Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama

Vazia, minha alta torre inclina-se
Para trás no penhasco; meu colmo
Conversa com a amplidão dispersa,
Garças. A parede cinza
Corta para baixo e encontra
Um instável córrego inundado
Por seixos, pequenas aves
Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam.

Atrás de mim, as oblíquas veias da colina
Se deslocam; úmida está minha cozinha,
Aranhas escondidas sob tonéis marrons.

Eu ouço a corrente mudar de ritmo, olho do fogão
Para ver que agora o bote de extremidades quadradas flutua
Livremente, para cima e para baixo, o cordame perfeitamente nivelado.

Abrindo a porta da cozinha
As amoreiras na pedreira sentem falta do meu cabelo
Brotando tão alto que seus frutos se perdem.

E subindo as altas escadas, minha cama está
Arrumada, mesmo com uma raiz de sicômoro
Em minha pequena janela.

A noite toda eu repouso coberta por lençóis, e minha vassoura persegue
Espirais de poeira nos pisos radiantes: o espanador amarelo desliza
Sobre as prateleiras, ao redor dos puxadores: cerdas afagando pavimentos
Dançando com as aranhas em volta da cozinha no escuro
Enquanto os gatos escalam a torre e o rio se enche
Com uma colher de luz da parede do porão lá embaixo.

Trad.: Nelson Santander
The Lady's Tower

Hollow my high tower leans
Back to the cliff; my thatch
Converses with the spread sky,
Heronries. The grey wall
Slices downward and meets
A sliding flooded stream
Pebble-banked, small diving
Birds. Downstairs my cellars plumb.

Behind me shifting oblique veins
Of the hill; my kitchen is damp,
Spiders shaded under brown vats.

I hear the stream change pace, glance from the stove
To see the punt is now floating freely
Bobs square-ended, the rope dead-level.

Opening the kitchen door
The quarry brambles miss my hair
Sprung so high their fruit wastes.

And up the tall stairs my bed is made
Even with a sycamore root
At my small window.

All night I lie sheeted, my broom chases down treads
Delighted spirals of dust: the yellow duster glides
Over shelves, around knobs: bristle stroking flagstone
Dancing with the spiders around the kitchen in the dark
While cats climb the tower and the river fills
A spoonful of light on the cellar walls below.

Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,
Um rio de telhados inclinando-se
Do lado do vale.
Frontões e chaminés
E torres, com árvores aninhadas entre elas:
Todas as formas de um cemitério
Vistas do alto de sua janela.

Um espelho em forma de caixão responde,
Luz suave, polido, liso como a pele,
Azul como grama cortada no gramado,
Gravatas retorcidas dobradas sobre ele.

Abrindo a porta, todas as paredes apontam ao mesmo tempo para a cama
Enorme seda vermelha em 1/4 do quarto
Nós afogados em mogno profundo
E uniformes volumes azuis guardados ao alcance da mão.

E um calendário de mesa, uma caneta-tinteiro,
Uma pesada luminária em mármore verde,
Uma caixa de charutos, vazia mas espanada,
Sobre a lareira fria, uma emoldurada jovem
Com um vestido branco aponta o futuro.

A casa repousa em silêncio,
O linóleo brilhante
Rangeria se você pisasse nele.
Lá fora ainda está chovendo
Mas os pássaros começaram a cantar.

Trad.: Nelson Santander

A Gentleman’s Bedroom

Those long retreating shades,
A river of roofs inclining
In the valley side.
Gables and stacks
And spires, with trees tucked between them:
All graveyard shapes
Viewed from his high windowpane.

A coffin-shaped looking-glass replies,
Soft light, polished, smooth as fur,
Blue of mown grass on a lawn,
With neckties crookedly doubled over it.

Opening the door, all walls point at once to the bed
Huge red silk in a quarter of the room
Knots drowning in deep mahogany
And uniform blue volumes shelved at hand.

And a desk calendar, a fountain pen,
A weighty table-lighter in green marble,
A cigar-box, empty but dusted,
A framed young woman in a white dress
Indicate the future from the cold mantel.

The house sits silent,
The shiny linoleum
Would creak if you stepped on it.
Outside it is still raining
But the birds have begun to sing.

Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro

Isso é o que eu herdei —
Nunca foi minha própria vida,
Mas o nome de uma casa que ouvi
E outras ouviram como uma advertência
Do que poderia acontecer a uma menina
Atrevida e apanhada pela má-sorte:
Um fragmento de um destino
Desolador, uma nota-marreta de medo —

Mas eu nunca vi o lugar.
Agora que estou no portão
E que o tempo já passou
É a ausência dele que chove,
Que perfura a costura
Do meu casacão, com agulhas
Pontiagudas, preenchendo o dia breve.

O portão de grades brancas está fechado,
A cerca branca perde-se de vista até
Onde passa a avenida, a chuva
Obscurece a distância, encobrindo todo som
E um semicerrado véu de névoa
Oculta elementos do conhecido:
Frontões e janelas altas e cegas.
A história se distanciou.

A chuva se incorpora ao gramado,
Soprada sobre o lago de marés
Passando pelo telhado isolado
E pelas árvores altas no parque;
Ela uiva em direção ao sul e ao oeste;
A terra é secreta como sempre:
O sangue que aqui foi semeado, floresceu,
E todas as sementes voaram para longe.

Trad.: Nelson Santander

O poema Bessboro, da poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin, se refere ao lar para mães e bebês, atualmente conhecido como Bessborough Center, situado na cidade de Cork, onde cresceu a autora. O abrigo – para o qual mães solteiras eram secretamente enviadas para terem seus filhos, que, posteriormente, eram entregues em adoção – tem uma história controversa, iniciada nos anos 20, recheada de denúncias escabrosas: encarceramento forçado, registros falsificados de mortes, bebês e internas enterrados em sepulturas não identificadas e não registradas, abusos físico e emocionais, participação forçada em testes médicos, adoções ilícitas etc.. Para saber um pouco mais sobre a história do lugar, vale a leitura da matéria contida no link que segue, publicada na BBC News. Mas ao pesquisar na internet, dezenas de outras matérias assim podem ser encontradas.

https://www.bbc.co.uk/news/resources/idt-sh/the_girls_of_bessborough

Bessboro

This is what I inherit—
It was never my own life,
But a house’s name I heard
And others heard as warning
Of what might happen a girl
Daring and caught by ill-luck:
A fragment of desolate
Fact, a hammer-note of fear—

But I never saw the place.
Now that I stand at the gate
And that time is so long gone
It is their absence that rains,
That stabs right into the seams
Of my big coat, in pointed
Needles, crowding the short day.

The white barred gate is closed,
The white fence tracks out of sight
Where the avenue goes, rain
Veils distance, dimming all sound
And a halfdrawn lace of mist
Hides elements of the known:
Gables and high blind windows.
The story has moved away.

The rain darns into the grass,
Blown over the tidal lough
Past the isolated roof
And the tall trees in the park;
It gusts off to south and west;
Earth is secret as ever:
The blood that was sown here flowered
And all the seeds blew away.