Roger Wolfe – O amor, suponho

Tenho andado a pensar em escrever
um poema de amor
dedicado à minha mulher,
a verdade é que não sei
por que mas fico
incrivelmente triste e os poemas
de amor não me têm saído
suficientemente bem – ou talvez eu nunca
me tenha esforçado de forma séria -;
suponho que o amor
deve ser
como esses raríssimos instantes
de felicidade
se por um momento
os vives
eu diria
que não é conveniente
andar a perder tempo
com poemas.

Trad.: Luiz Filipe Parrado

Roger Wolfe – A Última Noite da Terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa
E, no entanto, permaneço aqui.
Sua melodia não muda, já o escrevi antes.
Mas o meu trabalho é constatar o óbvio
e é isso que o melro faz-me recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
por sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vazam pelo ralo
do que alguém já chamou de “a história secreta”.
Tudo flui e se perde, os rios no mar,
o mar na imensidão incalculável do cosmos,
o cosmos no nada do qual não deveria ter saído.
Enquanto isso, digitamos.
Um surdo tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até o patíbulo.
Todavia, não é o frio o problema, mas o medo.
E é o melro, em sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que lhe impôs a biologia.
E depois morrerá. Sem epitáfios, como este,
que desaparecerão com um esgar de indiferença
entre as chamas da última noite da Terra,
quando ninguém já perceber qualquer significado,
se é que algo já fez sentido alguma vez.

Trad.: Nelson Santander

Roger Wolfe – La última noche de la tierra

El mirlo de todos los años ha vuelto a visitar mi casa
y todavía sigo aquí.
Su música no cambia y eso ya lo he escrito.
Pero mi trabajo es constatar lo obvio
y eso es lo que el mirlo me viene a recordar.
El tiempo pasa, la gente se hace vieja, se muere,
por su propia mano o con ayuda.
Las palabras van bajando por el desagüe
de lo que alguien ha llamado la intrahistoria.
Todo fluye y se pierde, los ríos en el mar,
el mar en la inmensidad inabarcable del cosmos,
el cosmos en la nada de la que no debió salir.
Mientras tanto tecleamos.
Un sordo tamborileo contra siglos de muerte programada
y un futuro de certera incertidumbre.
Un batallón de patéticos amanuenses del olvido
exigiendo dos camisas para el camino hacia el patíbulo.
Pero no es el frío el problema, sino el miedo.
Y es el mirlo, en su ignorancia, el que sabe la verdad.
Cumple sin la más mínima estridencia
el ritual que le ha impuesto la biología.
Luego morirá. Sin epitafios, como éste,
que se deshagan con una mueca indiferente
entre las llamas de la última noche de la Tierra,
cuando nadie entienda ya ningún significado,
si es que algo tuvo sentido alguna vez.

Roger Wolfe – Pálpebra

Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.

Trad.: Pedro Gomes Sena