Gonçalo M. Tavares – Do “Diário da Peste”, 27/04/2020

Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – Do “Diário da Peste”, 27/04/2020

Gonçalo M. Tavares – Sobre o mundo

O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – Sobre o mundo

Gonçalo M. Tavares – O idiota

Os irmãos com saúde,os meus pais vivos,um pouco deprimidos, mas lúcidos e vivos.Uma mulher que me espera à porta, e sorri,um bebê com um ano e meio, uma rapariga,      vem aí outra;quando regresso a minha mulher recebe-me a sorrir   com uma barriga grande.  Um café, outro,o caderno preto à minha frente, o tempo,nada para fazer a não ser … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – O idiota

Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo

é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo

Gonçalo M. Tavares – Palavras, Atos

A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – Palavras, Atos

Gonçalo M. Tavares – Os Mortos

Não há mortos que morram tanto como os nossos. Se um daqueles que nos pertence morre sete ou setenta vezes no coração, de quem apenas ouvimos falar morre uma vez, na sua data, e os que sempre viveram longe morrem-nos metade ou um oitavo. E metade de uma morte é quase nada, são casas decimais … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – Os Mortos