Javier Salvago – Canção para esse dia

Agora sim
já se vê
o porvir.
Agora sim
é o fim
que está aqui.

Que esta é
– agora sim –
a vetustez:
a aridez,
não esperar
nenhum trem.

Agora sim
o navio
vai partir.
Sem saber
se é o fim
ou o além.

Acabou,
não há mais
show.
Cai a cortina,
Diz adeus
o ator.

Agora sim
é o fim
que está aqui.
Agora sim
já se vê
o porvir.

Trad.: Nelson Santander

Canción para ese día

Ahora sí
que se ve
ya venir.
Ahora sí
que el final
está aquí.

Que esto es
– ahora sí –
la vejez:
la aridez,
no esperar
ningún tren.

Ahora sí
que está el barco
al partir.
Sin saber
si es el fin
o hay después.

Se acabó,
no da más
la función.
Cae el telón,
se despide
el actor.

Ahora sí
que el final
está aquí.
Ahora sí
que se ve
ya venir.

Roger Wolfe – Pálpebra

Pedro Salinas
disse num poema1
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.

Trad.: Pedro Gomes Sena

  1. O autor se refere ao poema “No quiero que te vayas”, traduzido por mim e já publicado no blog – a última vez no dia 10/09 (“Não quero que te vás”)

REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 11/10/2017

Parpadeo

Pedro Salinas
dice en un poema
que no quiere dejar de sentir
el dolor de la ausencia
de la mujer a la que ama
porque eso es lo único
que le queda de ella:
el dolor.
No recuerdo sus palabras exactas.
Él lo dice mejor que yo.
Eran otros tiempos.
Salinas está muerto.
La mujer a la que amaba también.
Pronto lo estaremos todos.
La vida es un mero parpadeo.
Abre los ojos
y ciérralos.

Pedro Salinas – Não quero que te vás

Não quero que te vás
dor, última maneira
de amar. Sinto-me vivo
quando me martirizas
não em ti, nem aqui,
além: no chão, no ano
de onde tu vieste,
naquele amor por ela
e tudo o que foi.
Nessa realidade
submersa que nega
a si mesma e se empenha
em nunca ter havido,
que só foi um pretexto
que achei para viver.
Se tu não fosses minha,
ó dor, irrefutável,
até creria nisso;
porém, és o que eu tenho.
Tua lei me assegura
que nada foi mentira.
E enquanto eu te sentir,
Tu serás pra mim, dor,
a prova de outra vida
em que não me doías.
A prova indiscutível
De que ela me amou,
Sim, de que ainda a amo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/10/2017

Pedro Salinas – No quiero que te vayas

No quiero que te vayas
dolor, última forma
de amar. Me estoy sintiendo
vivir cuando me dueles
no en ti, ni aquí, más lejos:
en la tierra, en el año
de donde vienes tú,
en el amor con ella
y todo lo que fue.
En esa realidad
hundida que se niega
a sí misma y se empeña
en que nunca ha existido,
que sólo fue un pretexto
mío para vivir.
Si tú no me quedaras,
dolor, irrefutable,
yo me lo creería;
pero me quedas tú.
Tu verdad me asegura
que nada fue mentira.
Y mientras yo te sienta,
tú me serás, dolor,
la prueba de otra vida
en que no me dolías.
La gran prueba, a lo lejos,
de que existió, que existe,
de que me quiso, sí,
de que aún la estoy queriendo.

Octavio Paz – Irmandade

          Homenagem a Claudio Ptolomeo

Sou homem: duro pouco
e enorme é a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender, compreendo:
também sou escrita
e neste exato instante
alguém me soletra.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 07/10/2017 – agora traduzido por mim

Hermandad

Homenaje a Claudio Ptolomeo

Soy hombre: duro poco
y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
las estrellas escriben.
Sin entender comprendo:
también soy escritura
y en este mismo instante
alguien me deletrea.

Joan Margarit – Cumprimentar-se

Aprendeste o gesto com os anos.
Encontras o vizinho, vos cumprimentais,
lado a lado, dois velhos na calçada
cada um fechando a própria porta.
As casas. E a convenção generosa
de algumas palavras na rua.
Para além, já nada mais resta
que esta paixão final, a calma
solitária e feroz das recordações
sob um pedaço de azul nítido como um cálculo.
Em seu quintal, cada qual
se transforma em uma porta.
Abre-se pela manhã. Fecha-se ao cair da noite.

Trad.: Nelson Santander

Saludarse

Has aprendido el gesto con los años.
Te encuentras al vecino, os saludáis,
uno al lado del otro, dos viejos en la acera
cerrando cada uno su portal.
Las casas. Y el convenio generoso
de unas palabras en la calle.
Más allá ya no queda nada más
que esta pasión final, la calma
solitaria y feroz de los recuerdos
bajo un trozo de azul nítido como un cálculo.
En su patio trasero, cada uno
convirtiéndose en puerta.
Se abre por la mañana. Se cierra al caer la noche.

Nicanor Parra – Acácias

Passeando anos atrás
por uma rua cheia de acácias em flor
soube por um amigo bem informado
que você tinha acabado de se casar.
Respondi que por certo
eu não tinha nada a ver com o assunto.
Mas apesar de nunca ter amado você
– e disso você sabe melhor do que eu –
cada vez que florescem as acácias
– imagina só –
sinto de novo a mesma coisa que senti
quanto me atiraram à queima-roupa
a notícia devastadora
de que você tinha se casado com outro.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/09/2017

Aromos

Paseando hace años
por una calle de aromos en flor
supe por un amigo bien informado
que acababas de contraer matrimonio
contesté que por cierto
que yo nada tenía que ver en el asunto.
Pero a pesar de que nunca te amé
– eso lo sabes mejor que yo –
cada vez que florecen los aromos
– imagínate tú –
siento la misma cosa que sentí
cuando me dispararon a boca de jarro
la noticia bastante desoladora
de que te habías casado con otro.

Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelho
e via um intruso. Irritava-se com ele.

Já estás aqui outra vez? Será possível?
Sai daqui agora mesmo.
Para a rua, vagabundo,
dizia-lhe.

Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,
toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.
Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lo
do porquê.

Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,
quem lhe deu as chaves?

Pouco a pouco o do espelho tornou-se mais um em casa.
Chamava-lhe o barbeiro.

Em vão, diziam-lhe que aquele homem era ele.
Eu nunca tentei porque sabia
que aquele homem era outra pessoa,
que em seu delírio ele tinha razão.

Pouco a pouco fomo-nos resignando
à invasão do barbeiro.

Uma noite, ao sair do banheiro, deixou a luz acesa.
Quando minha mãe lhe disse: Deixaste a luz acesa, ele respondeu:
Deixa-o, ele está lá dentro, o que podemos fazer?

Meu pai compreendeu que o barbeiro, o intruso,
tinha vindo busca-lo.

Agora o está barbeando naquela barbearia
que há sempre do outro lado do espelho.

E de lá me olham, sorriem para mim,
me esperam.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: este poema pode ser lido em conjunto com Nomes apagados, o primeiro de Juan Vicente Piqueras que traduzi para o blog.

El Barbero

En los últimos meses se miraba al espejo
y veía a un intruso. Se enfadaba con él.

¿Ya estás aquí otra vez? ¿Será posible?
Largo de aquí ahora mismo.
A la calle, granuja,
 le decía.

Le costaba un disgusto, nos costaba,
cada vez que tenía que entrar en el cuarto de aseo.
Había que sacarlo del brazo, convencerlo,
de qué.

Se ha hecho el amo, decía,
¿quíen le habrá dao las llaves?

Poco a poco el del espejo fue uno más en la casa.
Le llamava el barbero.

