Tag: Paulo Henriques Britto
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Paulo Henriques Britto – de “Vers de circonstance”

I. Imunidade de Rebanho A estupidez é sua própria recompensa.Graças a ela, o mundo faz sentido,um só, que é fácil de identificar.E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar é coisa trabalhosa. A ignorânciaé o sumo bem dos cidadãos de bem,é a verdadeira marca dos eleitos.Ter sucesso é não ter que saber. Saber…
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William Butler Yeats – Leda e o cisne

Súbito, um baque: as grandes asas brancasPousam sobre a jovem, e a agarram com jeito,As patas negras lhe afagam as ancasE a estreitam, impotente, contra o peito. Com dedos trêmulos, como afastarDas coxas fracas o esplendor plumado?E como não sentir a palpitarO estranho coração, desabalado? Um espasmo ― e eis que se gera um novo…
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Paulo Henriques Britto – O aqualouco

“O aqualouco”, um poema de Paulo Henriques Britto que explora o deslumbramento e o desespero diante da imersão na realidade.
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Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que…
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Paulo Henriques Britto – Lacrimæ rerum

É o lamento das coisas,a desdita da matéria.Não tem nada a ver conosco,com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo.É uma questão de moléculas,que antecede a biologiapor coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcananosso entendimento pasma.Nem tudo está a vosso alcance,ó seres de protoplasma. Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e…
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Paulo Henriques Britto – Da irresolução

Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/03/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua…
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Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundofazem sentido. Senão não teriasentido elas serem. Ou estarem. Tudomais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nuncafaz parte de sempre, assim como zeroé apenas um número entre outros números.Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é só mais redonda que as outras…
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Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
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Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Ninguém se molha duas vezesna mesma tempestade. Mudamvocê, a água, nem é o mesmo,na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qualvocê houve por bem molhar-se,oferecendo ao temporal– por assim dizer – a outra face; não muda, porém, a consciênciade que os sapatos encharcadose a calça manchada de lama terão talvez efeito idênticoao que…
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Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero,mas não por haver esperança.Falta a ênfase, o tempero,o sal da intemperança, sem o qual não é iguariaà altura de grandes gestos.É mais da categoriadas migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassahá que se tirar sustância.(Até mesmo na desgraçaé pra poucos a abundância.) II Não há nenhum mistério nesta históriaem…