António Reis – Mudamos esta Noite

Mudamos esta noite E como tu eu penso no fogão a lenha e nos colchões onde levar as plantas e como disfarçar os móveis velhos Mudamos esta noite e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam e que os filhos dormem sempre nos quartos onde nascem Vai descendo tu Eu só quero ouvir os … Continue lendo António Reis – Mudamos esta Noite

Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações

Na minha família as orações eram rezadas secretamente, em voz baixa, o nariz vermelho sob o cobertor; quase murmuradas, com um suspiro no princípio e no fim, fino e limpo como uma gaze. Junto à casa havia apenas uma escada para subir, de madeira, encostada à parede o ano inteiro, de modo a reparar o … Continue lendo Luljeta Lleshanaku – O Mistério das Orações

Ana Goês – Convida-me só para jantar

E não queiras depois fazer amor. Convida-me só para jantar num restaurante sossegado numa mesa de canto e fala devagar e fala devagar eu quero comer uma sopa quente não quero comer mariscos os mariscos atravancam-me o prato e estou cansada para os afastar fala assim devagar devagar não é preciso dizeres que sou bonita … Continue lendo Ana Goês – Convida-me só para jantar

Sylvia Plath – Achava que não Podia ser Magoada

Achava que não podia ser magoada; achava que com certeza era imune ao sofrimento — imune às dores do espírito ou à agonia. Meu mundo tinha o calor do sol de abril Meus pensamentos, salpicados de verde e ouro. Minha alma em êxtase, ainda assim conheceu a dor suave e aguda que só o prazer … Continue lendo Sylvia Plath – Achava que não Podia ser Magoada

César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre pensei que os ossos, com seu brilho mineral de pedra polida pela chuva, são o que há de mais digno em nós: sobrevivem largamente à putrefação indecorosa da carne e não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander   César Cantoni - Lo más digno de nosotros Siempre pensé … Continue lendo César Cantoni – O mais digno em nós

Sophia de Mello Breyner Andresen – Terror de te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo Mal de te amar neste lugar de imperfeição Onde tudo nos quebra e emudece Onde tudo nos mente e nos separa. Que nenhuma estrela queime o teu perfil Que nenhum deus se lembre do teu nome Que nem o vento passe onde tu passas. … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Terror de te Amar

Mario Benedetti – Angelus

Quem me diria que o destino era isso Vejo a chuva através de letras invertidas Uma parede com manchas que parecem homens Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes E essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu, Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braços E uma cadeira … Continue lendo Mario Benedetti – Angelus