Mês: abril 2022
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Cecília Meireles – Epigrama nº 7

A tua raça de aventuraquis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscuraem não querer, em não ganhar… A tua raça quer partir,guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir.A minha raça quer passar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente no blog em 18/10/2016 Conheça outros livros de Cecília…
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Dilruba Ahmed – Fase um

Por ter deixado a geladeira abertaontem à noite, eu a perdoo.Por conjurar cortinas brancasem vez de viver a sua vida. Pelas mudas que murcham, agora,em pequenos potes, eu a perdoo.Por dizer não num primeiro momento,mas sim como uma reflexão tardia. Eu a perdoo pelas visões horrendasapós o parto, provocadas pela perdade sono. E quando o…
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Carlos Drummond de Andrade – A Um Bruxo Com Amor

Em certa casa da Rua Cosme Velho(que se abre no vazio)venho visitar-te; e me recebesna sala trastejada com simplicidadeonde pensamentos idos e vividosperdem o amarelode novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,uma luz que não vem de parte…
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Ted Kooser – Luz das estrelas

A noite toda, essa chuva suave do passado distante.Não admira que às vezes eu desperte como uma criança. Trad.: Nelson Santander Starlight All night, this soft rain from the distant past.No wonder I sometimes waken as a child.
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Mário de Andrade – Poema da Amiga (VIII)

Gosto de estar a teu lado,Sem brilho.Tua presença é uma carne de peixe,De resistência mansa e de um brancoEcoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti.Anoiteço feito um bairro,Sem brilho algum. Estamos no interior duma asaQue fechou. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/10/2016 Conheça outros livros de Mário de Andrade clicando aqui
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Sharon Olds – A corrida

Quando cheguei no aeroporto, corri até o guichê,comprei uma passagem, dez minutos depois me disseram que o voo tinha sido cancelado, os médicostinham dito que meu pai não sobreviveria àquela noitee o voo fora cancelado. Um jovemde bigode castanho-escuro me disseque de outra companhia aérea partiria um voosem escalas em sete minutos. Pegueaquele elevador, desça…
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Affonso Romano de Sant’Anna – Carta aos Mortos

Amigos, nada mudouem essência. Os salários mal dão para os gastos,as guerras não terminarame há vírus novos e terríveis,embora o avanço da medicina.Volta e meia um vizinhotomba morto por questão de amor.Há filmes interessantes, é verdade,e como sempre, mulheres portentosasnos seduzem com suas bocas e pernas,mas em matéria de amornão inventamos nenhuma posição nova.Alguns cosmonautas…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – A torre da dama

Vazia, minha alta torre inclina-se Para trás no penhasco; meu colmo Conversa com a amplidão dispersa, Garças. A parede cinza Corta para baixo e encontra Um instável córrego inundado Por seixos, pequenas aves Mergulhadoras. Lá embaixo, meus porões sondam. Atrás de mim, as oblíquas veias da colina Se deslocam; úmida está minha cozinha, Aranhas escondidas…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta,…
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José Luís Peixoto – na hora de pôr a mesa…

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã…