Raymond Carver – Fragmento final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado, me sentir
amado sobre a terra.

Trad.: Cide Piquet

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Raymond Carver – Late Fragment

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.

Raymond Carver – A cabine telefônica

Ela desaba na cabine, chorando
no telefone. Perguntando uma coisa
ou outra, e chorando um pouco mais.
Seu companheiro, um camarada mais velho,
usando jeans e camiseta, aguarda em pé
a sua vez de falar, e chorar.
Ela passa o telefone para ele.
Por um minuto eles ficam juntos
na minúscula cabine, as lágrimas dele
rolando junto com as dela. Então
ela vai se encostar no para-choque
do sedan. E fica escutando
enquanto ele toma providências.

Assisto a tudo isso do meu carro.
Eu também não tenho telefone em casa.
Fico sentado atrás do volante,
fumando, esperando para tomar
as minhas próprias providências. Logo depois
ele desliga. Sai da cabine e enxuga o rosto.
Eles entram no carro e se sentam
com as janelas erguidas.
O vidro vai embaçando, enquanto
ela se ampara nele, e ele coloca
o braço em volta de seu ombro.
Os mecanismos do consolo naquele espaço apertado e público.

Eu levo meus trocados até
a cabine, e entro.
Mas deixo a porta aberta, é tão
pequeno ali dentro. O telefone ainda está quente ao toque.
Detesto usar um telefone
que acabou de dar notícias de morte.
Mas preciso, já que é o único telefone
em quilômetros, e um que pode
ouvir sem tomar partido.

Insiro as moedas e aguardo.
As pessoas no carro também aguardam.
Ele dá a partida no motor, depois desliga.
Para onde? Nenhum de nós é capaz
de imaginar. Sem saber onde
o próximo golpe poderá cair,
ou por quê. O telefone para de chamar
quando ela atende do outro lado.
Antes que eu consiga dizer duas palavras, o telefone
começa a gritar: “Eu já disse que acabou!
Está tudo terminado! Por mim
você pode muito bem ir pro inferno!”

Ponho o fone no gancho e passo a mão
pelo rosto. Fecho e abro a porta da cabine.
O casal no sedan abaixa os vidros
das janelas e observa, suas lágrimas pausadas
por um momento em face daquela distração.
Depois sobem os vidros de novo
e se recolhem no carro. Por algum tempo
não vamos a parte alguma.
Depois vamos embora.

Trad.: Cide Piquet

The phone booth

She slumps in the booth, weeping
Into the phone. Asking a question
or two, and weeping some more.
Her companion, an old fellow in jeans
and denim shirt, stands waiting
his turn to talk, and weep.
She hands him the phone.
For a minute they are together
in the tiny booth, his tears
dropping alongside hers. Then
she goes to lean against the fender
of their sedan. And listens
to him talk about arrangements.

I watch all this from my car.
I don’t have a phone at home, either.
I sit behind the wheel,
smoking, waiting to make
my own arrangements. Pretty soon
he hangs up. Comes out and wipes his face.
They get in the car and sit
with the windows rolled up.
The glass grows steamy as she
leans into him, as he puts
his arm around her shoulders.
The workings of comfort in that cramped, public place.

I take my small change over
to the booth, and step inside.
But leaving the door open, it’s
so close in there. The phone still warm to the touch
I hate to use a phone
that’s just brought news of death.
But I have to, it being the only phone
for miles, and one that might
listen without taking sides.

I put in coins and wait.
Those people in the car wait too.
He starts the engine then kills it.
Where to? None of us able
to figure it. Not knowing
where the next blow might fall,
or why. The ringing at the other end
stops when she picks it up.
Before I can say two words, the phone
begins to shout, “I told you it’s over!
Finished! You can go
to hell as far as I’m concerned!”

I drop the phone and pass my hand
across my face. I close and open the door.
The couple in the sedan roll
their windows down and
watch, their tears stilled
for a moment in the face of this distraction.
Then they roll their windows up
and sit behind the glass. We
don’t go anywhere for a while.
And then we go.

Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve
cobria o chão. O sol flutuava num claro
céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado,
até onde o olho podia enxergar.
Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti
e saí para caminhar – decidido a não voltar
até receber o que a Natureza tivesse a oferecer.
Passei perto de algumas árvores velhas, curvadas.
Atravessei um campo com pedras espalhadas
onde a neve se acumulara. Segui em frente
até chegar ao penhasco.
De onde fitei o mar, o céu e
as gaivotas revoando sobre a areia branca,
lá embaixo. Tudo adorável. Tudo banhado numa pura
luz fria. Mas, como sempre, meus pensamentos
começaram a vagar. Tive de me esforçar
para ver só o que estava vendo,
e nada mais. Tive que dizer a mim mesmo que aquilo
era o que importava, não o resto. (E de fato consegui,
por um ou dois minutos!) Por um ou dois minutos
consegui afastar as velhas ruminações
sobre o que é certe e o que é errado – deveres,
doces memórias, ideias de morte, como lidar
com minha ex-mulher. Todas as coisas
que eu esperava esquecer esta manhã.
As coisa com que vivo todos os dias. Tudo
o que superei para poder continuar vivo.
Mas, por um ou dois minutos, eu realmente esqueci
de mim e de tudo o mais. Sei que esqueci.
Pois quando me virei já não sabia
onde estava. Até que alguns pássaros emergiram
das árvores retorcidas – e voaram
na direção em que eu precisava seguir.

Trad.: Cide Piquet

Raymond Carver – This morning

This morning was something. A little snow
lay on the ground. The sun floated in a clear
blue sky. The sea was blue, and blue-green,
as far as the eye could see.
Scarcely a ripple. Calm. I dressed and went
for a walk — determined not to return
until I took in what Nature had to offer.
I passed close to some old, bent-over trees.
Crossed a field strewn with rocks
where snow had drifted. Kept going
until I reached the bluff.
Where I gazed at the sea, and the sky, and
the gulls wheeling over the white beach
far below. All lovely. All bathed in a pure
cold light. But, as usual, my thoughts
began to wander. I had to will
myself to see what I was seeing
and nothing else. I had to tell myself this is what
mattered, not the other. (And I did see it,
for a minute or two!) For a minute or two
it crowded out the usual musings on
what was right, and what was wrong — duty,
tender memories, thoughts of death, how I should treat
with my former wife. All the things
I hoped would go away this morning.
The stuff I live with every day. What
I’ve trampled on in order to stay alive.
But for a minute or two I did forget
myself and everything else. I know I did.
For when I turned back i didn’t know
where I was. Until some birds rose up
from the gnarled trees. And flew
in the direction I needed to be going.

Raymond Carver – A carteira do meu pai

Muito antes de pensar em sua própria morte
meu pai dizia que gostaria de descansar perto
dos seus pais. Sentia muita falta deles
desde que tinham partido.
Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse,
e eu me lembrasse. Mas quando o ar
deixou seus pulmões e todo sinal de vida
se extinguiu, ele se encontrava numa cidade
a 512 milhas de onde mais queria estar.

Mas meu pai, ele era incansável
até na morte. Até na morte
ele tinha uma última viagem a fazer.
A vida inteira gostara de perambular
e agora ele tinha mais um lugar para ir.

O agente funerário disse que cuidaria de tudo,
que não nos preocupássemos. Uma luz mirrada
entrava pela janela e caía no chão poeirento
onde aguardávamos naquela tarde,
até que o homem surgiu do quarto dos fundos
tirando as luvas de borracha.
Trazia consigo o cheiro de formol.
Ele era um homem forte, disse o agente.
E começou a nos contar por que
gostava de viver naquela pequena cidade.
O homem que acabara de abrir as veias do meu pai.
Quanto vai custar?, perguntei.

Ele sacou o caderno e a caneta e começou
a escrever. Primeiro, as taxas de preparação.
Depois calculou o transporte
dos restos mortais, a 22 centavos por milha.
Mas esta era uma viagem de ida e volta para o agente,
não esqueçam. E mais, digamos, seis refeições
e duas noites num motel. Fez algumas
outras contas. Acrescentou uma sobretaxa
de 210 dólares pelo seu tempo e trabalho,
e era isso.

