Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a … Continue lendo Francisco Brines – Métodos de conhecimento

Francisco Brines – Deitado

Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam.            São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer, … Continue lendo Francisco Brines – Deitado

Francisco Brines – Última declaração de amor

Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has … Continue lendo Francisco Brines – Última declaração de amor

Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreu vivem ainda, a arder, aqueles coxas? Dão luz ainda a estes olhos tão velhos e enganados, que voltam agora a ser o milagre que foram: desejo de uma carne, e a alegria do que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem que … Continue lendo Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

E o que ficou daquele distante verão nas costas da Grécia? O que resta em mim do único verão de minha vida? Se pudesse eleger, de todos em que vivi, algum lugar, e o tempo que o ata, sua milagrosa companhia me arrasta até lá, onde ser feliz era a natural razão para estar vivo. … Continue lendo Francisco Brines – Aquele verão de minha juventude

Francisco Brines – Os Verões

        A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões! Ficamos nus juntos ao mar, e o mar ainda mais nu. Com os olhos, e em corpos ágeis, praticamos a mais prazerosa posse do mundo. Soavam para nós as vozes iluminadas de lua, e era a vida abrasadora e violenta, ingratos com o sonho, fluíamos. O … Continue lendo Francisco Brines – Os Verões

Francisco Brines – Sitiado pela Divindade

Hoje voltas-te para o mar, com o corpo nu como na juventude, e todo o peso de ouro caindo sobre as costas como um interminável falcão que, azul, plana ao largo e pousa no braço, sem emitir sons, e respira. Descubro, com sereno assombro, minha existência, e o mundo então existe - o mar, que … Continue lendo Francisco Brines – Sitiado pela Divindade

Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na … Continue lendo Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas, … Continue lendo Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Não desdenhes as paixões vulgares Tens os anos necessários para saber que elas se correspondem exatamente com a vida. Não reduzas sua ação, pois se do breve tempo em que consistes as retiras, é ainda o existir mais imperfeito. Descobre sua verdade por trás da aparência, e assim não haverá falsidade, não poderás fingir que … Continue lendo Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores