Dylan Thomas – Poema de outubro

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro … Continue lendo Dylan Thomas – Poema de outubro

T. S. Eliot – A Terra Desolada

    A TERRA DESOLADA        1922     Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse     oculis meis vidi in ampulla pendere,     et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις;     respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.*        A Ezra Paound        Il miglior fabbro I. O ENTERRO DOS MORTOS  Abril é o mais cruel dos meses, germinando Lilases da terra morta, misturando Memória e … Continue lendo T. S. Eliot – A Terra Desolada

T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

 “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre … Continue lendo T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

Ivan Junqueira – Vésperas

A tarde descortina uma paisagem híspida: no galho seco, o ninho é uma inútil relíquia que a luz do sol calcina até a estrita cinza. Gota a gota, o alambique das horas se esvazia, e dilui-se a vertigem do álcool que lhe mordia as veias retorcidas. Êxtase da agonia no crepúsculo a pino. Sob o … Continue lendo Ivan Junqueira – Vésperas

Dylan Thomas – Colina de samambaias

Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira, Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva, A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro, O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse, Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos, Eu, venerado entre as carroças, era o … Continue lendo Dylan Thomas – Colina de samambaias

Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem … Continue lendo Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Ivan Junqueira – O que sabemos

É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável … Continue lendo Ivan Junqueira – O que sabemos

Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que … Continue lendo Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Ivan Junqueira – A tua data

Alguém só morre em sua data, que é única, ôntica, enfática. Nunca depende de quem vai nem de quem fica ao pé da lápide. É quando o corpo, enfim, se acaba, e, se dele a alma se aparta, não cabe a ninguém afirmá-lo, nem se a tinha, em vida, o finado. É quando as lâmpadas … Continue lendo Ivan Junqueira – A tua data

Ivan Junqueira – Hoje

A sensação oca de que tudo acabou o pânico impresso na face dos nervos o solitário inverno da carne a lágrima, a doce lágrima impossível... e a chuva soluçando devagar sobre o esqueleto tortuoso das árvores