Pensou que iríamos barganhar.
Havia uma mancha vermelha em
cada uma de suas bochechas quando ergueu
o rosto de seu caderno. A mesma luz mirrada
caía no mesmo ponto mirrado
do chão poeirento. Minha mãe assentiu
como se compreendesse. Mas ela
não tinha compreendido uma palavra.
Nada daquilo fazia o menor sentido para ela,
começando pelo momento em que saíra de casa
com meu pai. Sabia apenas que
o que quer que estivesse acontecendo
iria custar dinheiro.
Ela enfiou a mão em sua bolsa e retirou
a carteira do meu pai. Nós três,
naquela tarde, dentro daquele quartinho.
Nossas respirações indo e vindo.

Fitamos a carteira por um minuto.
Ninguém dizia nada.
A vida tinha abandonado aquela carteira.
Era velha, suja e rasgada.
Mas era a carteira do meu pai. Então minha mãe a abriu
e olhou lá dentro. E sacou dali
um punhado de dinheiro que pagaria
por aquela última, e a mais espantosa viagem.

Trad.: Cide Piquet

Raymond Carver – My Dad’s Wallet

Long before he thought of his own death,
my dad said he wanted to lie close
to his parents. He missed them so
after they went away.
He said this enough that my mother remembered,
and I remembered. But when the breath
left his lungs and all signs of life
had faded, he found himself in a town
512 miles away from where he wanted most to be.
My dad, though. He was restless
even in death. Even in death
he had this one last trip to take.
All his life he liked to wander,
and now he had one more place to get to.
The undertaker said he’d arrange it,
not to worry. Some poor light
from the window fell on the dusty floor
where we waited that afternoon
until the man came out of the back room
and peeled off his rubber gloves.
He carried the smell of formaldehyde with him.
He was a big man, the undertaker said.

Then began to tell us why
he liked living in this small town.
This man who’d just opened up my dad’s veins.
How much is it going to cost? I said.
He took out his pad and pen and began
to write. First, the preparation charges.
Then he figured the transportation
of the remains at 22 cents a mile.
But this was a round-trip for the undertaker,
don’t forget. Plus, say, six meals
and two nights in a motel. He figured
some more. Add a surcharge of
$210 for his time and trouble,
and there you have it.
He thought we might argue.
There was a spot of color on
each of his cheeks as he looked up
from his figures. The same poor light
fell in the same poor place on
the dusty floor. My mother nodded
as if she understood. But she
hadn’t understood a word of it.
None of it made any sense to her,
beginning with the time she left home
with my dad. She only knew
that whatever was happening
was going to take money.
She reached into her purse and bought up
my dad’s wallet. The three of us
in that little room that afternoon.
Our breath coming and going.
We stared at the wallet for a minute.
Nobody said anything.
All the life had gone out of the wallet.
It was old and rent and soiled.
But it was my dad’s wallet. And she opened
it and looked inside. Drew out
a handful of money that would go
toward this last, most astounding, trip.

Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.
Caminhei algum tempo por eles
e cheguei ao cemitério do povoado,
onde um homem descansa entre
duas esposas. Emily van der Zee,
Mãe e Esposa Amada,
está à direita de John van der Zee.
Mary, a segunda senhora Van der Zee,
também uma Esposa Amada, à sua esquerda.
Primeiro Emily se foi, depois Mary.
Anos mais tarde, foi a vez do velho camarada.
Onze filhos nasceram dessas uniões.
E eles, também, já devem estar todos mortos agora.
Este é um lugar tranquilo. Tão bom quanto qualquer outro
para interromper meu passeio, sentar e me preparar
para minha própria morte, que se aproxima.
Mas eu não entendo, não entendo.
Tudo o que sei sobre esta vida bela e fatigante,
a minha ou a de qualquer um,
é que daqui a pouco vou me levantar
e ir embora desse lugar espantoso
que dá abrigo aos mortos. Este cemitério.
E seguir. Caminhando primeiro sobre um trilho,
depois sobre o outro.

