Joan Margarit – Passageira

Na grande janela do aeroporto
um amanhecer de luz branca, entre a névoa,
se ergue diante da garota com um livro
que ela nunca chegará a ler.
Minha juventude está ali também,
naquelas páginas de papel bíblia
dos russos do século dezenove.
Um tomo grosso encadernado em couro.

Natashas e Nastenkas, silenciosas
amigas de quem aprendi
a esperar, na neve e na nevasca,
uma acolhedora sombra de amor.

Mas a menina imóvel na cadeira
de rodas sabe que não estarei lá.
Olha para cima em direção a nostálgicas
fuselagens de aviões que repousam
como gaivotas em um mar congelado.
Acolhei minha filha, minhas amigas,
pois já não tenho rosto para ela:
meu rosto é tão somente uma janela
de aeroporto iluminada por noites brancas.

Trad.: Nelson Santander

PASAJERA

En el gran ventanal del aeropuerto
un alba de luz blanca, entre la niebla,
se alza ante la muchacha con un libro
que nunca alcanzará a poder leer.
Mi juventud está también ahí,
en esas páginas de papel biblia
de los rusos del siglo diecinueve.
Un grueso tomo encuadernado en piel.

Natashas y Nastenkas, silenciosas
amigas de las cuales aprendí
a esperar, en la nieve y la ventisca,
una abrigada sombra del amor.

Pero la chica inmóvil en la silla
de ruedas sabe que no llegaré.
Levanta la mirada hacia nostálgicos
fuselajes de aviones que descansan
como gaviotas en un mar helado.
Acoged a mi hija, amigas mías,
pues ya no tengo rostro para ella:
mi rostro es tan sólo un ventanal
de aeropuerto con luz de noches blancas.

Joan Margarit – Uma fotografia pendurada na parede

Uma fotografia pendurada na parede
Xavier Miserachs

Paseo de Gracia,
o inverno em que, sob a neve,
tu e eu nos conhecemos.
Em primeiro plano, de costas para mim,
alguns transeuntes que se afastam:
talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,
e talvez a mulher com um gorro
de lã sejas tu.
O fundo se desvanece
por trás dos flocos que caem,
nublando o Paseo sob as árvores:
a nave de uma branca catedral.

Agora estou na fotografia:
não se ouve nada, há carros estacionados
e enterrados até a metade das rodas.
Cruzamos solitários o Paseo congelado,
ladeados pelos plátanos e pelas ferragens negras
— quase cobertas de neve —
dos postes de luz de Gaudí.
Estamos dentro daquele mesmo inverno
em que não sabíamos
que o machado do frio já nos aguardava,
quando não haveria outro futuro
senão o amor de dois velhos por um fantasma.

Trad.: Nelson Santander

UNA FOTOGRAFÍA COLGADA EN LA PARED
Xavier Miserachs

El Paseo de Gracia,
el invierno en el que, bajo la nieve,
tú y yo nos conocimos.
En primer plano, dándome la espalda,
algunos paseantes que se alejan:
quizá soy yo ese hombre del paraguas,
y tal vez la mujer con el gorrito
de lana seas tú.
El fondo va borrándose
tras los copos que caen
anieblando el Paseo debajo de los árboles:
la nave de una blanca catedral.

Ahora estoy en la fotografía:
no se oye nada, hay coches aparcados
y sepultados hasta media rueda.
Cruzamos solos el Paseo helado,
flanqueados por los plátanos y los herrajes negros
—casi cubiertos por la nieve—
de las farolas de Gaudí.
Estamos dentro de aquel mismo invierno
en el que no sabíamos
que ya el hacha del frío nos estaba esperando,
cuando no hubiera otro porvenir
que el amor de dos viejos a un fantasma.

