Mario Benedetti – Angelus

Quem imaginaria que este seria o destino?

Vejo a chuva através de letras invertidas
Uma parede com manchas que parecem dignitários
Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes
E essa melancolia que impregna as buzinas

Aqui não há céu,
Aqui não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
E uma cadeira que gira quando quero fugir.
Outro dia que se vai e a isto ele estava destinado.

É raro ter tempo para sentir-se triste:
Há sempre uma encomenda, um telefonema, uma campanhia tocando
E claro, é proibido chorar sobre os livros
Porque não pega bem manchar a tinta.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 24/01/2018

Mario Benedetti – Angelus

Quién me iba a decir que el destino era esto

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
Un paredón con manchas que parecen prohombres,
El techo de los ómnibus brillantes como peces
Y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
Aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
Y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era esto.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
Siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
Y claro, está prohibido llorar sobre los libros
Porque no queda bien que la tinta se corra.

Juan Vicente Piqueras – Como estás

Morri na última terça-feira e ninguém notou.

O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.
Não houve furacão, anúncio, tempestade
ou nuvens por entre as quais surgisse
aquele raio de luz que aparecia
nas capas dos catecismos.

Minha filha continuou a servir-me o chá no mesmo horário
e eu continuo a sorve-lo em pequenos goles
com o canudinho que ela coloca entre os meus lábios.

Meu marido me disse não me deixes
e eu já havia partido.

As visitas seguram-me em uma das mãos.
A outra não está mais aqui.

Trazem-me presentes que já não me servem,
e perguntas que não sei responder.
Como estou, por exemplo,
ou como tenho dormido, como me sinto, essas coisas.

Vejo, sem abrir os olhos, como movem os lábios.
Dizem palavras que afugentam seus medos.

Palavras como estas. Como estás?
Como dormiste hoje?

Morri na última terça-feira.
Estou melhor.

Trad.: Nelson Santander

Cómo Estás

Morí el martes pasado y nadie se dio cuenta.

El mundo siguió igual, cambiando e inmutable.
No hubo huracán ni anuncio ni tormenta
ni nubes que dejaran que entre ellas
se colara ese rayo de luz que aparecía
en las portadas de los catecismos.

Mi hija siguió sirviéndome el té a la misma hora
y yo sigo tomándolo a sorbos menuditos
con la pajita que ella coloca entre mis labios.

Mi marido me dijo no te vayas
y yo ya me había ido.

Las visitas me cogen de una mano.
La otra ya no está aquí.

Me traen regalos que ya no me sirven,
y preguntas que no sé responder.
Cómo estoy, por ejemplo,
o qué tal he dormido, qué me apetece, cosas.

Veo, sin abrir los ojos, cómo mueven los labios.
Dicen palabras que ahuyenten su miedo.

Palabras como éstas. ¿Cómo estás?
¿Cómo has dormido hoy?

Morí el martes pasado.
Estoy mejor.

Pedro Salinas – de “Presságios”

41

Estas frases de amor que se repetem tanto
não são nunca as mesmas.
Todas tem idêntico som,
mas uma vida anima cada uma,
virgem e só, se é que a percebes.
E não te canses nunca
de repetir as palavras iguais:
sentirás a emoção que sente a alma
ao ver nascer a estrela primeira
e ao ver que ela se multiplica, conforme a noite avança,
em outras estrelinhas
de brilho diverso e de alma única.
E assim, ao repetires esta
simples frase de amor, vão-se fixando
infinitas estrelas em teu peito:
um mesmo sol empresta luz a todas,
o sol distante que virá amanhã
quando cessarem as estrelas e as palavras.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 16/10/2017

Pedro Salinas – “Presagios”

41

Estas frases de amor que se repiten tanto
no son nunca las mismas.
idéntico sonido tienen todas,
pero una vida anima a cada una,
virgen y sola, si es que la percibes.
Y no te canses nunca
de repetir las palabras iguales:
sentirás la emoción que siente el alma
al ver nacer a la estrella primera
y al mirar que se copia, según la noche avanza,
en otras estrellitas
de distinto brillar y de alma única.
Y así al repetir esta
simple frase de amor se van prendiendo
infinitas estrellas en el pecho:
un mismo sol les presta luz a todas,
el sol lejano que vendrá mañana
cuando cesen estrellas y palabras.

