Adrienne Rich – Fotografias do Hubble: Após Sappho

Deve ser a visão mais desejada de todas
a pessoa com quem você espera viver e morrer

entrando numa sala, voltando-se para olhar para você, vis-à-vis
Deveria haver ainda algo

mais desejável: a ex-estase das galáxias,
tão afastadas de nós que não há vocabulário

mas equações matemáticas e óticas
que permitem que a visão atravesse o tempo

em liberações e lacerações de luz e poeira,
expostas como uma cavidade corporal, violeta verde lívida e venosa, lindas

— além do bem e do mal como sempre manchadas em sonho
além do remorso, da desilusão, do medo da morte

ou da vida, do ódio
de ordem, do ódio de destruição

além deste amor que agita
o ar toda vez que ela entra na sala

Estas impersonae, como as chamamos,
não irão nos invadir como nas telas do cinema

elas são tão antigas, tão novas, nós não somos para elas
nós olhamos ou não para elas de dentro da nebulosidade leitosa

de nosso oblíquo olhar
mas elas não olham para trás e não podemos feri-las

Trad.: Nelson Santander

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Hubbele Photographs: after Sapho

It should be the most desired sight of all
the person with whom you hope to live and die

walking into a room, turning to look at you, sight for sight
Should be yet I say there is something

more desirable: the ex-stasis of galaxies
so out from us there’s no vocabulary

but mathematics and optics
equations letting sight pierce through time

into liberations, lacerations of light and dust
exposed like a body’s cavity, violet green livid and venous, gorgeous

—beyond good and evil as ever stained into dream
beyond remorse, disillusion, fear of death

or life, rage
for order, rage for destruction

beyond this love which stirs
the air every time she walks into the room

These impersonae, however we call them
won’t invade us as on movie screens

they are so old, so new, we are not to them
we look at them or don’t from within the milky gauze

of our tilted gazing
but they don’t look back and we cannot hurt them