há montanha. Ainda há vento.
E Coltrane ainda nos oferece as mesmas quatro notas
como um professor dotado de infinita paciência.
Ele me diz que vale a pena
estar em um corpo. Ele me diz que
estou viva em uma cidade litorânea da Califórnia e minha filha
em um arranha-céu em Vancouver, que minha garota,
deitada febril no sofá em que esteve deitada por
quarenta e nove dias e quarenta e nove noites, ainda vive.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “During the Pandemic I Listen to the July 26, 1965, Juan-les-Pins Recording of A Love Supreme”. In:_____New England Review. EUA: Kenyon Hill Publications, Universidade da Califórnia, Vol. 42.2, 2021

Miniantologia Poética – 35

During the Pandemic I Listen to the July 26, 1965, Juan-les-Pins Recording of A Love Supreme

The first familiar, know-them-anywhere notes bless me
this savage morning. Coltrane’s horn racing
up and down every alley, in and out of veins and over the faces
of lakes and into the heart of stones.
And when he repeats A love supreme again and again,
it’s as though, if he says it enough, he can ease
that mercy down into me, into the tiny ossicular chain,
the chemical rush, the spark, and my brain
getting it—if even just
for this thirty-two minutes and forty-eight seconds.
My daughter’s been sick seven weeks with the virus.
Yesterday she felt a little bored, she texted. And I grab that
like a shopping cart. I load it up with hope.
Make it prayer. When the day’s portion of the Torah is recited,
someone stands by to correct mistakes.
The words must vibrate precisely in the air.
So I open my door
to the breath of his instrument
that refuses nothing, lavishing the grass, gutters, and trees,
concrete, cars, the gopher pulling down the new lettuces.
This generous sound that can mean
anything, nothing, whatever you need.
And isn’t that god? Isn’t that it?
This shivering? This fall to my knees?
Gods do walk among us.
But humans are, after all, a broken promise.
And yet, these humans seem to be trying
to enter … what?
I can almost hear it. This old planet.
Worms passing earth through their tissue.
Orchids, corn, mockingbirds throwing themselves into song
like there’s no tomorrow. Which there may not be.
Yet, still a mountain. Still wind.
And Coltrane still offering the same four notes
like a teacher who is infinitely patient.
He’s telling me it’s worth it
to be in a body. He’s telling me
I’m alive in a beach town in California and my daughter
in a high-rise in Vancouver, my girl,
lying feverish on the couch she’s been lying on
forty-nine days and forty-nine nights, still alive.

Ellen Bass – Foi esta a porta

Não havia beleza
quando eu me sentava na cozinha, à mesa,

rompendo as cápsulas rosadas, dividindo os grânulos
para que ela pudesse ingerir a promessa precisa,

onde ela se deitava no quintal envolta em colchas
todas as noites olhando por entre os ramos, estrelas

salpicadas no venoso céu escuro.
Não havia tempo

lá fora. Ou o tempo era grande o suficiente para retê-la.
Uma lua girando lentamente. Esperei

o quanto pude. Então começamos.
Um banho. Chá. Litanias

de consolação, embora ela estivesse inconsolável.
Massageei seus pés diante da porta

o que levou a uma noite de insônia ou
à noite em que nos dividimos

nas celas de nossos sonhos separados. Pela janela,
a paciência das árvores.

Eu estava tão cansada. Eu disse a mim mesma que ela não estava morta.
Que ela não estava morrendo. Chamei aquele de lugar infernal.

Somente com a distância
podemos suportar a beleza

do que é tão abrasador, tendo
a luz viajado tanto, até aqui.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “This Was the Door”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 34

This was the door

There was no beauty
when I sat at the kitchen table, breaking

open the pinkish capsules, dividing the granules
so she could swallow the precise promise,

where she lay in the backyard wrapped in quilts
every night staring up through the branches, stars

flecked in the black-veined sky.
There was no time

out there. Or time was large enough to hold her.
One moon slowly rolling over. I waited

long as I could. Then we began.
A bath. Tea. Litanies

of consolation, though she was inconsolable.
I rubbed her feet before the door

which led to a sleepless night or
to the night of us split

into the cells of our separate dreams. Through the window,
the patience of trees.