Josep M. Rodríguez – matéria e forma

Como expressar dor na dor
ao saber da morte de uma amiga.

Não sei o que fazer.
Do mesmo modo que a água é anterior ao rio

e a matéria
antecede a luz, mas é a luz
que lhe confere forma,

assim se cala a dor dentro de mim
até que há algo lá fora que a prende

e me ocupa.

Dor
na dor:
toda morte é um sol feito em pedaços.

Trad.: Manuel de Freitas
matéria y forma

Cómo expresar dolor en el dolor 
al conocer la muerte de una amiga . 

No sé qué hacer .
Del modo en el que el agua es anterior al río 

y la materia 
antecede a la luz , pero es la luz 
la que confiere forma , 

a así calla el dolor dentro de mí 
hasta que hay algo fuera que lo prende 

y me ocupa . 

Dolor 
en el dolor: 
toda muerte es un sol hecho pedazos.

Amalia Bautista – Agora

Agora que a estrada que devo percorrer
é um viaduto sobre uma rodovia
que dá medo de olhar, porque o abismo
implacável me chama.
Agora que morreu a esperança
como uma ave expulsa de seu ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite o dia todo,
inverno o ano todo
e as semanas só têm segundas-feiras,
onde olhar, para onde voltar os olhos,
que eu não encontre os olhos da morte?

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com alterações e correções na tradução): poema publicado no blog originalmente em 09/01/2018

Ahora

Ahora que el camino que debo recorrer
es un paso elevado sobre una carretera
que da miedo mirar, porque el abismo
implacable me llama.
Ahora que se ha muerto la esperanza
como un pájaro echado de su nido
por hermanos más fuertes.
Ahora que es de noche todo el día,
invierno todo el año
y las semanas sólo tienen lunes,
¿dónde mirar, dónde volver los ojos,
que no encuentre los ojos de la muerte?

Amalia Bautista – Os meus melhores desejos

Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.

Trad.: Inês Dias

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 07/01/2018

Mis Mejores Deseos

Que la vida te sea llevadera.
Que la culpa no ahogue la esperanza.
Que no te rindas nunca.
Que el camino que tomes sea siempre elegido
entre dos por lo menos.
Que te importe la vida tanto como tú a ella.
Que no te atrape el vicio
de prolongar las despedidas.
Que el peso de la tierra sea leve
sobre tus pobres huesos.
Que tu recuerdo ponga lágrimas en los ojos
de quien nunca te dijo que te amaba.

Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe

É uma noite de julho
perfumada com gardênias.
Brilham a lua e as estrelas
sem revelar a essência da noite.
Ao longo do crepúsculo
— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,
e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —
minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha.
Agora, enquanto ela dorme,
eu caminho em seu jardim,
imerso no vazio desta hora.
Os nomes de muitas
flores e árvores me escapam,
e antes havia mais pinheiros
onde agora florescem as laranjeiras.
Esta noite penso em todos os céus
que já observei e que uma vez amei.
Esta noite as sombras
ao redor da casa são benignas.
O céu é uma câmara escura
que projeta imagens desfocadas.
Na casa de minha mãe,
os brilhos das estrelas
me perfuram com nostalgia,
e cada fio da rede que circunda este universo
é uma ferida que não cicatriza.

Trad.: Nelson Santander

El cielo encima de la casa de mi madre

Es una noche de julio
perfumada de gardenias.
La luna y las estrellas brillan
sin revelar la esencia de la noche.
A través del anochecer
—con sus gradaciones cada vez más intensas de ónix,
y el resplandor dorado de los astros, de las sombras—
mi madre ha ido ordenando su casa, el jardín, la cocina.
Ahora, mientras ella duerme,
yo camino en su jardín,
inmerso en la soledad de esta hora.
Se me escapan los nombres
de muchos árboles y flores,
y había más pinos antes
donde los naranjos florecen ahora.
Esta noche pienso en todos los cielos
que he contemplado y que alguna vez amé.
Esta noche las sombras
alrededor de la casa son benignas.
El cielo es una cámara oscura
que proyecta imágenes borrosas.
En la casa de mi madre
los destellos de los astros
me perforan con nostalgia,
y cada hilo de la red que circunvala este universo
es una herida que no sana.

