Anne Sexton – A noite estrelada

A noite estrelada

Isso não me impede de ter uma terrível necessidade de — devo dizer a palavra — religião. Então saio à noite para pintar as estrelas.

– Vincent Van Gogh, em uma carta ao seu irmão

 
A aldeia não existe,
exceto quando uma árvore de cabelos escuros desliza
no ar abrasador como uma mulher afogada.
A aldeia está em silêncio. A noite fervilha com onze estrelas.
Ó, noite estrelada! É assim que
eu quero morrer.

Movimento. Elas estão todas vivas.
Até a lua incha em sua rigidez alaranjada
para, como um deus, afastar os filhos de seus olhos.
A velha serpente invisível engole as estrelas.
Ó, noite estrelada! É assim que
eu quero morrer:

nessa fera da noite veloz,
sugada por esse grande dragão, para me separar
de minha vida sem qualquer bandeira,
sem entranhas,
sem lamento.

Trad.: Nelson Santander

The starry night

That does not keep me from having a terrible need of — shall I say the word — religion. Then I go out at night to paint the stars.

– Vincent Van Gogh in a letter to his brother

The town does not exist
except where one black-haired tree slips
up like a drowned woman into the hot sky.
The town is silent. The night boils with eleven stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die.

It moves. They are all alive.
Even the moon bulges in its orange irons
to push children, like a god, from its eye.
The old unseen serpent swallows up the stars.
Oh starry starry night! This is how
I want to die:

into that rushing beast of the night,
sucked up by that great dragon, to split
from my life with no flag,
no belly,
no cry.

Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa

Ela está bem aqui.
Ela foi cuidadosamente esculpida para você
saída de sua infância
saída dentre seus cem colegas de escola preferidos.

Ela sempre esteve aqui, meu bem.
Ela é de fato extraordinária.
Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiro
e tão real como uma panela de ferro fundido.

Vamos ser sinceros, eu fui passageira.
Um artigo de luxo. Um veleiro vermelho-brilhante no cais.
Meu cabelo para fora da janela do carro, esvoaçante como fumaça.
Mariscos fora de época.

Ela é mais do que isso. Ela é o que você tem de ter,
ela semeou seu crescimento prático, tropical.
Ela não é uma experiência. Ela é toda harmonia.
Ela cuida para que no bote salva-vidas haja remos e ganchos,

coloca flores do campo na janela para o café-da-manhã,
ao meio-dia senta-se à roda do oleiro,
criou três filhos sob a lua,
três querubins desenhados por Michelangelo,

fez isso com as pernas abertas
nos terríveis meses na capela.
Se você olhar para cima, as crianças estão lá
como balões delicados que descansam no teto.

Ela também carregou cada uma pelo corredor
depois do jantar, suas cabeças inclinadas,
duas pernas protestando, íntimas, pessoa contra pessoa,
o rosto corado com uma canção e soninho.

Eu devolvo seu coração.
Eu dou meu consentimento –

para o detonador dentro dela, latejando
na lama com raiva, para a sua cadela interior
e o enterro das suas feridas –
para enterrar viva a ferida, pequena e vermelha –

para a pálida tremelicante labareda debaixo de suas costelas,
para o marinheiro bêbado que aguarda em seu pulso esquerdo,
para o joelho materno, para a meia,
para a cinta-liga, para a chamada –

a estranha chamada
você vai se esconder nos braços e nos seios
e puxar a fita cor de laranja do cabelo dela
e atender a chamada, a estranha chamada.

Ela é tão nua e única
Ela é a soma de você mesmo e o seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou uma aquarela.
Eu evaporo.

Trad.: Adelaide Ivanova

Anne Sexton – For my lover returning to his wife

She is all there.
She was melted carefully down for you
and cast up from your childhood,
cast up from your one hundred favorite aggies.
She has always been there, my darling.
She is, in fact, exquisite.
Fireworks in the dull middle of February
and as real as a cast-iron pot.
Let’s face it, I have been momentary.
vA luxury. A bright red sloop in the harbor.
My hair rising like smoke from the car window.
Littleneck clams out of season.
She is more than that. She is your have to have,
has grown you your practical your tropical growth.
This is not an experiment. She is all harmony.
She sees to oars and oarlocks for the dinghy,
has placed wild flowers at the window at breakfast,
sat by the potter’s wheel at midday,
set forth three children under the moon,
three cherubs drawn by Michelangelo,
done this with her legs spread out
in the terrible months in the chapel.
If you glance up, the children are there
like delicate balloons resting on the ceiling.
She has also carried each one down the hall
after supper, their heads privately bent,
two legs protesting, person to person,
her face flushed with a song and their little sleep.
I give you back your heart.
I give you permission –
for the fuse inside her, throbbing
angrily in the dirt, for the bitch in her
and the burying of her wound –
for the burying of her small red wound alive –
for the pale flickering flare under her ribs,
for the drunken sailor who waits in her left pulse,
for the mother’s knee, for the stocking,
for the garter belt, for the call –
the curious call
when you will burrow in arms and breasts
and tug at the orange ribbon in her hair
and answer the call, the curious call.
She is so naked and singular
She is the sum of yourself and your dream.
Climb her like a monument, step after step.
She is solid.
As for me, I am a watercolor.
I wash off.