I was so tired. I told myself she wasn’t dead.
She wasn’t dying. I called it the hellhole.

It’s only with distance
we can bear the beauty

of that much burning, the light
having traveled so long, so far.

Ellen Bass – Fracasso

Eu parecia uma mulher. Tinha começado
a sangrar, algo que eu queria com fervor,
o mesmo fervor no qual ardi
ao beijar Earl Freeman, cheirar seu suor de homem
e tocar o côncavo em seu esterno
quando nos deitamos na areia quente em Atlantic City,
o céu claro arqueado sobre nós. Eu estava com tanta pressa
de crescer, disse minha mãe. Mas eu era inocente
no sentido de ainda não ser culpada
quando levei a colherada de mingau
aos lábios do meu pai
no dia em que ele voltou do hospital.
Minha mãe teve que voltar ao trabalho —
na Hy-Grade Wines and Liquors,
que pagou a mesa de fórmica marrom,
o refrigerador e a lava-louças rosa. Tínhamos nos mudado
do apartamento sobre a loja
para uma casa com uma porta principal.
Eu queria que as pessoas tocassem a campainha
para eu responder como na TV.
Não parecia que seria muito difícil
alimentar meu pai. Posso fazer isso,
assegurei à minha mãe.
Acho que verei essa cena para sempre, meu pai debilitado
de pijamas, eu segurando
a colher de mingau de aveia fina, levando-a
aos lábios dele e os lábios não
pegando, sem realmente querer ou
não querer. Então o mingau
voltou a cair, escorrendo
em seu queixo mal barbeado e ele
não fez nada para impedir. Meu pai.
Eu o deixei lá. Este foi meu primeiro
ingresso na terra do fracasso, um país
que eu visitaria com tanta frequência
que começaria a me sentir em casa.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Failure”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 33

Failure

I looked like a woman. I’d begun
to bleed, something I’d wanted with a fervor,
like the fervor with which I burned
to kiss Earl Freeman, to smell his man sweat
and finger the hollow at his breastbone
when we lay in the hot sand in Atlantic City,
the white sky arched over us. I was in such a hurry
to grow up, my mother said. But I was innocent
in the sense of not yet guilty
as I lifted the spoonful of oatmeal
to my father’s lips
the day he came home from the hospital.
My mother had to go back to work—
Hy-Grade Wines and Liquors,
which paid for the brown Formica table and pink
refrigerator, pink dishwasher. We’d moved
from the apartment over the store
into a house with a front door.
I wanted people to ring the bell
and I’d answer it like on TV.
It didn’t seem like it would be too hard
to feed my father. I can do it,
I assured my mother.
I think I may see us there forever, my weak father
in pajamas, me holding
the spoon of thin oatmeal, lifting it
to his lips and the lips not
taking it, not really willing or
unwilling. So the gruel
slid back out again, dribbling
down his badly shaved chin and he
not doing anything to stop it. My father.
I left him there. This was my first
entrance into the land of failure, a country
I would visit so often
it would begin to feel like home.

Ellen Bass – Matrimônio

Quando, depois de uma grave enfermidade, você
finalmente repousa toda a extensão do seu corpo sobre o meu,
não é como as camadas da terra, a pressão
do tempo sobre a areia, a lama, pedaços de conchas, todos
esses anos, incontáveis despertares, adormeceres,
noites de insônia, brigas, banais manhãs
conversando sobre nada, e o breve
mergulho em chamas, e o silêncio
inconsciente dos animais pastando, a água
em movimento, o vento, o gelo que carrega os minutos, deixando
para trás minérios que unem a rocha ao sedimento.
Como suportar o peso, com cada
pedaço de osso pressionado? E depois, como suportar quando
o peso se vai, do mesmo modo que uma mulher,
cujo pescoço foi enfeitado com argolas, não pode
mais mantê-lo firme sozinha? Oh o amor,
é um bálsamo mas também um lacre. Ele nos une com força
como a pele de um coelho a um coelho.
Quando você a arranca, agarrando pela borda
da pele fatiada, separando as membranas
lustrosas, o corpo fica morno e flácido. Se pudesse,
você penetraria naquela pela úmida e escorregadia
e a levaria nas costas. Não é pura,
branca e rendada como um casamento,
não é a efervescência brilhante da champanhe
escorrendo sobre o gargalo da garrafa. Essa união
sangrenta visceral que é amor, mas
está além do amor. Além do encanto e do deleite
o modo como você é para si mesmo está além do encanto e do deleite.
Esta é a esfolada carne do amor, os becos e vidros
estilhaçados do amor, as pétalas arrancadas dos ramos do amor,
o pranto rouco e vertiginoso, a fome obstinada.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Marriage”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 32

