Mary Oliver – Encontrando a raposa

Quando encontrei a raposa hoje – um ouro
tão vivo em seus olhos –
nenhuma de nós
se moveu, embora apenas

uma de nós tenha sido imediatamente tomada
de admiração. Suas patas estavam
apoiadas em seu movimento
de brusca parada,

suas orelhas, para frente apontadas,
a fim de ouvir como minha língua poderia ser,
mas eu não disse
nada, não havia palavra para a

esperança que eu tinha de que
pudéssemos ser amigas. Atrás dela,
a encosta, depois, a floresta,
e, além, todo o universo.

Fiquei imóvel como uma rocha.
Eu não sabia o que fazer.
Então eu pensei, bem,
por que não tentar?
, e

estendi minhas mãos em sinal
de amizade, e instantaneamente,
com um cortante latido, uma negativa
muito decisiva,

em suas patas pequenas e elegantes,
ela voltou a subir a encosta
e voou para aquele outro
mundo.

Trad.: Nelson Santander

Meeting the Fox

When I met the fox today – such living
gold in its eyes –
neither of us
moved though only

one of us was instantly taken up with
admiration. Its legs were
braced in their motion
of sudden stop,

its ears were pricked forward
to hear what my language might be,
but I said
nothing, there was no word for the

hope I had that we
could be friends. Behind it
the hillside, then the woods,
then the entire universe.

I stood as still as a rock.
I didn’t know what to do.
Then I thought, oh well,
why not try, and I

held out my hands
in friendship, and instantly,
with a sharp bark, a very
decisive negative,

on its narrow and elegant feet,
back up the hillside
and into that other world
it flew.

Mary Oliver – Pesado

Naquela época
Eu pensei que não poderia
me aproximar mais da dor
sem morrer

eu me aproximei
e não morri.
Certamente teve
a mão de Deus nisso,

assim como as dos amigos.
Ainda assim, eu estava curvada,
e meu riso,
como disse o poeta,

havia desaparecido.
Então disse o meu amigo Daniel
(valente mesmo entre os leões):
“Não é o peso que você carrega

mas como você o carrega –
livros, luto, ladrilhos –
tudo está na maneira
como você o abraça, equilibra, carrega-o

quando não pode, e não quer,
abandoná-lo.”
Então eu fui praticar.
Já reparou?

Já ouviu
o riso
que sai, vez ou outra,
de minha boca assustadas?

Como eu me demoro
admirando, admirando, admirando
as coisas deste mundo
que são gentis, e talvez

também turbulentas –
rosas ao vento,
os gansos-do-mar nas ondas íngremes,
um amor
para o qual não há resposta?

Trad.: Nelson Santander

Heavy

That time
I thought I could not
go any closer to grief
without dying

I went closer,
and I did not die.
Surely God
had his hand in this,

as well as friends.
Still, I was bent,
and my laughter,
as the poet said,

was nowhere to be found.
Then said my friend Daniel,
(brave even among lions),
“It’s not the weight you carry

but how you carry it –
books, bricks, grief –
it’s all in the way
you embrace it, balance it, carry it

when you cannot, and would not,
put it down.”
So I went practicing.
Have you noticed?

Have you heard
the laughter
that comes, now and again,
out of my startled mouth?

How I linger
to admire, admire, admire
the things of this world
that are kind, and maybe

also troubled –
roses in the wind,
the sea geese on the steep waves,
a love
to which there is no reply?

Mary Oliver – A serpente negra

Foi quando a serpente negra
apareceu na estrada de manhã,
e o caminhão não conseguiu desviar –
morte, é assim que acontece.

Agora ela jaz enrolada e inútil
como um velho pneu de bicicleta.
Eu paro o carro
e a levo para o mato.

Ela é fria e reluzente
como um chicote trançado, bela e tranquila
como um irmão que morreu.
Eu a deixo sob as folhas

e sigo em frente, refletindo
sobre a morte: sua subitaneidade,
seu peso terrível,
a certeza de sua vinda. Contudo, sob

a razão, arde um fogo mais brilhante, que os ossos
sempre preferiram.
É a narrativa da sorte sem fim.
Ela diz para o oblívio: não comigo!

Ela é a luz no núcleo de cada célula.
Foi o que fez a cobra enrolar-se e fluir para frente
feliz durante toda a primavera através das folhas verdes antes
de chegar à estrada.

Trad.: Nelson Santander

The Black Snake

When the black snake
flashed onto the morning road,
and the truck could not swerve–
death, that is how it happens.

Now he lies looped and useless
as an old bicycle tire.
I stop the car
and carry him into the bushes.

He is as cool and gleaming
as a braided whip, he is as beautiful and quiet
as a dead brother.
I leave him under the leaves

and drive on, thinking
about death: its suddenness,
its terrible weight,
its certain coming. Yet under

reason burns a brighter fire, which the bones
have always preferred.
It is the story of endless good fortune.
It says to oblivion: not me!

It is the light at the center of every cell.
It is what sent the snake coiling and flowing forward
happily all spring through the green leaves before
he came to the road.

