Ana Martins Marques – A porta de saída

"Eu vou morrer, masisso é tudo o que farei pela Morte"Edna St. Vincent Millay, Objeção de consciência "Alô, iniludível" Manuel Bandeira, Consoada A porta de saída Mas não serei eua colocar-lhe a mesa– quando chegarencontrará a casa como sempreem desordemcheia de livros e discoscom plantas e gatos ao sole os papéis em órbitaem torno da camae … Continue lendo Ana Martins Marques – A porta de saída

David Mourão-Ferreira – E por vezes

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por … Continue lendo David Mourão-Ferreira – E por vezes

José Miguel Silva – Desculpas não faltam

Uma casa junto ao Vouga,rio de água suficiente,onde apenas se mergulhaaté à cintura, a pequena hortade Virgílio, o amor robustecidopor nenhuma esperançae tantos livros para ler- que desculpa vou agora darpara não ser feliz?

Wendell Berry – O desejo de ser generoso

Tudo o que eu sirvo, morrerá, todos os meus deleites,a carne acesa de minha carne, jardim e campo,os lírios silenciosos que se encontram na floresta, as florestas, a colina, a terra toda, tudoarderá na maldade humana, ou encolherána própria velhice. Que o mundo me proporcioneo sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecerminha … Continue lendo Wendell Berry – O desejo de ser generoso

Robyn Sarah – Rebitados

É possível que as coisas não fiquem melhoresdo que estão agora, ou como imaginamos que estejam.É possível que já tenhamos ultrapassado o meio agora.É possível que tenhamos cruzado as Grandes Águassem sabe-lo, e que agora estejamos do outro lado. Sim, acho que já as atravessamos. Agora estamos recebendo ingressos, e eles não são ingressos para … Continue lendo Robyn Sarah – Rebitados

Una Mannion – Sepultado agachado

Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis epor toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você.Primeiro, o pé de uma pequena criança,movimentos lentos do pincel em seus ossinhos,sua forma na vala, ganhando definição, um lento nascimentono canto do campo à beira da água. Você está deitado de … Continue lendo Una Mannion – Sepultado agachado

Lisel Mueller – Imortalidade

No castelo da Bela Adormecidao relógio bate cem anose a garota na torre volta ao mundo.O mesmo ocorre com os criados na cozinha,que nem sequer esfregam os olhos.A mão direita do cozinheiro, levantadahá exatamente um século,completa seu arco descendenteaté a orelha esquerda do ajudante de cozinha;as tensas cordas vocais do garotolibertam finalmenteo sofrido lamento aprisionado,e … Continue lendo Lisel Mueller – Imortalidade

Jeanne Marie Beaumont – Receio que sim

Está começando a chover?O cheque foi devolvido?Estamos sem café?Vai doer?Você pode perder seu emprego?O vidro quebrou?A bagagem foi extraviada?Vai ficar na minha ficha?Você está perdendo muito dinheiro?Alguém ficou ferido? O trânsito está pesado?Eu tenho que tirar minhas roupas?Vai deixar uma cicatriz?Você tem que ir?Isso sairá nos jornais?Meu tempo já acabou?Veremos o substituto?Afetará a minha visão?Todos … Continue lendo Jeanne Marie Beaumont – Receio que sim

Frank O’Hara – Animais

Você já se esqueceu de como éramos quando éramos de primeira linhae o dia vinha gordo com uma maçã em sua boca não vale a pena se preocupar com o Tempo mas nós tínhamos alguns truques nas mangase dobramos algumas esquinas afiadas todo pasto parecia nossa refeiçãonão precisávamos de velocímetrospodíamos gerenciar coquetéis sem gelo e … Continue lendo Frank O’Hara – Animais