Trad.: Cide Piquet

Raymond Carver – A Walk

I took a walk on the railroad track.
Followed that for a while
and got off at the country graveyard
where a man sleeps between
two wives. Emily van der Zee,
Loving Wife and Mother,
is at John van der Zee’s right.
Mary, the second Mrs. van der Zee
also a loving wife, to his left.
First Emily went, then Mary.
After a few years, the old fellow himself.
Eleven children came from these unions.
And they, too, would all have to be dead now.
This is a quiet place. As good a place as any
to break my walk, sit, and provide against
my own death, which comes on.
But I don’t understand, and I don’t understand.
All I know about this fine, sweaty life,
my own or anyone else’s,
is that in a little while I’ll rise up
and leave this astonishing place
that gives shelter to dead people. This graveyard.
And go. Walking first on one rail
and then the other.

Raymond Carver – Vocês não sabem o que é o amor (uma noite com Charles Bukowski)

Vocês não sabem o que é o amor disse Bukowski
Eu tenho 51 anos e olhem pra mim
estou apaixonado por essa garota
estou louco por ela mas ela também está
então tudo bem cara é assim que deve ser
Eu entro no sangue delas e elas não conseguem se livrar
Elas tentam de tudo pra se afastar de mim
mas no fim todas acabam voltando
Todas voltaram pra mim a não ser
aquela que eu enterrei
Por essa eu chorei
mas eu chorava fácil naquele tempo
Não me deixem partir pras bebidas pesadas
porque eu fico mau
Posso sentar aqui e beber cerveja
com vocês hippies a noite toda
Posso beber dez litros dessa cerveja
e nada isso é como água
Mas se me deixarem beber de verdade
vou começar a jogar gente pelas janelas
Vou jogar qualquer um pela janela
já fiz isso antes
Mas vocês não sabem o que é o amor
Vocês não sabem porque nunca
estiveram apaixonados é simples assim
Estou com essa garota sabe ela é bonita
Ela me chama de Bukowski
Bukowski ela diz com aquela vozinha
e eu digo O quê
Mas vocês não sabem o que é o amor
Estou dizendo o que é
mas vocês não estão ouvindo
Nenhum de vocês aqui nesse bar
reconheceria o amor se ele chegasse
e picasse vocês bem no rabo
Eu pensava que leituras de poesia eram uma vergonha
Olhe eu tenho 51 e rodei um bocado
eu sei que elas são uma vergonha
mas eu disse a mim mesmo Bukowski
passar fome é uma vergonha maior ainda
Então aí estão vocês e nada é do jeito que deveria ser
Aquele sujeiro como é mesmo o nome Galway Kinnell
eu via foto dele numa revista
Ele tem uma bela fuça
mas é um professor
Deus vocês podem imaginar
Mas vocês também são professores
e agora eu já estou insultando vocês
Não nunca ouvi falar dele
nem desse outro
São todos cupins
Talvez seja ego eu já não leio muito agora
mas essa gente que constrói
reputações com cinco ou seis livros
cupins
Bukowski ela diz
Por que você escuta música clássica o dia inteiro
Tentem ouvi-la dizendo isso
Bukowski porque você escuta música clássica o dia inteiro
Isso te surpreende não é mesmo
Você não pensaria que um bastardo tosco como eu
poderia ouvir música clássica o dia inteiro
Brahms Rachmaninoff Bartok Telemann
Merda eu nunca poderia escrever aqui
Muito silêncio árvores demais
Eu gosto da cidade lá é o meu lugar
Coloco minha música clássica toda manhã
e sento diante da minha máquina
acendo um charuto e fumo desse jeito veja
e digo Bukowski você é um cara de sorte
Bukowski você já passou por tudo
e é um cara de sorte
e a fumaça azul percorre a mesa
e pela janela eu vejo a avenida Delongpre
e observo as pessoas indo e vindo pela calçada
e trago o charuto assim
e então deixo o charuto no cinzeiro desse jeito
e respiro fundo
e começo a escrever
Bukowski isso é a vida eu digo
é bom ser pobre é bom ter hemorroidas
é bom estar apaixonado
Mas vocês não sabem como é
Vocês não sabem como é estar apaixonado
Se vocês a vissem saberiam o que estou dizendo
Ela pensou que eu vinha aqui pra transar
Ela simplesmente sabia
Merda eu tenho 51 e ela 25
e estamos apaixonados e ela é ciumenta
Deus como é bonito
ela disse que arrancaria meus olhos à unha se eu viesse aqui pra transar
Pois bem isso sim é amor
O que qualquer um de vocês pode saber
Me deixem contar uma coisa
Conheci homens na cadeia que tinham mais estilo
do que as pessoas que vadiam nas universidades
e vão a leituras de poesia
São chupadores de sangue que vêm só pra ver
se as meias do poeta estão sujas
ou se o sovaco dele cheira mal
Acreditem não vou desapontá-los
Mas quero que vocês se lembrem disso
só existe um poeta nesse bar essa noite
só um poeta nessa cidade essa noite
talvez só um poeta de verdade nesse país essa noite
e sou eu
O que qualquer um de vocês sabe sobre a vida
O que qualquer um de vocês sabe sobre sobre qualquer coisa
Quem de vocês já foi demitido de um emprego
ou bateu na sua garota
ou mesmo apanhou da sua garota
Eu fui demitido da Sears & Roebuck cinco vezes
Eles me demitiam e contratavam de novo
Eu trabalhava no estoque deles quando tinha 35
e fui em cana por roubar biscoitos
Eu sei como é eu estive lá
Agora tenho 51 anos e estou apaixonado
Essa garota ela diz
Bukowski
e eu digo O quê e ela diz
Eu acho que você é cheio de merda
e eu digo baby você me entende
Ela é a única mulher no mundo
homem ou mulher
de quem eu ouviria isso
Mas vocês não sabem o que é o amor
Todas elas acabaram voltando pra mim
cada uma delas voltou
a não ser aquela de quem falei
aquela que eu enterrei
Ficamos juntos sete anos
Bebíamos muito
Eu vejo um ou dois datilógrafos nesse bar
Não vejo nenhum poeta
E não me surpreende
Você tem que ter amado pra escrever poesia
e vocês não sabem o que é amar
esse é o problema de vocês
Me dê um pouco desse troço
Isso mesmo sem gelo
Está bom assim está ótimo
Então vamos botar esse show na estrada
Eu sei o que eu disse mas vou tomar um só
Isso é bom
Okay então vamos lá vamos acabar logo com isso
mas depois é melhor ninguém ficar perto
de uma janela aberta

