Fernando Sabino – Certeza

Fernando Sabino – Certeza

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.

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A vida…

A vida é um eterno recomeçar, até que não seja mais.

Foi-se 2022, com todo o seu aparato de sustos e alegrias, desafios e superações, terror e gozo; começa 2023, com seu bafejo de esperanças, sonhos e desejos. Ainda estamos, eu e você que me lê, nesse transatlântico do tempo – uns na amurada, outros no salão de jogos, alguns no convés, outros nos porões. Mas o certo é que

Estamos todos aqui / No meio desta vida / Vinda antes de nós – (“Jovens e Velhos“, Arnaldo Antunes).

Veja: não importa onde, mas sim quando. E quando é agora. Não importa o que você fez, mas o que fará daqui pra frente. Não importam as conclusões, mas os recomeços.

Que o seu 2023 seja o início da melhor fase de sua vida. Mas se não der, não tem problema: fica pra 2024. Ou 2025. Talvez 2026…

Feliz ano novo! E boa sorte para todos nós.

Nelson Santander

Charles Baudelaire – A Giganta

Pois quando a Natureza, em seu capricho exato,
Gerava estranhos seres raros, dia a dia,
Uma giganta moça – eis do eu gostaria,
Para viver-lhe aos pés com a volúpia de um gato.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma
E crescer livremente em seus terríveis jogos;
Ver se não teria no peito alguma oculta chama,
Com as chispas molhadas que mostra nos olhos.

Percorrer à vontade a realeza das formas,
Escalar a vertente dos joelhos enormes
E, quando os sóis do estio, à complacência alheios,

Estendem-na, cansada, ao longo da campina,
Dormir descontraído à sombra dos seus seios,
Como abrigo tranqüilo ao pé de uma colina.

Trad.: Décio Pignatari

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 14/11/2017

La géante

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J’eusse aimé vivre auprès d’une jeune géante,
Comme aux pieds d’une reine un chat voluptueux.
J’eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement dans ses terribles jeux;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;
Parcourir à loisir ses magnifiques formes;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,
Lasse, la font s’étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l’ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d’une montagne.

Wanda Coleman – Uma conversa com meu neto de seis anos de idade

há uma tempestade cósmica sempre que ele está em minha órbita
cinco raças em guerra fora do tempo, aprisionadas

em um corpo alto e petulante, joelhos e cotovelos ossudos

os ensinamentos rigorosamente amorosos da mãe e do pai criam
raízes a despeito da engenharia de mídia e da pressão dos amigos.
as tiradas insolentes, comentários desbocados, e o humor atrevido
que em breve farão parte de suas defesas adolescentes ainda não
se materializaram. neste momento, ele sabe que não deve faltar à verdade e

assim, nesta manhã de outono, quando o chamo
para uma conversa ancestral, ao coloca-lo no meu colo

ele hesita.

não tenha medo, eu digo. ele dá alguns pulinhos impacientes
que se transformam em contorções quando o agarro e o seguro com força

acomodado em minha suavidade, ele relaxa um pouco
mas fixa um olhar consternado em minhas mãos

isto é o que acontece, eu acho, quando os olhos vão contra o coração

Você está todo confuso, não está?

Sim.

Sua mãe faz parte de mim. Qual é o meu nome?
Do que você me chama?

Vovó.

Você não quer gostar de mim,
não é mesmo?

Sim.

Porque eu sou morena.

Ele fica em silêncio.

É por que eu sou morena?

Sim.

Não faz mal. Eu vou
ser morena para sempre. Tudo
bem se eu gostar de você?

Sim.

então eu o abraço e o solto, me perguntando
se isso será o suficiente para libertá-lo.

Trad.: Nelson Santander

A Talk with My Grandson, Age Six

there’s a cosmic storm whenever he’s in my orbit
five races at war outside time, trapped

in one spindly high-toned body, knobby elbows and knees

the rigorously loving teachings of mom and dad take
root despite media engineering and peer pressures.
the snippy cuttings, mouthy snipings, and cheeky wit
that will soon attend his adolescent defenses have yet
to materialize. right now he knows not to prevaricate

and so, that fall morning when i call him
to me for an ancestral chat, to take him into my lap

he hesitates.

don’t be afraid, i say. he takes a few eager skips
that turn into squirms when i grab him and hold him tight

situated in my softness, he relaxes some
but stares at my hands in consternation

this is what happens, i think, when the eyes go against the heart

You’re all mixed up, aren’t you?

