Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi … Continue lendo Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

/   Em um livro do meu pai, leioa frase: «A ti, que me lês».É o título de uma elegiaescrita há dois séculos, ou um soprode solitude que se elevouao leitor imaginário de fora dos círculos do tempo.Essa linha guarda em cada sílabaa fresca impressão de sua veemência:ser uma semente indócil em algum dialimítrofe ao de agora, … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

Juan Vicente Piqueras – O testemunho do gajeiro

Para falar a verdade, pareceu-me outro gesto de presunção,muito dele,aquela urgência com que nos pediuque o amarrássemos ao mastropara escapar do canto das sereias.As sereias estavam cantando, isso é verdade,mas não exatamente para seduzi-lo.E por que não a qualquer um de nós?Por que elas deveriam tentar seduzir alguém?Quem pode garantir que não estavam simplesmente cantando?Ou que … Continue lendo Juan Vicente Piqueras – O testemunho do gajeiro

Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre … Continue lendo Joan Margarit – Separado

Javier Salvago – Nada, nada importa

Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A … Continue lendo Javier Salvago – Nada, nada importa

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do … Continue lendo Joan Margarit – Noturno em Solivella

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que lá não está,apenas suas garras. Admiramos o … Continue lendo Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Javier Salvago – Canção do Esquecimento

A cor dos olhos daquele paixão juvenil.O calor do primeiro beijo, do qual não melembro, embora saiba que deva ter sidoinesquecível. Tantos colegas e amigosda escola ou de farra, que um dia foram próximos.O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.Tantas duras lições. Tantos e tantos livros, devorados com paixão, sempre abertos, lidose esquecidos, … Continue lendo Javier Salvago – Canção do Esquecimento