En vano le decían que ese hombre era él.
Yo nunca lo intenté porque sabía
que ese hombre era otro,
que en su delirio tenía razón.

Poco a poco nos fuimos resignando
a la invasión del barbero.

Una noche al salir del aseo dejó la luz encendida.
Cuando mi madre le dijo: Que te dejas la luz, él replicó:
Déjalo, está él ahí dentro, qué le vamos a hacer.

Mi padre comprendió que el barbero, el intruso,
había venido a llevárselo.

Ahora lo está afeitando en esa barbería
que hay siempre al otro lado del espejo.

Y desde alli me miran, me sonríen,
me esperam.

José Ángel Buesa – Ela amará a outro homem

Ela amará a outro homem.
Eu estarei longe, caminhando para o olvido.
E pode ocorrer que alguém mencione meu nome,
mas ela fingirá não tê-lo ouvido.

Ela amará a outro homem:
o tempo passa e o amor se finda,
e é natural que o que foi lume
acabe se transformando em cinzas.

Embora ninguém o queira,
envelhecem as vidas e as coisas,
e é natural também que na primavera
as roseiras deem rosas.

É natural. Assim,
ela amará a outro homem, e tudo bem.
Não sei se ela se esqueceu de mim,
nem me importa com quem.

Mas, quiçá, um dia,
ouvindo uma canção,
ela sinta aquela velha melodia
mudar o ritmo do seu coração.

Ou será algum vestido
que usou quando a conheci,
ou o cheiro do jardim úmido:
um dia ela há de pensar em mim.

Ou pode ser um sinal,
um jeito de olhar,
ou certas vielas, um mal cerzido botão,
ou uma folha seca ao acaso a voar.

E de alguma maneira
ela lembrará de mim, sem querer,
ao ouvir passos na ladeira
como os meus, ao entardecer.

Será em algum momento,
não importa quando nem onde, lá ou cá,
porque o amor, por semelhar-se ao vento,
parece que se foi mas aqui está.

E se, nesse momento, ela suspira
e ele pergunta o que há,
ela terá que inventar uma mentira
para dele a verdade ocultar.

E ele não verá que eu o causei,
isso que era tão meu e do que se me privou;
e, embora ele possa amá-la mais do que eu a amei,
ela não poderá amá-lo mais do que me amou…!

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO com pequenas alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 15/03/2017

Ella Amará a Otro Hombre

Ella amará a otro hombre.
Yo voy lejos, andando hacia el olvido.
Y puede suceder que alguien me nombre,
pero ella fingirá no haber oído.

Ella amará a otro hombre:
el tiempo pasa y el amor finaliza,
y es natural que lo que fue una brasa
acabe convirtiéndose en ceniza.

Aunque nadie lo quiera,
envejecen las vidas y las cosas,
y es natural también que en primavera
los rosales den rosas.

Es natural. Por eso,
ella amará a otro hombre, y está bien.
No sé si ya olvidó mi último beso,
ni me importa con quién.

Pero quizás, un día,
oyendo una canción,
sentirá que esa vieja melodía
le cambia el ritmo de su corazón.

O será algún vestido
que yo le conocí,
o el olor del jardín cuando ha llovido,
pero algún día ha de pensar en mí.

O puede ser un gesto,
un modo de mirar,
o ciertas calles, o un botón mal puesto,
o una hoja seca que voló al azar.

Y de alguna manera
tendrá que recordarme, sin querer,
escuchando unos pasos en la acera
como los míos al atardecer.

Será en algún momento,
no importa cuándo o dónde, aquí o allá,
porque el amor, por parecerse al viento,
parece que se ha ido y no se va.

Y si en ese momento ella suspira
y él pregunta por qué,
le tendrá que inventar una mentira
para que nunca sepa por qué fue.

Y él no verá esa huella,
eso tan mío en lo que ya perdí;
y, aunque la pueda amar más que yo a ella,
ella no podrá amarlo más que a mí..!

Francisco Brines – Esplendor negro

Somente uma vez experimentaste aquele Esplendor negro,
e intermitentemente recordas a experiência com imprecisão,
aproximações difusas, iminências,
e assim, desde a tua juventude, arrastas frio
um invisível manto escarlate de cinzas.
E não foi necessário cegar os olhos,
pois das brancas luzes das estrelas
chegou aquele delírio, a possibilidade mais exata e singela:
em vez de Deus ou do mundo
aquele negro Esplendor,
que nem sequer é um ponto, pois não há nele espaço,
nem se pode nomear, porque não se expande.
Serenidade e Vertigem têm o mesmo valor,
pois as palavras já estão ditas desde a aurora da terra,
e as palavras são apenas a expressão de um engano.
Voltar para o centro daquilo é ir para a periferia da vida
sem conhecer a vida, um não-mundo impossível,
pois somente não ter nascido poderia aproximar-te desta experiência.
Criar a inexistência e sua totalidade
não te fez poderoso,
nem derramou teu pranto, e nada redimiste.
A mesma incompreensão ao contemplar o mundo
produziu em ti o terror daquele Esplendor negro,
e aquele desamparo ao cobrirem-te os lençóis.

Trad.: Nelson Santander

Esplendor negro

Sólo una vez pudiste conocer aquel Esplendor negro,
e intermitentemente recuerdas la experiencia con vaguedad,
aproximaciones difusas, inminencias,
y así, desde tu juventud, arrastras frío,
un invisible manto de ceniza escarlata.
Y no fue necesario cegar los ojos,
pues de las luces claras de los astros
llegó el delirio aquel, la posibilidad más exacta y sencilla:
en vez de Dios o el mundo
aquel negro Esplendor,
que ni siquiera es punto, pues no hay en él espacio,
ni se puede nombrar, porque no se dilata.
Valen igual Serenidad y Vértigo,
pues las palabras están dichas desde la noche de la tierra,
y las palabras son tan solo expresión de un engaño.
Volver al centro aquel es ir por las afueras de la vida,
sin conocer la vida, un no mundo imposible,
pues sólo el no nacer te pudiera acercar a esa experiencia.
Crear la inexistencia y su totalidad,
no te hizo poderoso,
ni derramó tu llanto, y nada redimiste.
La misma incomprensión que contemplar el mundo
te produjo el terror de aquel Esplendor negro,
y aquel desvalimiento al cubrirte las sábanas.

Joan Margarit – Amar é onde

Sentado em um trem olho a paisagem
e de repente, fugaz, passa um vinhedo
como o relâmpago de uma verdade.
Seria um erro descer do trem
porque então a vinha já não haveria.
Amar é onde, algo sempre o evoca:
um telhado ao longe, o palco desprovido
(no chão, uma rosa) de um maestro,
os músicos que hoje tocam sozinhos.
Teu quarto ao amanhecer.
E, naturalmente, os pássaros que cantam
naquele cemitério em uma manhã de junho.
Amar é um lugar.
Sobrevive na parte mais profunda: é de onde viemos.
E também o lugar onde perdura a vida.

Trad.: Nelson Santander

Amar es Dónde

Sentado en un tren miro el paisaje
y de pronto, fugaz, pasa un viñedo
como el relámpago de una verdad.
Sería un error bajar del tren
porque entonces la viña desaparecería.
Amar es dónde, algo lo evoca siempre:
un terrado a lo lejos, la tarima vacía
(en el suelo una rosa) de un director de orquesta,
los músicos que hoy están tocando solos.
Tu habitación al clarear el día.
Y, claro está, los pájaros que cantan
en aquel cementerio una mañana de junio.
Amar es un lugar.
Perdura en lo más hondo: es de dónde venimos.
Y también el lugar donde queda la vida.