Amalia Bautista – O que fazes aqui

Pensei que te havia dito adeus,
um adeus definitivo, ao deitar-me,
quando pude finalmente fechar meus olhos
e esquecer-me de ti e de tuas artimanhas,
tua insistência, tuas más intenções,
da tua capacidade de anular-me.
Pensei que te havia dito adeus
para todo o sempre, e desperto
e te encontro de novo junto a mim,
dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,
invadindo-me, sufocando-me, diante
dos meus olhos, na minha vida
à minha sombra, nas minhas entranhas,
em cada pulsação do meu sangue, entrando
pelo meu nariz quando respiro, espiando
através de minhas pupilas, ateando fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora, o que eu faço? Como posso
banir-te de mim ou acostumar-me
a conviver contigo? Comecemos
demonstrando maneiras impecáveis:
Bom dia, tristeza.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO (com pequenas alterações na tradução): poema publicado no blog originalmente em 06/01/2018

Amalia Bautista – Qué haces aquí

Crei que te había dicho adiós,
un adiós contundente, al acostarme
cuando pude por fin cerrar los ojos
y olvidarme de tí y de tus argucias
de tu insistencia, de tu mala baba,
de tu capacidad para anularme.
Creí que te había dicho adiós
del todo y para siempre, y me despierto
y te encuentro denuevo junto a mi,
dentro de mi, abarcándome, a mi vera,
invadiendome, ahogandome, delante
de mis ojos, enfrente en mi vida
debajo de mi sombra, en mis entrañas,
en cada pulso de mi sangre, entrando
por mi nariz cuando respiro, viendo
por mis pupilas, arrojando fuego
en las palabras que mi boca dice.
Y ahora ¿que hago yo? ¿como podría
desterrarte de mi o acostumbrarme
a convivir contigo? empezaremos
por demostrar modales impecables.
Buenos dias, tristeza.

Javier Salvago – Canção para esse dia

Agora sim
já se vê
o porvir.
Agora sim
é o fim
que está aqui.

Que esta é
– agora sim –
a vetustez:
a aridez,
não esperar
nenhum trem.

Agora sim
o navio
vai partir.
Sem saber
se é o fim
ou o além.

Acabou,
não há mais
show.
Cai a cortina,
Diz adeus
o ator.

Agora sim
é o fim
que está aqui.
Agora sim
já se vê
o porvir.

Trad.: Nelson Santander

Canción para ese día

Ahora sí
que se ve
ya venir.
Ahora sí
que el final
está aquí.

Que esto es
– ahora sí –
la vejez:
la aridez,
no esperar
ningún tren.

Ahora sí
que está el barco
al partir.
Sin saber
si es el fin
o hay después.

Se acabó,
no da más
la función.
Cae el telón,
se despide
el actor.

Ahora sí
que el final
está aquí.
Ahora sí
que se ve
ya venir.

Roger Wolfe – Pálpebra

Pedro Salinas
disse num poema1
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.

Trad.: Pedro Gomes Sena

  1. O autor se refere ao poema “No quiero que te vayas”, traduzido por mim e já publicado no blog – a última vez no dia 10/09 (“Não quero que te vás”)

REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 11/10/2017

Parpadeo

Pedro Salinas
dice en un poema
que no quiere dejar de sentir
el dolor de la ausencia
de la mujer a la que ama
porque eso es lo único
que le queda de ella:
el dolor.
No recuerdo sus palabras exactas.
Él lo dice mejor que yo.
Eran otros tiempos.
Salinas está muerto.
La mujer a la que amaba también.
Pronto lo estaremos todos.
La vida es un mero parpadeo.
Abre los ojos
y ciérralos.