Gastão Cruz – Pedro Hestnes

Passou a alguns metros de onde eu
estava; não o via
há anos e nem sei
qual a última vez que com ele falara

Não o reconheci de imediato e bastou
essa dúvida para criar um hiato
na linha dos olhares de repente cruzados
dentro da tarde; receara

decerto não ter sido por mim reconhecido
enquanto que eu não fora já a tempo
de lhe mostrar que o vira e me lembrava
do seu rosto mesmo que um pouco menos

luminoso que outrora; e um remorso
absurdo me tomou por ter perdido
esse olhar hesitante
no desconcerto breve de uma tarde

Carlos Drummond de Andrade – Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. É fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreo, são mais leves do que brisa.

E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.

Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem-palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.

Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.

Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.

Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!

Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.

Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos

És o cemitério.
Os mortos não jazem
debaixo da terra.

Não estão ocultos
num lençol de relva
mas sob tua pele.

Tuas veias são
ruas onde os mortos
passeiam fagueiros,

e em férias percorrem,
turistas do eterno,
os museus do éter.

E nas terras velhas
de tua memória
almas veraneiam.

Meu filho, viver
é comerciar
no balcão dos mortos.

É achar no chão
o botão caído
de um casaco antigo.

Os defuntos vivem
fora dos seus ossos,
ocultos nas lágrimas

dos vivos que choram
ou mesmo no orvalho
do ramo de flor.

Mortos continuam
vivos, quando amados.
Viver é guardá-los

do verme que os come,
da erva que os encobre,
do nada infinito.

Fechado o ataúde,
seguras as alças,
o morto se evade.

Em verdade um morto
nunca é enterrado.
Volta com os vivos

de seu próprio enterro,
deixando na cova
o pó de novembro.

Por isso acordamos
nas noites escuras
cercados de mortos.

O pai morto dá
conselhos miúdos
ao seu filho aflito.

E a mãe morta vem
embalar, na noite,
o filho barbado.

(O menino eterno
que qualquer mãe morta
carrega consigo.)

Nesse minifúndio
que é a tua memória
figuras peremptas

te falam no vento:
tua parentela
desfila, andarenga.

Sê fiel, meu filho,
à tua prosápia.
Pratica teus mortos

(como o marinheiro
respira a onda nua
na entrada da barra).

Enquanto viveres
cubra-te a caliça
de todos os mortos.

Ouve o que te digo:
está morto o vivo
que esquece os seus mortos

e os sepulta em si,
empareda-os, vivos,
numa íntima cova.

Uma vida eterna
sucede, na terra,
de pai para filho.

Mais do que no sangue,
na vaga semblança
ou no sobrenome,

o pai continua
compincha da vida
no filho varão.

No filho legal
que torna domingo
o dia longínquo

e dá vida à morte.
Sendo filho, é o pai
quando era menino.

Carlos Drummond de Andrade – Nudez

Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.

Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.

Nem era dor aquilo que doía;
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.

Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.

Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.

David Mourão-Ferreira – E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

Eugénio de Andrade – Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Ana Martins Marques – [Você se dá conta]

Você se dá conta
de repente
de que muitos dos poemas que ama
foram na verdade escritos
por seus tradutores:
senhores míopes
enfiados em escritórios improvisados
em quartinhos dos fundos
enquanto os netos jogam bola na sala
jovens mães de família
implorando por umas horas de silêncio
traduzindo versos longos
enquanto ouvem ao fundo bater
como um mar
a máquina de lavar
professoras aposentadas
que se metem a verter ao português os versos
de um velho poeta chileno
funcionários públicos que passam suas horas livres
trocando palavras umas pelas outras
como numa casa de câmbio
doutorandos mal remunerados
autores de outros poemas
que você não ama
debruçados sobre palavras
que você nunca vai ler
e lançando sobre o papel
novas palavras
que se tornarão depois
suas palavras preferidas.

*

Você entrava nesses poemas
como num mar estrangeiro
como daquela vez que entrou no mar
de um outro continente
um mar feminino
sob um sol feminino
e teve a impressão de ter abandonado
partes de si mesma
da sua vida da sua língua do seu nome
junto com as roupas amontoadas
na areia.

*

São muitas
você sabe
as palavras
e esperam
como toras de madeira empilhadas
capim crescido
mercadorias que aguardam
transporte
pequenos barcos a remo sem remo
máquinas que não se sabe
para que servem
cartas extraviadas
no voo
as manchas de café nas páginas
de um livro
todas as coisas encontradas no estômago
da morsa que morreu em 1961 no zoológico de Berlim
esperam
que você as escute
e as deixe dizer
o que dizem
no entanto você não pode
– um rastilho de pólvora
e você não tem isqueiro –
precisa de outro que as acenda
só pode se aquecer numa fogueira
emprestada
– é mais ou menos isso
mas com outras palavras.

Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]

secos
são os homens sem sonhos
desertos rios de margens estreitas
trilham apenas os caminhos que a terra dita
nunca refletem de volta
o brilho gratuito do mundo

o acaso
delimita suas fronteiras

os homens sem sonhos

eles são
     as velas apagadas
     os caminhos silenciosos brancos de neve
     a matéria da corda dos enforcados
     o silêncio nascido da ignorância
     a crosta e a superfície
     o fácil e o óbvio

apenas olham
e a maçã continua maçã
aliás seu olhar as coisas petrifica

modernas medusas
mitológicos zeros
esquecidos até mesmo pelos espelhos

mas o mundo ainda é o mesmo que sempre foi

ainda existem aqueles que olham as estrelas
e pensam – eu existo
outros há que escrevem poemas

          (semideuses para quem a alma humana
                    não representa segredo)

mas as maravilhas
as verdadeiras maravilhas

     (o dentro de uma gota de névoa
     as possibilidades infindas do oceano
     a morte no exato de sua hora
     a fagulha química que engendra a paixão
     e o suor brotando feito sangue – puro sangue –
                                      no dorso de um cavalo no galope
     e a menor partícula, essência das essências
     e o nada entre os mundos
     entre as estrelas
     os sonhos de Ariadne)

essas não são visíveis a olhos nus

     cegos são os homens sem sonhos
     mortos estão e julgam que dormem

o sono
     é o dos
          justos

 

                                                          14/05/1994

Eugénio de Andrade – Elegia

Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia
dos frutos e dos animais.

Maio trouxe cravos como outrora,
cravos morenos, como tu dizias,
mas cada hora
passa e não se demora
na tristeza das nossas alegrias.

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste ritmo, o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.

Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direção.