Marriage

When you finally, after deep illness, lay
the length of your body on mine, isn’t it
like the strata of the earth, the pressure
of time on sand, mud, bits of shell, all
the years, uncountable wakings, sleepings,
sleepless nights, fights, ordinary mornings
talking about nothing, and the brief
fiery plummets, and the unselfconscious
silences of animals grazing, the moving
water, wind, ice that carries the minutes, leaves
behind minerals that bind the sediment into rock.
How to bear the weight, with every
flake of bone pressed in. Then, how to bear when
the weight is gone, the way a woman
whose neck has been coiled with brass
can no longer hold it up alone. Oh love,
it is balm, but also a seal. It binds us tight
as the fur of a rabbit to the rabbit.
When you strip it, grasping the edge
of the sliced skin, pulling the glossy membranes
apart, the body is warm and limp. If you could,
you’d climb inside that wet, slick skin
and carry it on your back. This is not
neat and white and lacy like a wedding,
not the bright effervescence of champagne
spilling over the throat of the bottle. This visceral
bloody union that is love, but
beyond love. Beyond charm and delight
the way you to yourself are past charm and delight.
This is the shucked meat of love, the alleys and broken
glass of love, the petals torn off the branches of love,
the dizzy hoarse cry, the stubborn hunger.

Ellen Bass – Retorno para mamografia e ultrassom

Então é para isso que estou aqui, para olhar para dentro
do peso mudo da minha mama direita, um punhado denso
de tesouros que eu desejava quando menina quando chorei
atrás da cortina na loja de espartilhos das irmãs Guerlaine.
Aquelas afáveis solteironas mal podiam suportar
minhas lágrimas, enquanto ajustavam as alças
de um sutiã de rendas com enchimento. Tive que esperar mais um ano
antes que meus seios inchassem como velas ao vento
e muitos foram os exploradores transportados,
em busca de perfumes e especiarias,
pelos inervados mamilos cantando através dos fios.
Mas nunca houve uma alegria como esta,
comigo ali deitada na friagem verde pálida da radiologia.
A linhagem da morte desviou-se de mim.
Ah, feliz amor! Mais, mais do que feliz!1
Enquanto o bastão do ultrassom desliza sobre a minha carne,
revela-se um rio de luz, um emaranhado
brilhante e ondulante de lóbulos e dutos de leite,
ligamentos e tecidos, inofensivos e radiantes
contra a gordura negra. Esta poderia ser a visão
do céu noturno, aquela estreita faixa luminosa,
um esporão brilhante da Via Láctea,
e eu, em minha vida infinitesimal,
pelo menos por esta noite, manterei estes adoráveis átomos
antes de devolvê-los às estrelas.

1. Referência a um dos versos da terceira estrofe de Ode a uma Urna Negra, de John Keats.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Mammogram Call Back with Ultra Sound”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 31

Mammogram Call Back with Ultra Sound

So this is what I’m here for, to see inside
the mute weight of my right breast, heavy handful
of treasure I longed for as a girl when I cried
behind the curtain in the Guerlaine sisters’ corset shop.
Those tender spinsters could hardly bear
my tears, as they adjusted the straps
on a padded lace bra. I had to wait another year
before my breasts swelled like wind-filled sails
and many were the explorers carried away,
searching for perfumes and spices,
the nerve-laden nipples singing through the wires.
But never has there been a joy like this
as I lay in the pale green cool of radiology.
The lineage of death has swerved around me.
More happy love! More happy, happy love!
As the wand of the ultrasound glides over my flesh,
revealed is a river of light, a bright
undulant tangle of lobules and milk ducts,
ligaments and tissue, harmless and radiant
against the black fat. I could be looking up
at the night sky, this wispy band of brilliance,
a shining spur of the milky way galaxy,
and I, in my infinitesimal life, will,
at least for tonight, keep these lovely atoms
before I must return them to the stars.

