Cecília Meireles – Epigrama nº 7

A tua raça de aventura
quis ter a terra, o céu, o mar.

Na minha, há uma delícia obscura
em não querer, em não ganhar…

A tua raça quer partir,
guerrear, sofrer, vencer, voltar.

A minha, não quer ir nem vir.
A minha raça quer passar.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016

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Dilruba Ahmed – Fase um

Por ter deixado a geladeira aberta
ontem à noite, eu a perdoo.
Por conjurar cortinas brancas
em vez de viver a sua vida.

Pelas mudas que murcham, agora,
em pequenos potes, eu a perdoo.
Por dizer não num primeiro momento,
mas sim como uma reflexão tardia.

Eu a perdoo pelas visões horrendas
após o parto, provocadas pela perda
de sono. E quando o bebê acordou
várias vezes, por sua silenciosa reprovação

no escuro, “Qual é o seu problema?”
Perdoo-lhe por deixar as videiras
tomarem conta do jardim. Por temer
sua própria propensão para o amor.

Por perder, de novo, sua mala
na viagem para São Francisco;
pela igualmente descuidada viagem
de volta, movida a cafeína.

Perdoo-lhe por ter deixado
as janelas abertas na chuva
encharcando de novo os livros
da biblioteca. Por ostentar

apenas revisões de si mesma,
com pontuação trabalhada,
em vez da verdade desordenada,
eu a perdoo. Por cantar principalmente

quando o chuveiro abafa
sua voz. Por tanto admirar
o baterista, você não conseguiu ouvir
a bateria. Em latas esquecidas,

que o perdão se acumule. Reúna-se
nas sarjetas. Jorre dos canos.
Dos ramos, uma grande e constante chuva
de azeitonas, aliviadas

da crueldade e da mesquinhez.
Com elas, uma rajada de asas, treze
pombas cinzas. Pomada reservada
para curandeiros e profetas. Eu a perdoo.

Eu a perdoo. Por se sentir estranha
e nervosa sem nenhuma razão.
Por carregar a urna vazia de Keats
com tanta calma a ponto de se preocupar

em talvez não ter nenhum
centro moral, afinal. Por tratar sua mãe
com desprezo quando ela merecia
compaixão. Eu a perdoo. Eu a

Perdoo. Eu a perdoo. Por cultivar
uma capacidade de amar que é grande
mas que talvez só seja igualada
por sua solidão. Por ser incapaz

de perdoar a si mesma primeiro para
depois poder perdoar aos outros e,
finalmente, encontrar uma maneira de se tornar
o amor que você deseja neste mundo.

Trad.: Nelson Santander

Phase One

For leaving the fridge open
last night, I forgive you.
For conjuring white curtains
instead of living your life.

For the seedlings that wilt, now,
in tiny pots, I forgive you.
For saying no first
but yes as an afterthought.

I forgive you for hideous visions
after childbirth, brought on by loss
of sleep. And when the baby woke
repeatedly, for your silent rebuke

in the dark, “What’s your beef?”
I forgive your letting vines
overtake the garden. For fearing
your own propensity to love.

For losing, again, your bag
en route from San Francisco;
for the equally heedless drive back
on the caffeine-fueled return.

I forgive you for leaving
windows open in rain
and soaking library books
again. For putting forth

only revisions of yourself,
with punctuation worked over,
instead of the disordered truth,
I forgive you. For singing mostly

when the shower drowns
your voice. For so admiring
the drummer you failed to hear
the drum. In forgotten tin cans,

may forgiveness gather. Pooling
in gutters. Gushing from pipes.
A great steady rain of olives
from branches, relieved

of cruelty and petty meanness.
With it, a flurry of wings, thirteen
gray pigeons. Ointment reserved
for healers and prophets. I forgive you.

I forgive you. For feeling awkward
and nervous without reason.
For bearing Keats’s empty vessel
with such calm you worried

you had, perhaps, no moral
center at all. For treating your mother
with contempt when she deserved
compassion. I forgive you. I forgive

you. I forgive you. For growing
a capacity for love that is great
but matched only, perhaps,
by your loneliness. For being unable

to forgive yourself first so you
could then forgive others and
at last find a way to become
the love that you want in this world.

Carlos Drummond de Andrade – A Um Bruxo Com Amor

Em certa casa da Rua Cosme Velho
(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trastejada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.

E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto,
a ramagem começa a sussurrar alguma coisa
que não se entende logo
a parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
é Flora,
com olhos dotados de um mover particular
entre mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifrastes íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor canção de mulher nova…
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.
O eflúvio da manhã,
quem o pede ao crepúsculo da tarde?
Uma presença, o clarineta,
vai pé ante pé procurar o remédio,
mas haverá remédio para existir
senão existir?
E, para os dias mais ásperos, além
da cocaína moral dos bons livros?
Que crime cometemos além de viver
e porventura o de amar
não se sabe a quem, mas amar?