Joan Margarit – Uma história

Não digas nada, Joana,
apenas escuta-o e não digas nada.
Caminhávamos na chuvosa
manhã pela cidade adormecida,
e entrávamos lentamente
em uma via calçada
que não levava a lugar nenhum.
Algumas crianças, com gritos e canções,
queriam que nos aproximássemos do canal,
para que víssemos sua casa refletida na água.
Gostaste, lembra-te?,
de observar as crianças. Quando partimos
suas carinhas estavam grudadas nas vidraças,
suas vozes dissipando-se na água.
Chegamos tarde. Tarde demais.
Sempre teremos que voltar separadamente:
esse é o preço por termos sido capazes de
entrar em uma história.
E que sorte encontrar-te agora aqui,
de madrugada, transformada em um pátio:
o que quer dizer que, o tempo todo,
estiveste ao meu lado na escuridão.

Trad.: Nelson Santander

UN CUENTO

No digas nada, Joana,
tan sólo escúchalo y no digas nada.
Íbamos caminando en la lluviosa
mañana por el pueblo adormecido,
entrábamos despacio
por una calle adoquinada
que no llevaba a parte alguna.
Unos niños con gritos y canciones
querían acercarnos al canal,
que viésemos su casa reflejada en el agua.
Te gustaba, ¿recuerdas?,
ver a los niños. Al marcharnos
quedaban sus caritas pegadas al cristal,
sus voces apagándose en el agua.
Llegamos tarde. Demasiado tarde.
Habrá que volver siempre separados:
ése es el precio por haber podido
entrar dentro de un cuento.
Y qué suerte encontrarte ahora aquí,
de madrugada, convertida en patio:
lo que quiere decir que todo el tiempo
estabas junto a mí en la oscuridad.

Joan Margarit – Espaço e tempo

E de repente a casa ficou grande demais.
Tua mãe e eu esvaziamos teus roupeiros
e seguimos por mesas e prateleiras,
de retrato em retrato, teus sorrisos.
À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,
exibem com mais relevo o teu vazio.
Os móveis estão agora mais escuros.
Descem pelas escadas
o cálido balaústre que se lembra
de tua pequena mão,
e os degraus que ainda sentem
o roçar dos teus passos. E a casa,
grande e vazia agora,
em seu próprio silêncio se contempla.

Trad.: Nelson Santander

ESPACIO Y TIEMPO

Y de pronto la casa es demasiado grande.
Tu madre y yo vaciamos tus armarios
y seguimos por mesas y anaqueles,
de retrato en retrato, tus sonrisas.
De noche los espejos, bajo la luz eléctrica,
muestran con más relieve tu vacío.
Los muebles son ahora más oscuros.
Por la escalera bajan
la cálida baranda que recuerda
a tu pequeña mano,
y los peldaños que aún sienten
el roce de tus pasos. Y la casa,
grande y vacía ahora,
en su propio silencio se contempla.

Joan Margarit – Noite de junho

Quando saí do cinema já fazia escuro.
Naquele velho estacionamento, sem iluminação,
subi a rampa áspera e suja
porque havia estacionado no terraço.
Dentro de mim também era dura a ladeira:
os primeiros dias sem ti.
Mas ao chegar no topo, ao ar livre,
um cálido silêncio
envolvia a sombra dos carros:
os ladrilhos avermelhados, as grades
de ferro, singelas e delicadas,
e os vasos com hortênsias.
De repente, ao sair para o céu aberto,
um véu se rasgou e emergiu a noite
de um pátio de tijolos com limpas galerias
e seus vitrais iluminados.
Detive-me sentindo-te muito próxima.
E sentindo que, a qualquer momento,
poderia já fazer brotar
tesouros da morte.

Trad.: Nelson Santander

NOCHE DE JUNIO

Cuando salí del cine ya había oscurecido.
En aquel viejo parking, sin luz, iba subiendo
la rampa áspera y sucia
porque había aparcado en la terraza.
Dentro de mí también era dura la cuesta:
los primeros días sin ti.
Pero al llegar arriba, a la intemperie,
un cálido silencio
envolvía la sombra de los coches:
las baldosas rojizas, las barandas
de hierro, delicadas y sencillas,
y latas con hortensias.
De repente, al salir a cielo abierto,
un velo se rasgó y surgió la noche
de un patio de manzana con limpias galerías
y sus iluminadas cristaleras.
Me detuve sintiéndote muy cerca.
Y sintiendo que ya, en cualquier instante,
podría hacer surgir
tesoros de la muerte.