Yes.

Your mother belongs to me. What’s my name?
What do you call me?

Grandma.

You don’t want to like me,
do you?

Yes.

Because I’m brown.

He’s silent.

Is it because I’m brown?

Yes.

Well, that’s okay. I’m going
to be brown forever. Is it
okay if I like you?

Yes.

then I hug him and let go, wondering
if that’s enough to set him free.

Maya Angelou – Ainda assim me Levanto

Você pode me inscrever na história
Com as mentiras amargas que contar
Você pode me arrastar no pó,
Ainda assim, como pó, vou me levantar

Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu caminho como se eu tivesse
Petróleo jorrando na sala de estar

Assim como a lua ou o sol
Com a certeza das ondas no mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar

Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído,
Ombros curvados como lágrimas,
Com a alma a gritar enfraquecida?

Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal
Só porque eu rio como se tivesse
Minas de ouro no quintal

Você pode me fuzilar com palavras
E me retalhar com seu olhar
Pode me matar com seu ódio
Ainda assim, como ar, vou me levantar

Minha sensualidade o agita
E você, surpreso, se admira
Ao me ver dançar como se tivesse
Diamantes na altura da virilha?

Das choças dessa história escandalosa
Eu me levanto
De um passado que se ancora doloroso
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e irrequieto
Indo e vindo contra as marés eu me elevo
Esquecendo noites de terror e medo
Eu me levanto
Numa luz incomumente clara de manhã cedo
Eu me levanto
Trazendo os dons dos meus antepassados
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto

Trad.: Francesca Angiolillo

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 27/10/2017

Still I Rise

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I’ll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I’ve got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I’ll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don’t you take it awful hard
’Cause I laugh like I’ve got gold mines
Diggin’ in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I’ve got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I’m a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.

Cesare Pavese – O paraíso sobre os telhados

Será um dia tranquilo, de luz fria
como o sol que nasce ou que morre, e o vidro
fechará por fora o ar sórdido.

Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,
na tepidez do último sono: A sombra
será como a tepidez. Encherá o quarto
pela grande janela um céu mais vasto.
Da escada subida um dia para sempre
não virão mais vozes nem rostos mortos.

Não será preciso deixar a cama.
Só a aurora entrará no quarto vazio.
Bastará a janela para vestir cada coisa
de uma claridade tranquila, quase uma luz.
Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.
As recordações serão coágulos de sombra
calcados quais velhas brasas
na chaminé. A recordação será a chama
que ainda ontem picava nos olhos apagados.

Trad.: Carlos Leite

Cesare Pavese: “Il Paradiso sui tetti” / “O Paraíso sobre os telhados”: Carlos Leite

Il Paradiso sui tetti

Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda
come il sole che nasce o che muore, e il vetro
chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.

Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,
nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra
sarà come il tepore. Empirà la stanza
per la grande finestra un cielo più grande.
Dalla scala salita un giorno per sempre
non verranno più voci, né visi morti.

Non sarà necessario lasciare il letto.
Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.
Basterà la finestra a vestire ogni cosa
di un chiarore tranquillo, quasi una luce.
Poserà un’ombra scarna sul volto supino.
I ricordi saranno dei grumi d’ombra
appiattiti così come vecchia brace
nel camino. Il ricordo sarà la vampa
che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.

Wislawa Szymborska – O Terrorista, Ele Observa

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar;
alguns de sair.

O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal
e a vista, bom, é como no cinema:

Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta,
e aquele mais alto entra.

Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.
Só que aquele ônibus a encobre de repente.

Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se ela foi tola de entrar ou não
vai se saber quando os carregarem para fora.

Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Mas remexe os bolsos como se procurasse algo
e às treze e vinte menos dez segundos
ele volta para buscar a droga das luvas.

São treze e vinte.
O tempo, como ele se arrasta.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.

Trad.: Regina Przybycien

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 25/10/2017

Kenneth Rexroth – Música de Alaúde

A Terra vai durar por muito tempo
Antes de finalmente congelar;
Os homens nela estarão; receberão nomes,
Justificarão seus atos.
Já nós estaremos aqui somente
Como componentes químicos —
Na verdade, uma pequena franquia.
Agora ainda temos uma vida,
Corpúsculos, ambições, carícias,
Como todos já tiveram um dia —
Todas as pessoas brilhantes, as neige d’antan1,
“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”2
Todos os inquietos e memoráveis mortos.

Aqui, neste final de ano, nas festividades
Do nascimento, ofertemos uns aos outros
As dádivas outrora trazidas para o oeste através de desertos —
O precioso metal de nossos cabelos misturados,
O incenso de braços e pernas arrebatados,
A mirra de beijos invencíveis, desesperados —
Celebremos a Natividade
Diária e recorrente do amor,
A inesgotável epifania de nossos fluentes eus,
Enquanto a terra gira sob nós
Em neves e verões desconhecidos,
Nos inexplorados espaços entre as estrelas.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. alusão aos famosos versos do poema Ballade des dames du temps jadis, de François Villon (Paris, 01/04/1431 – França, 1463), um dos clássicos do Ubi sunt?: “(…) Mais où sont les neiges d’antan? / Prince, n’enquerez de sepmaine / Où elles sont, ne de cest an, / Qu’à ce reffrain ne vous remaine: / Mais où sont les neiges d’antan?” – Na Wikipedia, os versos estão assim traduzidos: “(…) Mas onde estão as neves de antanho! / Príncipe, não pergunteis na semana / Onde elas estão, nem neste ano, / Para que não leveis de volta este refrão: / Mas onde estão as neves de antanho!”

2. A referência aqui é a um dos versos do fantástico poema Vobiscum Est Iope (também conhecida por When thou must home), de Thomas Campion. Campion (Londres, 12/02/1567 – Londres, 01/03/1620) foi um compositor, poeta e médico inglês conhecido como um dos mais prolíficos compositores de músicas para alaúde, tendo escrito mais de cem canções para esse instrumento. No poema, Helen é, obviamente, Helena de Troia, associada poeticamente à morte e à destruição; já a “Iope Branca”, segundo esse estudo, seria Calíope, a musa da poesia épica. Segue abaixo a íntegra do poema e sua respectiva tradução (por Adriel Teixeira, Bruno Geraidine e Cristiano Gomes, na obra A imaginação educada, da Vide Editorial):

Vobiscum Est Iope

When thou must home to shades of underground,
And there arrived, a new admirèd guest,
The beauteous spirits do engirt thee round,
White Iope, blithe Helen, and the rest,
To hear the stories of thy finished love
From that smooth tongue whose music hell can move;

Then wilt thou speak of banqueting delights,
Of masques and revels which sweet youth did make,
Of tourneys and great challenges of knights,
And all these triumphs for thy beauty’s sake:
When thou hast told these honours done to thee,
Then tell, O tell, how thou didst murder me!

A tradução:

Quando no Hades fizeres morada,
Nova hóspede que causa impressão,
Por formosos espíritos cercada,
Divas aos montes prestando atenção
Na história do teu acabado amor,
Na voz que até ao Inferno causa ardor,

Falarás de banquetes suntuosos,
Grandes festas e bailes mascarados,
Duelos de cavaleiros valorosos,
Triunfos em teu nome conquistados.
Contadas as honras que granjeaste,
Conta, oh! conta como me mataste.

Lute music

The Earth will be going on a long time
Before it finally freezes;
Men will be on it; they will take names,
Give their deeds reasons.
We will be here only
As chemical constituents —
A small franchise indeed.
Right now we have lives,
Corpuscles, ambitions, caresses,
Like everybody had once —
All the bright neige d’antan people,
“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”
All the uneasy, remembered dead.

Here at the year’s end, at the feast
Of birth, let us bring to each other
The gifts brought once west through deserts —
The precious metal of our mingled hair,
The frankincense of enraptured arms and legs,
The myrrh of desperate, invincible kisses —
Let us celebrate the daily
Recurrent nativity of love,
The endless epiphany of our fluent selves,
While the earth rolls away under us
Into unknown snows and summers,
Into untraveled spaces of the stars.

Billy Collins – Pardal de Natal

A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente —

asas contra o vidro, como pude descobrir
lá embaixo, quando vi o pequeno pássaro
amotinando-se contra a esquadria de uma
janela alta, tentando lançar-se através
do enigma do vidro para a vasta luminosidade.