Todos os cemitérios se parecem,
e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida
apalpa o mármore da verdade, a descobrir
a fenda necessária;
onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que revolves em mim tantos enigmas.

Um som remoto e brando
rompe em meio a embriões e ruínas,
eternas exéquias e aleluias eternas,
e chega ao despistamento de teu pencenê.
O estribeiro Oblivion
bate à porta e chama ao espetáculo
promovido para divertir o planeta Saturno.
Dás volta à chave,
envolves-te na capa,
e qual novo Ariel, sem mais resposta,
sais pela janela, dissolves-te no ar.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016

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Ted Kooser – Luz das estrelas

A noite toda, essa chuva suave do passado distante.
Não admira que às vezes eu desperte como uma criança.

Trad.: Nelson Santander

Starlight

All night, this soft rain from the distant past.
No wonder I sometimes waken as a child.

Mário de Andrade – Poema da Amiga (VIII)

Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e de um branco
Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.

Estamos no interior duma asa
Que fechou.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016

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Sharon Olds – A corrida

Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,
comprei uma passagem, dez minutos depois
me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicos
tinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noite
e o voo fora cancelado. Um jovem
de bigode castanho-escuro me disse
que de outra companhia aérea partiria um voo
sem escalas em sete minutos. Pegue
aquele elevador, desça até
o primeiro andar, vire à direita, você
verá um ônibus amarelo, desça no
segundo terminal da Pan Am, eu
corri, eu que não tenho senso de direção
corri exatamente para onde ele havia indicado, um peixe
deslizando rio acima habilmente contra
a corrente. Saltei daquele ônibus com as
malas nas quais tinha jogado tudo
em cinco minutos e corri, as malas
sacudindo-me de um lado para o outro como que
para provar que eu estava sob as leis da matéria,
corri até um homem que levava uma flor na lapela,
eu, que sempre pego o fim da fila, pedi
Ajude-me. Ele olhou para o meu bilhete e disse
Vire à esquerda e à direita, suba as escadas e depois
corra. Subi pesadamente as escadas rolantes,
e no topo vi o corredor,
então respirei fundo, e disse
adeus ao meu corpo, adeus ao conforto,
usei minhas pernas e meu coração como se
fosse usa-los de bom grado só para isso,
para toca-lo novamente nesta vida. Corri, e as
malas bateram contra mim, rodaram e viajaram
em órbitas irregulares, eu, que já vi fotos de
mulheres correndo, seus pertences amarrados
em lenços presos em seus punhos, abençoei as
longas pernas que ele me deu, o meu forte
coração, que abandonei à sua própria sorte,
e corri para o Portão 17 e eles já estavam
levantando o compacto losango
branco da porta para encaixa-lo na
junção do avião. Como os que não são
muito ricos, virei-me de lado e
esgueirei-me pelo buraco da agulha, e depois
caminhei pelo corredor em direção ao meu pai. O jato
estava cheio e os cabelos das pessoas brilhavam, elas
sorriam, o interior do avião estava cheio de uma
névoa de luz dourada de endorfina,
chorei como choram as pessoas ao entrar no céu,
com grande alívio. Decolamos
suavemente de uma ponta do continente
e não paramos até pousarmos levemente na
outra ponta, entrei em seu quarto
e assisti seu peito subir lentamente
e afundar novamente, a noite toda
o observei respirar.

Trad.: Nelson Santander

The Race

When I got to the airport I rushed up to the desk,
bought a ticket, ten minutes later
they told me the flight was cancelled, the doctors
had said my father would not live through the night
and the flight was cancelled. A young man
with a dark brown moustache told me
another airline had a nonstop
leaving in seven minutes. See that
elevator over there, well go
down to the first floor, make a right, you’ll
see a yellow bus, get off at the
second Pan Am terminal, I
ran, I who have no sense of direction
raced exactly where he’d told me, a fish
slipping upstream deftly against
the flow of the river. I jumped off that bus with those
bags I had thrown everything into
in five minutes, and ran, the bags
wagged me from side to side as if
to prove I was under the claims of the material,
I ran up to a man with a flower on his breast,
I who always go to the end of the line, I said
Help me. He looked at my ticket, he said
Make a left and then a right, go up the moving stairs and then
run. I lumbered up the moving stairs,
at the top I saw the corridor,
and then I took a deep breath, I said
goodbye to my body, goodbye to comfort,
I used my legs and heart as if I would
gladly use them up for this,
to touch him again in this life. I ran, and the
bags banged against me, wheeled and coursed
in skewed orbits, I have seen pictures of
women running, their belongings tied
in scarves grasped in their fists, I blessed my
long legs he gave me, my strong
heart I abandoned to its own purpose,
I ran to Gate 17 and they were
just lifting the thick white
lozenge of the door to fit it into
the socket of the plane. Like the one who is not
too rich, I turned sideways and
slipped through the needle’s eye, and then
I walked down the aisle toward my father. The jet
was full, and people’s hair was shining, they were
smiling, the interior of the plane was filled with a
mist of gold endorphin light,
I wept as people weep when they enter heaven,
in massive relief. We lifted up
gently from one tip of the continent
and did not stop until we set down lightly on the
other edge, I walked into his room
and watched his chest rise slowly
and sink again, all night
I watched him breathe.

