Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores, Onde as plantas são animais E os animais são flores. Mundo silencioso que não atinge A agitação das ondas. Abrem-se rindo conchas redondas, Baloiça o cavalo-marinho. Um polvo avança No desalinho Dos seus mil braços, Uma flor dança, Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do mar

Sophia de Mello Breyner Andresen – O primeiro homem

Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – O primeiro homem

Sophia de Mello Breyner Andresen – Quando

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje igualmente hão-de bailar As quatro estações à minha porta. Outros em Abril passarão no pomar Em que eu tantas vezes passei, Haverá longos poentes sobre o mar, Outros amarão as coisas que eu amei. Será … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Quando

Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Sophia Mello Breyner Andresen – 25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen – Espera

Dei-te a solidão do dia inteiro. Na praia deserta, brincando com a areia, No silêncio que apenas quebrava a maré cheia A gritar o seu eterno insulto, Longamente esperei que o teu vulto Rompesse o nevoeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Apesar das ruínas e da morte

Apesar das ruínas e da morte, Onde sempre acabou cada ilusão, A força dos meus sonhos é tão forte, Que de tudo renasce a exaltação E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio

Senhor, dai-me a inocência dos animais Para que eu possa beber nesta manhã A harmonia e a força das coisas naturais. Apagai a máscara vazia e vã De humanidade, Apagai a vaidade, Para que eu me perca e me dissolva Na perfeição da manhã E para que o vento me devolva A parte de mim … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Reza da Manhã de Maio

Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros

A confusão a fraude os erros cometidos  A transparência perdida — o grito  Que não conseguiu atravessar o opaco  O limiar e o linear perdidos  Deverá tudo passar a ser passado  Como projecto falhado e abandonado  Como papel que se atira ao cesto  Como abismo fracasso não esperança  Ou poderemos enfrentar e superar  Recomeçar a … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Os Erros

Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto

Escuto mas não sei Se o que ouço é silêncio Ou deus Escuto sem saber se estou ouvindo O ressoar das planícies do vazio Ou a consciência atenta Que nos confins do universo Me decifra e fita Apenas sei que caminho como quem É olhado, amado e conhecido E por isso em cada gesto ponho … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Escuto