Então, um som da garganta do gato
que estava acocorado sobre o tapete
me contou como o pássaro tinha entrado,
transportado na noite fria
através do acesso na porta do porão,
e mais tarde libertado do aperto suave dos dentes.

Sobre uma cadeira, aprisionei suas pulsações
em uma camisa e o levei até a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas lá fora, quando abri minhas mãos,
ele se arremessou para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
em um espasmo de batidas de asas e
depois desapareceu sobre uma fileira de altas acácias.

Pelo resto do dia,
pude sentir sua vibração selvagem
contra as palmas das mãos enquanto me perguntava sobre
as horas que ele deve ter passado
confinado nas sombras daquela sala,
escondido nos ramos pontiagudos
de nossa árvore decorada, respirando ali
entre os anjos metálicos, maçãs de louça, estrelas de vime,
seus olhos abertos, como os meus, deitado na cama esta noite
imaginando este raro e afortunado pardal
abrigado agora em um arbusto de azevinho,
uma neve suave caindo através da escuridão sem vento.

Trad.: Nelson Santander

Christmas Sparrow

The first thing I heard this morning
was a rapid flapping sound, soft, insistent—

wings against glass as it turned out
downstairs when I saw the small bird
rioting in the frame of a high window,
trying to hurl itself through
the enigma of glass into the spacious light.

Then a noise in the throat of the cat
who was hunkered on the rug
told me how the bird had gotten inside,
carried in the cold night
through the flap of a basement door,
and later released from the soft grip of teeth.

On a chair, I trapped its pulsations
in a shirt and got it to the door,
so weightless it seemed
to have vanished into the nest of cloth.

But outside, when I uncupped my hands,
it burst into its element,
dipping over the dormant garden
in a spasm of wingbeats
then disappeared over a row of tall hemlocks.

For the rest of the day,
I could feel its wild thrumming
against my palms as I wondered about
the hours it must have spent
pent in the shadows of that room,
hidden in the spiky branches
of our decorated tree, breathing there
among the metallic angels, ceramic apples, stars of yarn,
its eyes open, like mine as I lie in bed tonight
picturing this rare, lucky sparrow
tucked into a holly bush now,
a light snow tumbling through the windless dark.

Louis Macneice – O observador de estrelas

Quarenta e dois anos atrás (para mim, se não para mais ninguém,
O número é de algum interesse), fazia uma noite brilhante e estrelada
E o expresso para o ocidente, que não tinha nenhum corredor, estava vazio,
Assim, disparando de um lado para outro, eu pude capturar a inusitada visão
Daqueles buracos quase intoleravelmente
Brilhantes, cravados no céu, que me excitavam, em parte por causa
De seus nomes latinos e em parte porque tinha lido nos livros
O quão distantes eles estavam, parece que sua luz
Os tinha deixado (a alguns pelo menos) muito tempo antes de mim.

E a esta lembrança agora eu acrescento que a
Luz que então deixou alguns deles pelo menos,
Quarenta e dois anos atrás, nunca chegará
A tempo de eu captura-la, que a luz quando
Aqui chegar pode descobrir que não resta
Mais ninguém vivo
Correndo de um lado para o outro em um trem tarde da noite
Admirando-a e acrescentando nadas em vão.

Trad.: Nelson Santander

Star-Gazer

Forty-two years ago (to me if to no one else
The number is of some interest) it was a brilliant starry night
And the westward train was empty and had no corridors
So darting from side to side I could catch the unwonted sight
Of those almost intolerably bright
Holes, punched in the sky, which excited me partly because
Of their Latin names and partly because I had read in the textbooks
How very far off they were, it seemed their light
Had left them (some at least) long years before I was.

And this remembering now I mark that what
Light was leaving some of them at least then,
Forty-two years ago, will never arrive
In time for me to catch it, which light when
It does get here may find that there is not
Anyone left alive
To run from side to side in a late night train
Admiring it and adding noughts in vain.

Ana Martins Marques – Batata Quente

Se eu te entregasse agora o meu amor
aceso como ele está,
como ele está, pesado,
você o trocaria rapidamente de mão,
você o guardaria um pouco na esquerda,
um pouco na direita,
por quanto tempo antes de o passar adiante?

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 23/10/2017