Carlos Drummond de Andrade – Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham o instante de existir: ainda é bem cedo para acordar, sofrer. Nem se conhecem os que se destruirão em teu bruxedo. Nem tu sabes, amor, que te aproximas a passo de veludo. És tão secreto, reticente e ardiloso, que semelhas uma casa fugindo ao arquiteto. Que presságios circulam … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Véspera

Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos

És o cemitério. Os mortos não jazem debaixo da terra. Não estão ocultos num lençol de relva mas sob tua pele. Tuas veias são ruas onde os mortos passeiam fagueiros, e em férias percorrem, turistas do eterno, os museus do éter. E nas terras velhas de tua memória almas veraneiam. Meu filho, viver é comerciar … Continue lendo Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos

Carlos Drummond de Andrade – Nudez

Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Nudez

David Mourão-Ferreira – E por vezes

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por … Continue lendo David Mourão-Ferreira – E por vezes

Ana Martins Marques – [Você se dá conta]

Um poema de Ana Martins Marques Você se dá conta de repente de que muitos dos poemas que ama foram na verdade escritos por seus tradutores:

Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]

"secos são os homens sem sonhos", um poema de Nelson Santander secos são os homens sem sonhos desertos rios de margens estreitas trilham apenas os caminhos que a terra dita

Eugénio de Andrade – Elegia

Às vezes era bom que tu viesses. Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia a harmonia dos frutos e dos animais. Maio trouxe cravos como outrora, cravos morenos, como tu dizias, mas cada hora passa e não se demora na tristeza das nossas alegrias. Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que … Continue lendo Eugénio de Andrade – Elegia

Ferreira Gullar – Poema sujo

"Poema sujo", de Ferreira Gullar turvo turvo a turva mão do sopro contra o muro escuro menos menos menos que escuro menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo escuro mais que escuro:

Alberto Pucheu – Poema para a catástrofe do nosso tempo

"Poema para a catástrofe do nosso tempo", um poema de Alberto Pucheu Amanhã não será um dia melhor do que hoje, que não é um dia melhor do que ontem. (...)