João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma bala enterrada no corpo, fazendo mais espesso um dos lados do morto; assim como uma bala do chumbo pesado, no músculo de um homem pesando-o mais de um lado qual bala que tivesse um vivo mecanismo, bala que possuísse um coração ativo igual ao de um relógio submerso em algum corpo, ao … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

João Cabral de Melo Neto – de “Os Três Mal Amados”

(...) Joaquim: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – de “Os Três Mal Amados”

João Cabral de Melo Neto – Como a Morte se Infiltra

Certo dia, não se levanta porque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que: é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna, E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não, um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeito … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – Como a Morte se Infiltra

João Cabral de Melo Neto – A Mesa

O jornal dobrado sobre a mesa simples; a toalha limpa, a louça branca e fresca como o pão. A laranja verde: tua paisagem sempre, teu ar livre, sol tuas praias; clara e fresca como o pão. A faca que aparou teu lápis gasto; teu primeiro livro cuja capa é branca e fresca como o pão. … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – A Mesa

João Cabral de Melo Neto – A Viagem

Quem é alguém que caminha toda manhã com tristeza dentro de minhas roupas, perdido além do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendo como se levassem nos bolsos doces geografias, pensamentos de além do sonho e da rua? Alguém a cada momento vem morrer no longe horizonte de meu quarto, onde esse alguém … Continue lendo João Cabral de Melo Neto – A Viagem