Théodore Fraenckel – Elegia

X. não compreendeu ainda como lhe resta pouco tempo de vida.
Outrora, os grandes lagos eram a esperança querida de um abrigo.
Da infância, o que nos resta é esta visão acadêmica
quando, suave, no tom do quadro,
leve se sente o esboroar do espírito…
Contudo, a vida nem sempre é uma constante aventura.
Por vezes, a chuva deixa-nos ver um pouco mais longe
na curta distância de nós mesmos
e o que resta é uma curta fragrância,
o perfume do espírito.
Sim, A. ainda não compreendeu como vai longe
o tempo da esperança e da ternura.
Antes, belos cromos em páginas finas
tinham o condão de por um milagre súbito
de equilíbrio,
da imaginação recobrir
o sonho (a loucura).
O tempo dos velhos amigos tinha, contudo, acabado há muito…
Daí, esta noção, que em nós ainda persiste,
de uma absinta angústia.
Que digo? Decerto X. ainda não percebeu, apesar da doença,
que a morte e a vida
não passam de uma quimera, xadrez –
abstratas ilusões de consistência nenhuma.
Por isso compreendo o gesto de A., mal se senta à mesa –
um copo de vinho bebe, olha em frente
e mais uma página folheia do livro, maculadíssimo.
(Ao entardecer, à tarde – Oh, o fugaz encanto dos gestos perdidos).

Théodore Fraenckel – Meditação do fim de Agosto

Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta?
Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo
de formas que lhe vem da literatura? E no entanto
a natureza nada tem de humano e dela não se pode
dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites
de uma forma que a torna definitiva e prematura.
De muito a olharmos, enrugará a pintura? Ou
sairá do quadro para discutir conosco o desgaste
nela perpetrado pela amargura? É sempre
sem ilusões que o olhar cobre o tempo, fartos
que estamos de constatar a resistência dos campos
e pela palavra se tornarem paisagem na literatura.
É outro o nosso segredo, certo de que todas
as ficções se finam num pingo de tinta
de onde partem as aves, de asas incineradas,
à procura de um fim que às salve da literatura.