Joan Margarit – Ser velho

Entre as sombras dos galos
e dos cachorros dos pátios e currais
de Sanaüja, abre-se um buraco
que se enche de tempo perdido e chuva suja
enquanto as crianças caminham para a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha,
limpando as lentilhas
ao anoitecer do braseiro,
vejo os que me amaram.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram que vender o miserável
vinhedo e aquele frio casarão.
Ser velho significa que a guerra acabou.
É saber onde estão os abrigos, hoje inúteis.

Trad.: Nelson Santander

Ser viejo

Entre las sombras de los gallos
y los perros de patios y corrales
de Sanaüja, se abre un agujero
que se llena con tiempo perdido y lluvia sucia
cuando los niños van hacia la muerte.
Ser viejo es una especie de posguerra.
Sentados a la mesa en la cocina,
limpiando las lentejas
en los anocheceres de brasero,
veo a los que me amaron.
Tan pobres que al final de aquella guerra
tuvieron que vender el miserable
viñedo y aquel frío caserón.
Ser viejo es que la guerra ha terminado.
Es saber dónde están los refugios, hoy inútiles.

Philip Larkin – Aubade

De dia, trabalho; à noite, eu meio que encho a cara.
Olho o negror sem som, me levantando às quatro.
Em tempo, a borda da cortina vai estar clara.
Até lá, vejo aquilo que está ali, de fato:
A morte infatigável, um dia mais perto,
Tornando inviável todo pensamento, exceto
O de onde, como e quando a minha vai chegar.
Uma pergunta estéril: mas o horror que eu sinto
Quanto a morrer e ser extinto
Luz outra vez, para se impor e apavorar.

A mente apaga-se ao clarão. Não é o remorso
O bem que não se faz, o amor que não se vive,
O tempo arrancado sem uso — , ou a dor de nossa
Única vida custar tanto a se erguer, livre
De origens torpes, ou jamais se erguer. É vermos
Esse vazio absoluto e sem um termo,
Aquela inevitável extinção final
Aonde vamos nos perder pra sempre. Não estar
Aqui, não estar noutro lugar,
E em breve: nada mais terrível e real.

Esse é um tipo especial de medo, a que trapaça
Nenhuma anula. A religião se empenhou nisto,
Vasto brocado musical roído de traça,
Criado pra fingir que não se morre, e ditos
Especiosos, como “nenhum ser consciente
Pode ter medo daquilo que não se sente”,
Sem ver que este é o medo: não ver, ouvir, tocar,
Cheirar, ter gosto, nada com que refletir,
Ou com que amar, ou a que se unir,
A anestesia da qual ninguém pode voltar.

E permanece assim, na fímbria da visão,
A mancha desfocada, o calafrio que só retrai,
Contínuo, cada impulso, e o torna indecisão.
Coisas talvez não vão se dar — mas esta vai,
E a nossa consciência entra em agonia, entregue a
Horror-fornalha, toda vez que ela nos pega
Sem bebida ou companhia. Coragem não conta:
Visa não assustar os outros. A bravura
Não vai poupar da sepultura.
A morte é a mesma, se você a teme ou afronta.

A luz aumenta aos poucos, toma forma o quarto.
Lá está, tão claro quanto o armário, o que se sabe
E soube sempre, aquilo a que ninguém é apto
A fugir, e não se aceita. A um dos lados cabe
Ceder. Em salas por abrir, nesse entremeio,
Vai soar, de cócoras, o telefone, e o alheio,
Complexo mundo de aluguel vai despertar.
Sem sol e branco como argila é o firmamento.
Há trabalho para ser feito.
Carteiros e médicos vão de lar em lar.

Trad.: Alípio Correia de Franca Neto

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 06/04/2016.

Aubade

I work all day, and get half-drunk at night.   
Waking at four to soundless dark, I stare.   
In time the curtain-edges will grow light.   
Till then I see what’s really always there:   
Unresting death, a whole day nearer now,   
Making all thought impossible but how   
And where and when I shall myself die.   
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse   
—The good not done, the love not given, time   
Torn off unused—nor wretchedly because   
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;   
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,   
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear—no sight, no sound,   
No touch or taste or smell, nothing to think with,   
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,   
A small unfocused blur, a standing chill   
That slows each impulse down to indecision.   
Most things may never happen: this one will,   
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without   
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave   
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.   
It stands plain as a wardrobe, what we know,   
Have always known, know that we can’t escape,   
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring   
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

Jane Hirshfield – Otimismo

Tenho admirado a resiliência cada vez mais.
Não a simples resistência de um travesseiro, cuja espuma
sempre volta ao mesmo formato, mas a sinuosa
tenacidade de uma árvore: ao encontrar a luz recém-bloqueada em um dos lados,
ela se volta para o outro. Uma inteligência cega, é verdade.
Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,
mitocôndrias, figos — todo este resinoso e irrevogável planeta.

Trad.: Nelson Santander

Optimism

More and more I have come to admire resilience.
Not the simple resistance of a pillow, whose foam
returns over and over to the same shape, but the sinuous
tenacity of a tree: finding the light newly blocked on one side,
it turns in another. A blind intelligence, true.
But out of such persistence arose turtles, rivers,
mitochondria, figs — all this resinous, unretractable earth.

Konstantinos Kaváfis – À Espera dos Bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

Trad.: José Paulo Paes

REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 02/03/2016.

Moya Cannon – Mãos

Mãos

para Eamonn and Kathleen

Estava em algum lugar sobre a costa nordeste do Brasil,
sobre Fortaleza, uma cidade da qual nada sei,
exceto que é cheia de pessoas —
a vida de cada uma delas um mistério
maior do que a Amazônia —
foi lá, enquanto o avião de brinquedo no monitor de voo
sobrevoava a linha do equador
e se voltava para o leste, em direção a Marrakech,
que comecei a pensar novamente em mãos,
em como é estranho que nossas vidas –
a vida da garota francesa ruiva à minha esquerda,
a vida do rapaz argentino à minha direita,
minha vida, e as vidas de todos os passageiros adormecidos,
que estão sendo transportados velozmente pela escuridão
sobre o escuro Atlântico –
todas essas vidas estejam agora
nas mãos do piloto,
na consciência do piloto,
e a pensar em outras mãos que podem sustentar as nossas vidas,
as mãos do cirurgião
que encontrarei novamente quando voltar para casa,
as mãos da enfermeira de cabelos negros
que desenrolou o cordão umbilical do meu pescoço,
as mãos macias de minha mãe,
as mãos daqueles
que me amaram,
até parecer que a isso
se resume uma vida humana:
ser passada de mão em mão,
ser conduzida, de maneira improvável, sobre um oceano.

Trad.: Nelson Santander

Hands

for Eamonn and Kathleen

It was somewhere over the north-eastern coast of Brazil,
over Fortaleza, a city of which I know nothing,
except that it is full of people –
the life of each one a mystery
greater than the Amazon —
it was there, as the toy plane on the flight monitor
nudged over the equator
and veered east towards Marrakech,
that I started to think again of hands,
of how strange it is that our lives –
the life of the red-haired French girl to my left,
the life of the Argentinian boy to my right,
my life, and the lives of all the dozing passengers,
who are being carried fast in the dark
over the darkened Atlantic –
all of these lives are now being held
in the hands of the pilot,
in the consciousness of the pilot,
and I think of other hands which can hold our lives,
the hands of the surgeon
whom I will meet again when I return home,
the hands of the black-haired nurse
who unwound the birth-cord from my neck,
the soft hands of my mother,
the hands of those others
who have loved me,
until it seems almost
as though this is what a human life is:
to be passed from hand to hand,
to be borne up, improbably, over an ocean.

Ferreira Gullar – Despedida

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato,
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 28/03/2016.

Dylan Thomas – Não vás tão docilmente

Não vás tão docilmente nessa noite linda;
Que a velhice arda e brade ao término do dia;
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Embora o sábio entenda que a treva é bem-vinda
Quando a palavra já perdeu toda a magia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O justo, à última onda, ao entrever, ainda,
Seus débeis dons dançando ao verde da baía,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

O louco que, a sorrir, sofreia o sol e brinda,
Sem saber que o feriu com a sua ousadia,
Não vai tão docilmente nessa noite linda.

O grave, quase cego, ao vislumbrar o fim da
Aurora astral que o seu olhar incendiaria,
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

Assim, meu pai, do alto que nos deslinda
Me abençoa ou maldiz. Rogo-te todavia:
Não vás tão docilmente nessa noite linda.
Clama, clama contra o apagar da luz que finda.

1945

Trad.: Augusto de Campos


Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

1945

Ferreira Gullar – Praia do Caju

Escuta:
o que passou passou
e não há força
capaz de mudar isto.

Nesta tarde de férias, disponível, podes,
se quiseres, relembrar.
Mas nada acenderá de novo
o lume
que na carne das horas se perdeu.

Ah, se perdeu!
Nas águas da piscina se perdeu
sob as folhas da tarde
nas vozes conversando na varanda
no riso de Marília no vermelho
guarda-sol esquecido na calçada.

O que passou passou e, muito embora,
voltas às velhas ruas à procura.
Aqui estão as casas, a amarela,
a branca, a de azulejo, e o sol
que nelas bate é o mesmo
sol
que o Universo não mudou nestes vinte anos.

Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
  em soluços quase te perguntas
  onde está o menino
  igual àquele que cruza a rua agora,
  franzino assim, moreno assim.
      Se tudo continua, a porta
  a calçada a platibanda,
  onde está o menino que também
  aqui esteve? aqui nesta calçada
  se sentou?

  E chegas à amurada. O sol é quente
  como era, a esta hora. Lá embaixo
  a lama fede igual, a poça de água negra
  a mesma água o mesmo
  urubu pousado ao lado a mesma
  lata velha que enferruja.
  Entre dois braços d’água
  esplende a croa do Anil. E na intensa
  claridade, como sombra,
  surge o menino
  correndo sobre a areia. É ele, sim,
  gritas teu nome: “Zeca,
  Zeca!”
      Mas a distância é vasta
  tão vasta que nenhuma voz alcança.

  O que passou passou.
  Jamais acenderás de novo
  o lume
  do tempo que apagou.

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 28/03/2016.

Ada Limón – Estrelas mortas

Aqui fora, até as árvores se curvam.
A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.
Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietude
tão silenciosa que é quase de outra era.

Ultimamente, sou uma morada de aranhas: um ninho de tentativas.

Apontamos para as estrelas que formam Órion enquanto levamos o lixo
pra fora, os contêineres coletores, uma canção de trovão suburbano.

É quase romântico, enquanto ajustamos a lixeira azul
encerada, até que você diz, Cara, nós realmente deveríamos estudar
algumas novas constelações.

E é verdade. Estamos sempre esquecendo de Antlia, Centaurus,
Draco, Lacerta, Hydra, Lyra, Lynx.

Mas sobretudo estamos esquecendo que somos estrelas mortas também, minha boca está cheia
de poeira e eu desejo reivindicar a ascensão —

inclinar-me sobre os refletores dos postes de iluminação com você, em direção
ao que temos de maior dentro de nós, em direção a como nós nascemos.

Veja, não somos coisas nada espetaculares.
Nós chegamos até aqui, e sobrevivemos. O que

aconteceria se decidíssemos sobreviver mais? Amar mais?

E se nos levantássemos com nossas sinapses e carnes e disséssemos: Não.
Não, à onda crescente.

Pelas inúmeras bocas sem fala do mar, da terra?

O que aconteceria se usássemos nossos corpos para barganhar

pela segurança de outros, pela terra,
se proclamássemos uma noite limpa, se deixássemos o medo de lado,

se lançássemos nossas demandas para o céu, e nos tornássemos tão grandes
que as pessoas pudessem apontar para nós com as setas que elas criam em suas mentes,

rolando suas latas de lixo pra fora, depois que tudo isso terminasse?

Trad.: Nelson Santander

Dead Stars

Out here, there’s a bowing even the trees are doing.
Winter’s icy hand at the back of all of us.
Black bark, slick yellow leaves, a kind of stillness that feels
so mute it’s almost in another year.

I am a hearth of spiders these days: a nest of trying.

We point out the stars that make Orion as we take out
the trash, the rolling containers a song of suburban thunder.

It’s almost romantic as we adjust the waxy blue
recycling bin until you say, Man, we should really learn
some new constellations.

And it’s true. We keep forgetting about Antlia, Centaurus,
Draco, Lacerta, Hydra, Lyra, Lynx.

But mostly we’re forgetting we’re dead stars too, my mouth is full
of dust and I wish to reclaim the rising—

to lean in the spotlight of streetlight with you, toward
what’s larger within us, toward how we were born.

Look, we are not unspectacular things.
We’ve come this far, survived this much. What

would happen if we decided to survive more? To love harder?

What if we stood up with our synapses and flesh and said, No.
No, to the rising tides.

Stood for the many mute mouths of the sea, of the land?

What would happen if we used our bodies to bargain

for the safety of others, for earth,
if we declared a clean night, if we stopped being terrified,

if we launched our demands into the sky, made ourselves so big
people could point to us with the arrows they make in their minds,

rolling their trash bins out, after all of this is over?

Ferreira Gullar – O Que Se Foi

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog em 28/03/2016.