Joan Margarit – Final

Teu enterro, na primavera: foi essa
a mensagem final de tua bondade.
Nada melhor em torno de ti do que o ruído
desta cidade e, em frente,
a eternidade do mar.
Que rude fachada a do Montjuïc: vai
até onde o pensamento deseja.

O carrinho sobe os caminhos de areia
e os automóveis o seguem,
fazendo crepitar o cascalho ao pé
dos ciprestes na tranquila praça pela manhã.
Já posso sentir o teu sorriso que passa
por entre as brancas aves no céu,
agora que tudo volta ao seu princípio,
como quando tu não estavas.
Restou um aroma de flores junto à parede,
entre verdes escuros e fugidios.
As canções do sol do teu silêncio
iluminam o ferro do amanhã.
O que digo sobre ti não faz mais sentido
do que a enferrujada fechadura
de uma porta que não abre para lado algum.

4 de junho de 2001

Trad.: Nelson Santander

FINAL

Tu entierro, en primavera: ése fue
el mensaje final de tu bondad.
Nada mejor en torno a ti que el ruido
de esta ciudad y, enfrente,
la eternidad del mar.
Qué ruda proa Montjuïc: alcanza
tan lejos como quiera el pensamiento.

El furgón va subiendo por caminos de arena
y tras él van los coches,
que hacen crujir al pie de los cipreses
la grava en la tranquila plaza de la mañana.
Siento ya tu sonrisa que atraviesa
los claros pájaros del aire,
ahora que todo vuelve a su principio,
como cuando no estabas.
Ha quedado un olor a flores junto al muro,
entre verdes oscuros y huidizos.
Las canciones del sol de tu silencio
iluminan el hierro del mañana.
Lo que digo de ti no tiene más sentido
que la herrumbrosa cerradura
de una puerta que no abre a ningún sitio.

4 de junio de 2001

Joan Margarit – Teu lobo

Mira-o antes de ir-te
e dize-lhe adeus: ele foi
preso outras vezes
sem jamais se render.
Contempla-o, amarrado
no pátio nevado:
a corrente lhe roça
o pescoço, já sem pelos,
do qual pendem ainda
cordas gastas,
as que outrora ele partiu
em outros cativeiros.

Ele dorme quase
o tempo todo.
Tem manchas escuras
como de quando cai
o reboco de uma parede.
Infestado de pulgas,
na rosada língua
que pende avidamente
há pretas estrias
deixadas pela idade.
A pelagem do ventre,
das patas e da cauda
foi endurecida por uma lama
de terra e excrementos.
Penduram-se nele uma par de
folhas amarelas e secas,
caídas de alguma bananeira:
como dois crisântemos
de seu outono que, tristes,
compreensivos, o adornam.

Hoje, antes de partir, tu
soltaste a coleira.
A coleira caiu
— uma serpente negra —
sobre a neve gelada.
Mas já não se move.
O lobo permanece
imóvel, silencioso,
no pátio em silêncio.

Trad.: Nelson Santander

TU LOBO

Míralo antes de irte
y dile adiós: estuvo
amarrado otras veces
sin rendirse jamás.
Contémplalo, sujeto
en el patio nevado:
la cadena le roza
el cuello ya sin pelo
del que cuelgan aún
cuerdas deshilachadas,
las que antaño rompió
en otros cautiverios.