Ellen Bass – Experimento de empatia

A cientista coloca cada rato
em sua própria caixa de vidro
e reproduz por trinta segundos
“What a Wonderful World.”
Nos últimos três segundos ela aplica um choque em um dos ratos.
Isto é seguido por noventa pulsações de silêncio.
E então o ciclo recomeça.

Enquanto ela descreve o experimento
não posso deixar de pensar
em como isso soa familiar – um minuto de
Louis Armstrong cantando
e no seguinte –
alguma febre ou soçobro, algum erro irreal.
E me sento segurando uma colher,
incapaz de leva-la à boca, incapaz
de largá-la.

Esta linhagem de ratos descende

de um circo no século XIX. Seus ancestrais
balançavam-se em trapézios de fitas de cetim
e saltavam através de minúsculos anéis de fogo.
Agora, nenhuma dessas habilidades pode salvá-los.

E olha só que coisa:
o rato que não leva o choque,
que apenas observa,
também entra em pânico. Isso é empatia.
Sentir o que outra criatura sente.

Mas às vezes é demais pedir
para que uma pessoa habite
a estranha região de um coração alheio.

Certa vez, empanturrada de dor,
disse a um amigo,
Só pare um pouco e imagine
que isso está acontecendo com você.

Ele olhou para frente
e disse: eu não quero.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Experiment in Empathy”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 30

Experiment in Empathy

The scientist places each rat
in its own glass box
and for thirty seconds he plays
“What a Wonderful World.”
In the last three seconds, he shocks the rat.
This is followed by ninety beats of silence.
And then the cycle begins again.

As she describes it to me
I can’t help thinking
how familiar this is – one minute
Louis Armstrong singing
and the next –
some fever or wreck, some impossible mistake.
And I sit holding a spoon,
unable to lift it to my mouth, unable
to put it down.

This strain of rats descends 

from a circus in the 1800s. Their ancestors
swung on satin-ribboned trapezes
and leaped through tiny rings of fire.
Now, none of those skills can save them.

Feling what another creature feels.

And here’s the thing:
a rat who isn’t shocked,
who only watches,
panics too. That is empathy.

But sometimes it’s too much to ask
a person to inhabit
the strange region of a foreign heart.

Once, when I was in a glut of pain,
I said to a friend,
Just take an hour and imagine
this is happening to you.

She looked straight ahead
and said, I don’t want to.

Ellen Bass – Porque

Porque na noite em que dei à luz meu marido ficou cego.
Histérico, acho que é como você denominaria isso.

Porque havia muitas pessoas
e depois não havia ninguém. Apenas

aquela pequena criatura — seu pequeno choro
não maior do que uma lantejoula.

Porque eu fizera força por muitas horas.
Mesmo com as placas macias do crânio dela

que se movimentavam e a clavícula estreita.
Quando me agachei

pude sentir as molhadas mechas de cabelo daquele ser que vivia
dentro de mim, mas cujo coração era frágil.

A parteira tinha me pedido para não empurrar
no caminho para o hospital, mas eu empurrara mesmo assim.

Isto foi na Califórnia dos anos setenta e eu teria empurrado até morrer.
O médico pediu permissão para cortar

o meu períneo. Tão polido, como se estivesse pedindo
o prazer da próxima dança. Então ele deslizou o fórceps

habilmente, sem um arranhão nas têmporas dela.
Mas deixamos aquele abrigo na mesma noite porque meu marido

não acreditava em hospitais, a bebê nua,
embrulhada apenas em um cobertor, porque os dois acreditávamos

em pele com pele. Porque a bebê chorava
mas não mamava.

