Mês: janeiro 2023
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César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,logrei sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO:…
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Pat Schneider – A paciência das coisas comuns

É um tipo de amor, não acha?Como a caneca retém o chá,Como a cadeira se mantém robusta e sólida,Como o chão recebe a sola dos sapatosOu os dedos. Como as solas dos pés sabemOnde devem estar.Eu tenho pensado na paciênciaDas coisas comuns, em como as roupasEsperam respeitosamente nos guarda-roupasE o sabão seca discretamente no prato,E…
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César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineralde pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carnee não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018 César Cantoni…
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Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

No dia da audiência do nosso divórcio você me convidou para almoçar em uma cantina.Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.Depois do almoço, ficamos no estacionamento.Você disse: você tem a última palavra,mas eu respondi, Não, estou cansada de seraquela que resume tudo.Você tem…
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Mario Benedetti – Angelus

Quem imaginaria que este seria o destino? Vejo a chuva através de letras invertidasUma parede com manchas que parecem dignitáriosOs tetos dos ônibus brilhantes como peixesE essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu,Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braçosE uma cadeira que gira quando quero fugir.Outro dia…
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Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais

Bendita seja a amarguraem sua essência, aquela luz calmaque fica cada vez mais calma,como o murmúrio abafado que escapade seus lábios enquanto você dorme.Eles irão lhe perguntar, criança,o que você sabe sobre o sofrimento.Eles irão lhe perguntar onde dóimais quando a dor se transforma,como o comprimento de onda da luzno céu noturno, quando os gritosde…
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Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabequando estamos num lugarpela última vez. Numa casaque vai ser demolida, numa salaprovisória que vai encerrar, num velhocafé que mudará de ramo, comopágina virada jamais reaberta, comocanção demasiado gasta, comoabraço tornado irrepetível, numaporta a que não voltaremos. REPUBLICAÇÃO: publicado no blog originalmente em 02/12/2018
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Maria do Rosário Pedreira – retina

retina Eu, que nunca pensei deixar de serfilha, faço agora de mãe da minha mãeaos domingos: sou a sua muleta nos longos corredores da casa antiga echego-lhe mantas aos joelhos porqueos velhos tremem em vida com o frioda morte. Para fugir às coisas que a entristecem, pergunto-lhe por gentedo passado, pois sei que o que…
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Inês Lourenço – Balada dos Amores Difíceis

Não me refiro aos trágicos Romeu e JulietaTristão e Isolda, Pedro e Inês nem a alguns ignoradosícones como Yourcenar e Grace ou Rimbaud e Verlaine. Refiro-meaos que se buscam sem saber nadado fogo que arde sem se ver, órficos cantos, mas côncavose convexos se combinam cruzando genes e transitóriostempos de vida enquanto povoam cidades, salasde…