Yace medio dormido
a casi todas horas.
Tiene manchas oscuras
como cuando se cae
el estuco de un muro.
Infestado de pulgas,
en la rosada lengua
que le cuelga con ansia
se ven rayas negruzcas
dejadas por la edad.
El pelaje del vientre,
las patas y la cola,
lo ha endurecido un barro
de tierra y excrementos.
Le cuelgan un par de hojas
amarillas y secas,
caídas de algún plátano:
como dos crisantemos
de su otoño que, tristes,
comprensivos, le adornan.

Hoy, tú, antes de irte,
le has abierto el candado.
La cadena ha caído
—una serpiente negra—
sobre la nieve helada.
Pero ya no se mueve.
El lobo se ha quedado
inmóvil, silencioso,
en el patio en silencio.

Joan Margarit – O dia depois da morte

Hoje te vi e levavas tuas muletas azuis,
feliz como sempre e protegida
por aquele jovem pai entre as tensas
cordas do enorme violoncelo da chuva.
Jamais tu e eu lembraremos
de termos sido pai e filha
neste mesmo pátio, onde o loureiro
molhado balança ao anoitecer.

Trad.: Nelson Santander

EL DÍA DESPUÉS DE LA MUERTE

Hoy te he visto y llevabas tus muletas azules,
contenta como siempre y protegida
por aquel joven padre entre las tensas
cuerdas del cello enorme de la lluvia.
Jamás ni tú ni yo recordaremos
haber sido un padre y una hija
en este mismo patio, donde el laurel mojado
se está meciendo al anochecer.

Joan Margarit – Um pobre instante

A morte nada mais é do que isto: o quarto,
a luminosa tarde na janela,
e este toca-fitas na mesinha
– tão silencioso como o teu coração –
com todas as tuas canções tocadas para sempre.
Teu último suspiro segue dentro de mim
ainda em suspenso: não deixo que acabe.
Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?
Ouves como brincam as crianças
no pátio da escola?
Sabes, ao final da tarde,
como será esta noite,
noite de primavera? As pessoas virão.
A casa acenderá todas as suas luzes.

Trad.: Nelson Santander

UN POBRE INSTANTE

La muerte no es más que esto: el dormitorio,
la luminosa tarde en la ventana,
y este radiocasete en la mesita
tan apagado como tu corazón
con todas tus canciones cantadas para siempre.
Tu último suspiro sigue dentro de mí
todavía en suspenso: no dejo que termine.
¿Sabes cual es, Joana, el próximo concierto?
¿Oyes como en el patio de la escuela
están jugando los niños?
¿Sabes, al acabar la tarde,
cómo serà esta noche,
noche de primavera? Vendrá gente.
La casa encenderá todas sus luces.

Joan Margarit – Última caminhada

Já não comia. Caíam meus cabelos.
Ficava o dia todo de olhos fechados.
Mas saí para a varanda de madrugada
e alguém da calçada, sob uma árvore,
falou-me com uma voz como a de minha mãe,
que dormia em sua cama ao lado da minha.
De repente, não estava mais cansada
e desci sem muletas até a rua.
Nunca fora capaz de andar assim.
Senti minha alegria voltando:
caiu a doença como uma pele
suada, deixada ali na rua.
Nunca havia me sentido tão leve.
Olhei para trás, para minha varanda,
o corrimão como uma partitura.
Disse adeus ao meu pai e à minha mãe.

A vida me escolheu para o seu amor.
E a morte também.

Trad.: Nelson Santander

ÚLTIMO PASEO

Ya no comía. Se me caía el cabello.
Estaba todo el día con los ojos cerrados.
Pero salí al balcón de madrugada
y alguien desde la acera, bajo un árbol,
me habló con una voz como la de mi madre,
que dormía en su cama junto a mí.
De repente no estaba ya cansada
y bajé sin muletas a la calle.
Nunca había podido andar así.
Sentí que me volvía la alegría:
cayó la enfermedad como una piel
sudorosa, dejada allí en la calle.
Nunca pude sentirme tan ligera.
Miré hacia atrás, a mi balcón,
la baranda como una partitura.
Dije adiós a mi padre y a mi madre.

La vida me eligió para su amor.
También la muerte.