Porque quando pude me levantar
comecei a desmaiar, então tive que rastejar

até as fraldas esterilizadas e o macacão amarelo claro
dobrado dentro do saco pardo de papel que eu preparara na estufa.

Porque eu ainda estou ali de joelhos,
barriga murcha e seios maduros, mamilos enormes e escuros,

rasgando o saco grampeado,
tateando os alfinetes de patinhos,

dois dedos deslizando entre a barriga da bebê
e as grossas camadas de algodão, a ponta afiada.

A bebê, uma estranha,
mas tão estranhamente familiar,

manchas de sangue ainda grudadas em seu couro cabeludo.
Porque meu marido dormiu

ao meu lado e eu o deixei dormir.
Porque levaria anos antes que eu o abandonasse.

Agora o amor e a dor seriam maiores
do que eu jamais imaginei,

enraizados juntos como o norte e o sul,
por cima e por baixo.

Porque eu também tinha sido empurrada
para um outro mundo

fiquei ali com a bebê choramingando em meus braços,
nós duas bem despertas na escuridão.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Because”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 29

Because

Because the night I gave birth my husband went blind.
Hysterical, I guess you’d call it.

Because there’d been too many people
and then there was no one. Only

this small creature—her tiny cry
no bigger than a sequin.

Because I’d been pushing too many hours.
Even with her soft skull plates shifting,

the collar of my bones too slender.
When I reached down

I could feel the wet wisps of hair of this being living
inside me, but her heart was weakening.

The midwife told me not to push
on the way to the hospital, but I pushed anyway.

This was California in the seventies and I’d have pushed until I died.
The doctor asked for permission to cut

my perineum. So polite, as though he were requesting
the pleasure of the next dance. Then he slid in forceps

skillfully, not a scratch on her temples.
But we left that haven the same night because my husband

didn’t believe in hospitals, the baby naked,
wrapped only in a blanket because we both believed

in skin to skin. Because the baby cried,
but wouldn’t suck.

Because when I started to stand
I started to faint so I had to crawl

to the sterile diapers and pale-yellow sleeper
folded inside the brown paper bag I’d baked in the oven.

Because I’m still there on my hands and knees,
deflated belly and ripe breasts, huge dark nipples,

tearing open the stapled bag,
fumbling the ducky pins,

two fingers slipped between the baby’s belly
and the thick layers of cotton, the sharp point.

The baby, a stranger,
yet so strangely familiar,

flecks of blood still stuck to her scalp.
Because my husband slept

beside me and I let him sleep.
Because it would be years before I left him.

Now love and grief would be greater
than I ever imagined,

rooted together like north and south,
over and under.

Because I too had been pushed out
into another world

I lay there with the baby whimpering in my arms,
both of us wide awake in the darkness.

Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary

Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu.

Hoje está cinzento, garoa,
mas não o suficiente para que as gotas se acumulem
nas pontas das agulhas de prata
ou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –
alguns deles com mais de um século.
Eles estavam aqui quando
os trens circulavam sobre os trilhos
dormentes. E antes de adentrar
três metros na floresta, eu ouço o som.
Claro. Tinha que existir um trem.
Mas eu não esperava que ainda funcionasse
assim, as pessoas
entrando e saindo com seus pacotes.
Eu não havia pensado no cheiro de resina se espalhando na tarde fria. As árvores
avançam até a borda
dos fossos onde os judeus eram abatidos
de forma que seus corpos caíssem
com eficiência. Seus ramos não puderam salvar
ninguém. Suas agulhas ofereceram oxigênio
às vítimas e aos verdugos, da mesma forma.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Pines of Ponary”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 28

Pines at Ponary

One hundred thousand people were murdered by the Nazis at Ponary, ten kilometers southwest of Vilnius, where my grandmother was born.

Today is gray, drizzling,
but not enough for drops to pool
on the tips of the silver needles
or soak the bark of the pines at Ponary –
some of them more than a century old.
They were here when
the trains wheeled on numb
rails. And before I have gone
ten feet into the forest, I hear the sound.
Of course. There would have to be a train.
But I hadn’t expected it still to run
like this, people
getting off and on with their packages.
I hadn’t thought of the scent of resin spilling into the cold afternoon. The trees
step to the rim
of the pits where Jews were shot
so the bodies fell in
efficiently. Their branches could save
no one. Their needles offered oxygen
to victims and executioners, the same.

