Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre … Continue lendo Joan Margarit – Separado

Javier Salvago – Nada, nada importa

Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A … Continue lendo Javier Salvago – Nada, nada importa

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do … Continue lendo Joan Margarit – Noturno em Solivella

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa(seu nome era um aguilhãofeminino e brutal)a imagem de outra rosa gravada em uma lousade mármore, cristalina.A luz era mais finae, ao tato, tão airosa quanto a flor que ardiasem pausa em sua memória.Em outro meio-dia, a rosa era ilusóriapromessa repartida;e o beijo, a outra vida. Trad.: Nelson Santander La otra rosa … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,sobre um ombro de mármore sem cabeça. Um braço erodido que ninguém estende a ninguém. Um cavalo sem patas. Um cavaleiro que é apenas suas coxas. Dionísio aos pedaços, recomposto. Um touro sem chifres que está sendo devoradopor um leão que lá não está,apenas suas garras. Admiramos o … Continue lendo Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Javier Salvago – Canção do Esquecimento

A cor dos olhos daquele paixão juvenil.O calor do primeiro beijo, do qual não melembro, embora saiba que deva ter sidoinesquecível. Tantos colegas e amigosda escola ou de farra, que um dia foram próximos.O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.Tantas duras lições. Tantos e tantos livros, devorados com paixão, sempre abertos, lidose esquecidos, … Continue lendo Javier Salvago – Canção do Esquecimento

Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Fui à montanha dos túmulos:lá cheguei cruzando o ermoda Can Tunis, coberto de seringase de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,as estátuas de trapo dos drogados.Corre o boato de que a Prefeiturairá destruí-lo, cobrindo de concretoos terrenos com mato em frente à enorme grade do cemitério, erguida de frente para o mar.Que má companhia será para … Continue lendo Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Nem essa violência com a qual desejoter sempre razão.Nem tampouco crer que a felicidadetem uma relação, sutil, com a mentira.Nem chegar a tero coração tão sujo como o meu,apesar de ter sido a guerra que o sujou.Minha paz deve ser uma falsa paz.Tampouco não abjurar a luxúriae a vaidade.Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa … Continue lendo Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Javier Salvago – Variações sobre um velho tema

Os violinos de Verlaine. Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.* Um velho cheiro de campo. Um velho cheiro de lápis e cadernos. O céu cinzento. O vento entre as árvores. A carícia das primeiras chuvas. A tristeza sem causa. A solidão sonora. A noite, cada vez mais escura e prolongada. Um cigarro que, … Continue lendo Javier Salvago – Variações sobre um velho tema