http://www.suplementopernambuco.com.br/inéditos/1654-para-o-meu-amante-voltando-para-a-esposa.html

Anne Sexton – A Terra Desmorona

Se eu pudesse culpar o clima por tudo,
a neve como a mesa de dissecação,
as árvores que se tornam agulhas de tricô,
o chão, tão rijo como uma arinca congelada,
o lago vestindo seu bigode de geada.
Se eu pudesse culpar tais circunstâncias,
se eu pudesse culpar os corações de estranhos
descendo as ruas silenciosamente,
ou culpar os cães, de todas as cores,
cheirando uns aos outros
e mijando na soleira das portas…
Se eu pudesse culpar os CEOs
e os presidentes por
suas cantilenas irremissíveis​​…
Se eu pudesse culpá-los por todas
as mães e pais do mundo,
pelas suas lições, as migalhas de poder,
pelo seu amor que circunda você feito uma massa…
Culpar Deus talvez?
Pelo começo de tudo
que nos compeliu aos nossos primeiros erros?
Não, eu culparei o Homem
pois o Homem é Deus
e o homem está consumindo a terra
como a uma barra de doces
e nenhum deles pode ser deixado sozinho com o oceano,
pois sabemos que ele o engolirá inteiro.
As estrelas (possivelmente) estão a salvo.
Pelo menos por enquanto.
As estrelas são peras
que ninguém pode alcançar,
mesmo para um casamento.

Talvez por uma morte.

Trad.: Nelson Santander

 

Anne Sexton – The Earth Falls Down

If I could blame it all on the weather,
the snow like the cadaver’s table,
the trees turned into knitting needles,
the ground as hard as a frozen haddock,
the pond wearing its mustache of frost.
If I could blame conditions on that,
if I could blame the hearts of strangers
striding muffled down the street,
or blame the dogs, every color,
sniffing each other
and pissing on the doorstep…
If I could blame the bosses
and the presidents for
their unpardonable songs…
If I could blame it on all
the mothers and fathers of the world,
they of the lessons, the pellets of power,
they of the love surrounding you like batter…
Blame it on God perhaps?
He of the first opening
that pushed us all into our first mistakes?
No, I’ll blame it on Man
For Man is God
and man is eating the earth up
like a candy bar
and not one of them can be left alone with the ocean
for it is known he will gulp it all down.
The stars (possibly) are safe.
At least for the moment.
The stars are pears
that no one can reach,
even for a wedding.

Perhaps for a death.

Anne Sexton – Frágil Fio

Minha fé
é um grande peso
suspenso por um frágil fio,
como a aranha
suspende seu bebê em uma fina teia,
como a videira,
galhos finos e madeira,
sustenta as uvas
como globos oculares,
como muitos anjos
dançam na cabeça de um alfinete.

Deus não precisa
de muito fio para manter-Se lá,
apenas uma veia fina,
com o sangue pulsando,
e um pouco de amor.
Como já se disse:
O amor e a tosse
não podem ser disfarçados.
Nem mesmo uma pequena tosse.
Nem mesmo um pequeno amor.
Então, se você tiver apenas um fino fio,
Deus não se importa.
Ele penetrará em suas mãos
tão facilmente quanto dez centavos costumavam
pagar uma Coca.

Trad.: Nelson Santander

Anne Sexton – Small Wire

My faith
is a great weight
hung on a small wire,
as doth the spider
hang her baby on a thin web,
as doth the vine,
twiggy and wooden,
hold up grapes
like eyeballs,
as many angels
dance on the head of a pin.

God does not need
too much wire to keep Him there,
just a thin vein,
with blood pushing back and forth in it,
and some love.
As it has been said:
Love and a cough
cannot be concealed.
Even a small cough.
Even a small love.
So if you have only a thin wire,
God does not mind.
He will enter your hands
as easily as ten cents used to
bring forth a Coke.