Affonso Romano de Sant’Anna – Carta aos Mortos

Amigos, nada mudou
em essência.

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/10/2016

Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama

Vazia, minha alta torre inclina-se
Para trás no penhasco; meu colmo
Conversa com a amplidão dispersa,
Garças. A parede cinza
Corta para baixo e encontra
Um instável córrego inundado
Por seixos, pequenas aves
Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam.

Atrás de mim, as oblíquas veias da colina
Se deslocam; úmida está minha cozinha,
Aranhas escondidas sob tonéis marrons.

Eu ouço a corrente mudar de ritmo, olho do fogão
Para ver que agora o bote de extremidades quadradas flutua
Livremente, para cima e para baixo, o cordame perfeitamente nivelado.

Abrindo a porta da cozinha
As amoreiras na pedreira sentem falta do meu cabelo
Brotando tão alto que seus frutos se perdem.

E subindo as altas escadas, minha cama está
Arrumada, mesmo com uma raiz de sicômoro
Em minha pequena janela.

A noite toda eu repouso coberta por lençóis, e minha vassoura persegue
Espirais de poeira nos pisos radiantes: o espanador amarelo desliza
Sobre as prateleiras, ao redor dos puxadores: cerdas afagando pavimentos
Dançando com as aranhas em volta da cozinha no escuro
Enquanto os gatos escalam a torre e o rio se enche
Com uma colher de luz da parede do porão lá embaixo.

Trad.: Nelson Santander
The Lady's Tower

Hollow my high tower leans
Back to the cliff; my thatch
Converses with the spread sky,
Heronries. The grey wall
Slices downward and meets
A sliding flooded stream
Pebble-banked, small diving
Birds. Downstairs my cellars plumb.

Behind me shifting oblique veins
Of the hill; my kitchen is damp,
Spiders shaded under brown vats.

I hear the stream change pace, glance from the stove
To see the punt is now floating freely
Bobs square-ended, the rope dead-level.

Opening the kitchen door
The quarry brambles miss my hair
Sprung so high their fruit wastes.

And up the tall stairs my bed is made
Even with a sycamore root
At my small window.

All night I lie sheeted, my broom chases down treads
Delighted spirals of dust: the yellow duster glides
Over shelves, around knobs: bristle stroking flagstone
Dancing with the spiders around the kitchen in the dark
While cats climb the tower and the river fills
A spoonful of light on the cellar walls below.

Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,
Um rio de telhados inclinando-se
Do lado do vale.
Frontões e chaminés
E torres, com árvores aninhadas entre elas:
Todas as formas de um cemitério
Vistas do alto de sua janela.

Um espelho em forma de caixão responde,
Luz suave, polido, liso como a pele,
Azul como grama cortada no gramado,
Gravatas retorcidas dobradas sobre ele.

Abrindo a porta, todas as paredes apontam ao mesmo tempo para a cama
Enorme seda vermelha em 1/4 do quarto
Nós afogados em mogno profundo
E uniformes volumes azuis guardados ao alcance da mão.

E um calendário de mesa, uma caneta-tinteiro,
Uma pesada luminária em mármore verde,
Uma caixa de charutos, vazia mas espanada,
Sobre a lareira fria, uma emoldurada jovem
Com um vestido branco aponta o futuro.

A casa repousa em silêncio,
O linóleo brilhante
Rangeria se você pisasse nele.
Lá fora ainda está chovendo
Mas os pássaros começaram a cantar.

Trad.: Nelson Santander

A Gentleman’s Bedroom

Those long retreating shades,
A river of roofs inclining
In the valley side.
Gables and stacks
And spires, with trees tucked between them:
All graveyard shapes
Viewed from his high windowpane.

A coffin-shaped looking-glass replies,
Soft light, polished, smooth as fur,
Blue of mown grass on a lawn,
With neckties crookedly doubled over it.

Opening the door, all walls point at once to the bed
Huge red silk in a quarter of the room
Knots drowning in deep mahogany
And uniform blue volumes shelved at hand.

And a desk calendar, a fountain pen,
A weighty table-lighter in green marble,
A cigar-box, empty but dusted,
A framed young woman in a white dress
Indicate the future from the cold mantel.

The house sits silent,
The shiny linoleum
Would creak if you stepped on it.
Outside it is still raining
But the birds have begun to sing.

José Luís Peixoto – na hora de pôr a mesa…

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 20/09/2016