Trad.: Cide Piquet

Raymond Carver – You don’t know what love is (an evening with Charles Bukowski)

You don’t know what love is Bukowski said
I’m 51 years old look at me
I’m in love with this young broad
I got it bad but she’s hung up too
so it’s all right man that’s the way it should be
I get in their blood and they can’t get me out
They try everything to get away from me
but they all come back in the end
They all came back to me except
the one I planted
I cried over that one
but I cried easy in those days
Don’t let me get onto the hard stuff man
I get mean then
I could sit here and drink beer
with you hippies all night
I could drink ten quarts of this beer
and nothing it’s like water
But let me get onto the hard stuff
and I’ll start throwing people out windows
I’ll throw anybody out the window
I’ve done it
But you don’t know what love is
You don’t know because you’ve never
been in love it’s that simple
I got this young broad see she’s beautiful
She calls me Bukowski
Bukowski she says in this little voice
and I say What
But you don’t know what love is
I’m telling you what it is
but you aren’t listening
There isn’t one of you in this room
would recognize love if it stepped up
and buggered you in the ass
I used to think poetry readings were a copout
Look I’m 51 years old and I’ve been around
I know they’re a copout
but I said to myself Bukowski
starving is even more of a copout
So there you are and nothing is like it should be
That fellow what’s his name Galway Kinnell
I saw his picture in a magazine
He has a handsome mug on him
but he’s a teacher
Christ can you imagine
But then you’re teachers too
here I am insulting you already
No I haven’t heard of him
or him either
They’re all termites
Maybe it’s ego I don’t read much anymore
but these people who build
reputations on five or six books
termites
Bukowski she says
Why do you listen to classical music all day
Can’t you hear her saying that
Bukowski why do you listen to classical music all day
That surprises you doesn’t it
You wouldn’t think a crude bastard like me
could listen to classical music all day
Brahms Rachmaninoff Bartok Telemann
Shit I couldn’t write up here
Too quiet up here too many trees
I like the city that’s the place for me
I put on my classical music each morning
and sit down in front of my typewriter
I light a cigar and I smoke it like this see
and I say Bukowski you’re a lucky man
Bukowski you’ve gone through it all
and you’re a lucky man
and the blue smoke drifts across the table
and I look out the window onto Delongpre Avenue
and I see people walking up and down the sidewalk
and I puff on the cigar like this
and then I lay the cigar in the ashtray like this and take a deep breath
and I begin to write
Bukowski this is the life I say
it’s good to be poor it’s good to have hemorrhoids
it’s good to be in love
But you don’t know what it’s like
You don’t know what it’s like to be in love
If you could see her you’d know what I mean
She thought I’d come up here and get laid
She just knew it
She told me she knew it
Shit I’m 51 years old and she’s 25
and we’re in love and she’s jealous
Jesus it’s beautiful
she said she’d claw my eyes out if I came up here
and got laid
Now that’s love for you
What do any of you know about it
Let me tell you something
I’ve met men in jail who had more style
than the people who hang around colleges
and go to poetry readings
They’re bloodsuckers who come to see
if the poet’s socks are dirty
or if he smells under the arms
Believe me I won’t disappoint em
But I want you to remember this
there’s only one poet in this room tonight
only one poet in this town tonight
maybe only one real poet in this country tonight
and that’s me
What do any of you know about life
What do any of you know about anything
Which of you here has been fired from a job
or else has beaten up your broad
or else has been beaten up by your broad
I was fired from Sears and Roebuck five times
They’d fire me then hire me back again
I was a stockboy for them when I was 35
and then got canned for stealing cookies
I know what’s it like I’ve been there
I’m 51 years old now and I’m in love
This little broad she says
Bukowski
and I say What and she says
I think you’re full of shit
and I say baby you understand me
She’s the only broad in the world
man or woman
I’d take that from
But you don’t know what love is
They all came back to me in the end too
every one of em came back
except that one I told you about
the one I planted We were together seven years
We used to drink a lot
I see a couple of typers in this room but
I don’t see any poets
I’m not surprised
You have to have been in love to write poetry
and you don’t know what it is to be in love
that’s your trouble
Give me some of that stuff
That’s right no ice good
That’s good that’s just fine
So let’s get this show on the road
I know what I said but I’ll have just one
That tastes good
Okay then let’s go let’s get this over with
only afterwards don’t anyone stand close
to an open window

Raymond Carver – O que o Médico Disse

Ele disse não parece bom
ele disse parece mau aliás muito mau
ele disse eu contei trinta e dois deles em um pulmão antes
de parar de contar
eu disse fico feliz não ia querer saber
que tem mais do que isso lá
ele disse por acaso você é religioso você se ajoelha
em bosques na floresta e se permite pedir ajuda
quando encontra uma cachoeira
a névoa soprando contra seu rosto seus braços
você para e pede clareza nesses momentos
eu disse não mas pretendo começar hoje mesmo
ele disse sinto muito ele disse
gostaria de ter outro tipo de notícia para dar
eu disse Amém e ele disse algo mais
que eu não entendi e sem saber mais o que fazer
e sem querer que ele precisasse repetir aquilo
e que eu realmente precisasse digeri-lo
apenas olhei para ele
por um minuto e ele olhou de volta foi então
que me ergui num salto e apertei a mão daquele homem que
acabara de me dar
algo que ninguém no mundo jamais tinha me dado
talvez eu tenha até agradecido por força do hábito

Raymond Carver – Medo

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce voo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que morar com a minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.

Já disse isso.

  • Trad.: Rubens Figueiredo