Ellen Bass – A longa recuperação

Quando você voltava para casa vinda
dos campos de morango, eu despejava
a sujeira das barras de sua calça jeans,
e removia a terra lamacenta dos joelhos.
Isso me fazia querer lamber o suor
do seu pescoço, provar o sal
das fendas empoeiradas. Não, não,
eu digo agora ao meu estúpido sexo
que, como um cão, não consegue entender.
Eu sei que sou menos que um cisco no planeta,
o planeta é menos que um cisco,
e assim por diante. É sagrado
ou insano que eu me importe tanto
comigo mesma, que você
signifique tanto para mim? De que me serve
volta-la de novo e de novo
para o sol? Tenho idade
suficiente para saber que não há nada
que amemos sem incorrer
na dívida da dor. As folhas de bordo
bordadas de carmesim. O peito
brilhante amarelo da toutinegra, seu
pio-pio pio-pio pio cantar.
Sua mão, ao levantar uma xícara, cheia
de veias, enrugada, a pele
solta quase transparente, quase familiar
como a minha. Como posso mergulhar mais fundo
nesta vida? Por que
acho que há algo melhor que
eu poderia estar fazendo?
Sinto a sua falta. Sinto a sua falta. Creio
em seu cheiro animal. Creio que as estrelas
ardem no desnudo céu diurno.
Creio que a terra se precipita através do espaço,
embora hoje eu não possa sentir a menor brisa.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “The Long Recovery”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 27

The Long Recovery

WHEN YOU would come home
from the strawberry fields, I’d empty
the dirt from the cuffs of your jeans,
scrub the mud ground into the knees.
It made me want to tongue the sweat
from your throat, taste salt
from the dusty crevices. No, no,
I say now to my dumb sex,
that like a dog can’t understand.
I know I’m less than a speck on the planet,
the planet less than a speck,
and so on. Is it sacred
or insane that I matter so much
to myself, that you
matter so much to me? What use
is my turning you again and again
toward the sun? I’m old
enough to know there’s nothing
we love without incurring
the debt of grief. The maple leaves
just edged with crimson. The bright
yellow breast of the warbler, its
swee swee swee sweetie cry.
Your hand, as you lift a cup, riddled
with veins, ruched, the loose
skin almost transparent, almost familiar
as my own. How can I hurl myself deeper
into this life? Why
do I think there’s something better
I could be doing?
I miss you. I miss you. I believe
in your animal scent. I believe stars
burn in the blank day sky.
I believe the earth rushes through space
though today I can’t feel the slightest breeze.

Ellen Bass – Índigo

Enquanto caminho pela West Cliff Drive, um homem corre
na minha direção empurrando um daqueles carrinhos de corrida
com amortecedores para que o bebê continue dormindo,
e ele de fato está. Consigo apenas ter um vislumbre
de suas pálpebras quase translúcidas. O pai é jovem,
uma jungle de índigo e cornalina tatuados
dos dedos ao maxilar, densas videiras e flores,
santos e símbolos. Espessas cavilhas de madeira perfuram
seus lóbulos e seus óculos escuros testemunham
o halo cintilante que o circunda. Estou cheia de inveja.
Como costumo ficar. É uma espécie de obsessão.
Queria que ele tivesse sido o pai da minha filha.
Queria ter casado com um homem que quis
estar em um corpo, que quis habitá-lo tanto
que o rabiscou inteiro, como a um livro, sublinhando,
destacando, anotando nas margens: eu estive aqui.
Não como o meu falecido ex-marido, que estava sempre
combatendo a carne, que sentou por horas
em seu zafu entoando om e depois saiu
e quebrou sua mão dando um murro no carro.
Imagino que quando esse homem galopante chegar em casa,
ele vai querer transar com sua mulher,
que dormiu até tarde, e depois vai comer
costelas grelhadas e deixar o bebê morder um osso
enquanto ele bebe uma cerveja preta gelada. Não consigo parar
de desejar que minha filha tivesse tido um pai assim.
Não consigo parar de desejar ter tido essa vida. Oh, eu sei
o milagre que é ter uma vida. Qualquer vida.
Levou oito anos para que meus pais me concebessem.
Primeiro houve a guerra e depois a espera.
E os ossos da minha mãe eram tão estreitos que ela teve que ser cortada,
e eu, transportada de avião. Que alguém nasça,
e cada sucesso precário do esperma e óvulo
ao zigoto, embrião, criança, é uma maravilha.
E aqui estou eu, viva.
Quase setenta anos e nada me matou.
Nem o carro que eu destruí ultrapassando o sinal vermelho
ou a espiroqueta que se aferrou ao meu sangue.
Nem a árvore que caiu na floresta exatamente
onde eu estava — meu melhor amigo me empurrou
para trás e eu caí de bunda enquanto ela tombava.
Eu estou viva.
E eu dei à luz uma criança.
Mas ela não teve um pai que a colocasse
nos ombros. E muitas outras coisas.
Eu chorei a maior parte da minha vida por causa disso.
E agora há tudo sobre o que não podemos falar.
Nós nos amamos — mas não podemos exigir
muito uma da outra.
No entanto, ela foi a única que, quando lhe pedi que me matasse
se a demência tomasse conta de mim —
estávamos a caminho da Ross
para comprar alguns vestidos. Isso é algo que
ela ama e todos ficam adoráveis nela —
ela foi a única
que não hesitou, nem se recusou
nem vacilou ou pestanejou.
Enquanto atravessávamos o estacionamento
ela disse, OK, mas qual é a linha divisória?
É só isso que eu preciso saber.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Indigo”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 26

Indigo

As I’m walking on West Cliff Drive, a man runs
toward me pushing one of those jogging strollers
with shock absorbers so the baby can keep sleeping,
which this baby is. I can just get a glimpse
of its almost translucent eyelids. The father is young,
a jungle of indigo and carnelian tattooed
from knuckle to jaw, leafy vines and blossoms,
saints and symbols. Thick wooden plugs pierce
his lobes and his sunglasses testify
to the radiance haloed around him. I’m so jealous.
As I often am. It’s a kind of obsession.
I want him to have been my child’s father.
I want to have married a man who wanted
to be in a body, who wanted to live in it so much
that he marked it up like a book, underlining,
highlighting, writing in the margins, I was here.
Not like my dead ex-husband, who was always
fighting against the flesh, who sat for hours
on his zafu chanting om and then went out
and broke his hand punching the car.
I imagine when this galloping man gets home
he’s going to want to have sex with his wife,
who slept in late, and then he’ll eat
barbecued ribs and let the baby teethe on a bone
while he drinks a cold dark beer. I can’t stop
wishing my daughter had had a father like that.
I can’t stop wishing I’d had that life. Oh, I know
it’s a miracle to have a life. Any life at all.
It took eight years for my parents to conceive me.
First there was the war and then just waiting.
And my mother’s bones so narrow, she had to be slit
and I airlifted. That anyone is born,
each precarious success from sperm and egg
to zygote, embryo, infant, is a wonder.
And here I am, alive.
Almost seventy years and nothing has killed me.
Not the car I totalled running a stop sign
or the spirochete that screwed into my blood.
Not the tree that fell in the forest exactly
where I was standing—my best friend shoving me
backward so I fell on my ass as it crashed.
I’m alive.
And I gave birth to a child.
So she didn’t get a father who’d sling her
onto his shoulder. And so much else she didn’t get.
I’ve cried most of my life over that.
And now there’s everything that we can’t talk about.
We love—but cannot take
too much of each other.
Yet she is the one who, when I asked her to kill me
if I no longer had my mind—
we were on our way into Ross,
shopping for dresses. That’s something
she likes and they all look adorable on her—
she’s the only one
who didn’t hesitate or refuse
or waver or flinch.
As we strode across the parking lot
she said, O.K., but when’s the cutoff?
That’s what I need to know.