Paul Tran – A caverna

Alguém que estava na abertura teve
a ideia de entrar. Ir além do ponto onde

a luz ou a linguagem poderiam
ir. À medida que ele seguia
a ideia, luz e linguagem o acompanhavam

como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio
resfolegar. Um aroma informe
no ar úmido…

Prossiga, disse a ideia.

Alguém prosseguiu. Cada vez mais fundo, eles viram
que outros tinha estado lá. Outros haviam deixado

objetos que não poderiam ter encontrado o caminho
para aquele lugar sozinhos. Conchas ocre-manchadas. Ossos de pássaros. Hematita
enraizada. Nas paredes,

como se entrasse na história, alguém vislumbrou
o seu propósito: vacas. Touros. Bisontes. Veados. Equinos —
alguns prenhes, outros abatidos.

A vida
selvagem parecia selvagem e viva, movendo-se

quando alguém se movia, lançando suas sombras
nas sombras que se estendiam
em todas as direções. Prossiga,

a ideia disse novamente. Continue…

Alguém continuou. Eles seguiram a ideia tão longe para dentro que
fora era outra ideia.

Trad.: Nelson Santander

The Cave

Someone standing at the mouth had
the idea to enter. To go further

than light or language could
go. As they followed
the idea, light and language followed

like two wolves—panting, hearing themselves
panting. A shapeless scent
in the damp air …

Keep going, the idea said.

Someone kept going. Deeper and deeper, they saw
others had been there. Others had left

objects that couldn’t have found their way
there alone. Ocher-stained shells. Bird bones. Grounded
hematite. On the walls,

as if stepping into history, someone saw
their purpose: cows. Bulls. Bison. Deer. Horses—
some pregnant, some slaughtered.

The wild-
life seemed wild and alive, moving

when someone moved, casting their shadows
on the shadows stretching
in every direction. Keep going,

the idea said again. Go …

Someone continued. They followed the idea so far inside that
outside was another idea.