Ellen Bass – O importante é

O importante é

amar a vida, ama-la mesmo
quando você não tem estômago para isso
e tudo o que você guardou afetuosamente
se desfaz feito papel queimado em suas mãos,
sua garganta repleta desse lodo.
Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropical
condensando o ar, pesado como água,
mais apto para guelras do que para pulmões;
quando a dor pesa sobre você como sua própria carne,
só que um pouco mais, uma obesidade de dor,
você pensa: como pode um corpo suportar isso?
Então você segura a vida como um rosto
entre as palmas das mãos, um rosto banal,
sem sorriso encantador nem olhos violeta,
e você diz, sim, eu a aceitarei,
eu a amarei, novamente.

Trad.: Nelson Santander

The Thing Is

to love life, to love it even
when you have no stomach for it
and everything you’ve held dear
crumbles like burnt paper in your hands,
your throat filled with the silt of it.
When grief sits with you, its tropical heat
thickening the air, heavy as water
more fit for gills than lungs;
when grief weights you down like your own flesh
only more of it, an obesity of grief,
you think, How can a body withstand this?
Then you hold life like a face
between your palms, a plain face,
no charming smile, no violet eyes,
and you say, yes, I will take you
I will love you, again.

Ellen Bass – O panorama geral

Eu tento ver o panorama geral.
O sol, língua ardente
que nos lambe como uma mãe encantada

por sua nova cria, se consumirá.
Tudo é transitório.
Pense no meteoro

que aniquilou os dinossauros.
E antes disso, nos vulcões
do Permiano — todas aquelas samambaias

e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —
que foram extintos em uma escala
que faz com que nossas perdas pareçam um dia difícil no caça-níqueis.

E talvez estejamos destinados a evoluir
para algum tipo de inteligência
que não precisa de corpos, ou água potável, ou mesmo de ar.

Mas não consigo deixar de me afligir
pelos últimos seiscentos Linces-ibéricos
com suas orelhas tufadas,

pelos Peixes-viola brasileiros, os 4
porcento deles ainda pervagando
o leito oceânico, olhos fixos no alto.

E por todos os marsupiais recém-nascidos —
Cangurus-vermelhos com filhotes do tamanho de abelhas —
Trutas-arco-íris, Botos-cor-de-rosa,

e pelas muitas espécies de sapos
respirando através de suas úmidas
membranas permeáveis.

Hoje, no ônibus, uma mulher
em um suéter do tom exato dos cardeais,
e sua alça de sutiã carmesim, exposta

em sua pálida espádua, fez-me sofrer
por aqueles brilhantes flashes na neve.
E pelos ursos polares, o creme e o âmbar

de seus pelos, o longo, oco
pelame pelo qual o sol desliza,
engolido em sua pele escura. Quando cheguei em casa,

meu filho estava com dor de cabeça e, embora ele esteja
quase crescido, pediu-me que lhe cantasse uma canção.
Deitamos juntos no sofá irregular

e me pus a cantarolar as velhas melodias, “Night and Day”. . .
“They Can’t Take That Away from Me.”. . . Uma corrente
de prata vulgar cintilava em seu pescoço,

subindo e descendo com sua pulsação. Nunca houve
outra coisa. Apenas estas dolorosamente
insignificantes criaturas que amamos.

Trad.: Nelson Santander

The big picture

I try to look at the big picture.
The sun, ardent tongue
licking us like a mother besotted

with her new cub, will wear itself out.
Everything is transitory.
Think of the meteor

that annihilated the dinosaurs.
And before that, the volcanoes
of the Permian period — all those burnt ferns

and reptiles, sharks and bony fish —
that was extinction on a scale
that makes our losses look like a bad day at the slots.

And perhaps we’re slated to ascend
to some kind of intelligence
that doesn’t need bodies, or clean water, or even air.

But I can’t shake my longing
for the last six hundred
Iberian lynx with their tufted ears,

Brazilian guitarfish, the 4
percent of them still cruising
the seafloor, eyes staring straight up.

And all the newborn marsupials —
red kangaroos, joeys the size of honeybees —
steelhead trout, river dolphins,

so many species of frogs
breathing through their damp
permeable membranes.

Today on the bus, a woman
in a sweater the exact shade of cardinals,
and her cardinal-colored bra strap, exposed

on her pale shoulder, makes me ache
for those bright flashes in the snow.
And polar bears, the cream and amber

of their fur, the long, hollow
hairs through which sun slips,
swallowed into their dark skin. When I get home,

my son has a headache and, though he’s
almost grown, asks me to sing him a song.
We lie together on the lumpy couch

and I warble out the old show tunes, “Night and Day”. . .
“They Can’t Take That Away from Me.”. . . A cheap
silver chain shimmers across his throat,

rising and falling with his pulse. There never was
anything else. Only these excruciatingly
insignificant creatures we love.