Mary Oliver – Primavera

Em algum lugar,
uma ursa preta
acaba de despertar
e lança seu olhar

montanha abaixo.
A noite toda,
na inquietação viva e superficial
do início da primavera,

eu penso nela,
suas quatro patas pretas
agitando o cascalho,
sua língua

como uma chama rubra
tocando a grama,
a água fria.
Existe apenas uma questão:

como amar este mundo.
Eu penso nela
erguendo-se
como uma saliência negra e frondosa

para afiar suas garras contra
o silêncio
das árvores.
O que quer que seja

a minha vida
com seus poemas
e sua música
e suas cidades,

ela é também este ofuscante negror
descendo
a montanha,
respirando e fruindo;

o dia todo eu penso nela –
em suas presas brancas,
sua ausência de palavras,
seu amor perfeito.

Trad.: Nelson Santander

Spring

Somewhere
a black bear
has just risen from sleep
and is staring

down the mountain.
All night
in the brisk and shallow restlessness
of early spring

I think of her,
her four black fists
flicking the gravel,
her tongue

like a red fire
touching the grass,
the cold water.
There is only one question:

how to love this world.
I think of her
rising
like a black and leafy ledge

to sharpen her claws against
the silence
of the trees.
Whatever else

my life is
with its poems
and its music
and its cities,

it is also this dazzling darkness
coming
down the mountain,
breathing and tasting;

all day I think of her –
her white teeth,
her wordlessness,
her perfect love.

Mary Oliver – O martim-pescador

O martim-pescador surge da onda negra
como uma flor azul, em seu bico
ele carrega uma folha prateada. Acredito ser este
o mundo mais bonito – desde que você não se importe
de morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um dia
que não tenha sua gota de felicidade?
Há mais peixes do que folhas
em mil árvores, e, de toda forma, o martim-pescador
não veio ao mundo para pensar nisso, ou em qualquer outra coisa.
Quando a onda se fecha sobre sua cabeça azul, a água
permanece água – a fome é a única história
que ele já ouviu em toda sua vida na qual pode confiar.
Não digo que ele esteja certo. Nem,
tampouco, errado. Religiosamente, ele engole a folha prateada
com seu rio vermelho dividido, e com um grito áspero e agradável
que não poderia me despertar do meu corpo pensativo
se minha vida dependesse disso, ele se desloca de volta
para o mar brilhante para fazer a mesma coisa, para faze-lo
(como eu desejo fazer alguma coisa, qualquer coisa) perfeitamente.

Trad.: Nelson Santander

The kingfisher

The kingfisher rises out of the black wave
like a blue flower, in his beak
he carries a silver leaf. I think this is
the prettiest world – so long as you don’t mind
a little dying, how could there be a day in your whole life
that doesn’t have its splash of happiness?
There are more fish than there are leaves
on a thousand trees, and anyway the kingfisher
wasn’t born to think about it, or anything else.
When the wave snaps shut over his blue head, the water
remains water – hunger is the only story
he has ever heard in his life that he could believe.
I don’t say he’s right. Neither
do I say he’s wrong. Religiously he swallows the silver leaf
with its broken red river, and with a rough and easy cry
I couldn’t rouse out of my thoughtful body
if my life depended on it, he swings back
over the bright sea to do the same thing, to do it
(as I long to do something, anything) perfectly.

Mary Oliver – O véu

Há momentos em que o véu parece
quase se levantar, e compreendemos o que
a terra significa para nós — as
árvores em sua docilidade, as colinas em
sua paciência, as flores e as
videiras em sua selvagem, doce vitalidade.
A Palavra, então, está em nós, e o
Livro, posto de lado.

Trad.: Nelson Santander

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The veil

There are moments when the veil seems 
almost to lift, and we understand what
the earth is meant to mean to us—the
trees in their docility, the hills in
their patience, the flowers and the
vines in their wild, sweet vitality.
Then the Word is within us, and the
Book is put away.

Mary Oliver – Canção dos construtores

Em uma manhã de verão
sentei-me
em uma encosta
para pensar em Deus—

um nobre passatempo.
Perto de mim, vi
um grilo solitário;
estava movendo os grãos da encosta

de um lado para o outro.
Quão grande era sua energia,
quão humilde o seu esforço.
Esperemos que

seja sempre assim,
cada um de nós avançando
por nossos inexplicáveis caminhos
construindo o universo.

Trad.: Nelson Santander

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Song of the Builders

On a summer morning
I sat down
on a hillside
to think about God—

a worthy pastime.
Near me, I saw
a single cricket;
it was moving the grains of the hillside

this way and that way.
How great was its energy,
how humble its effort.
Let us hope

it will always be like this,
each of us going on
in our inexplicable ways
building the universe.

Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Quando estou entre as árvores,
especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,
mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,
elas emitem tantos sinais de alegria.
Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.
Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,
nas quais eu reúno bondade, e discernimento,
e nunca me apresso no mundo,
mas caminho lentamente, e com frequência me curvo.
À minha volta, as árvores agitam suas folhas
e bradam: “Fique mais um pouco.”
A luz flui de seus ramos.
E elas convidam novamente: “É simples,” elas dizem,
“e você também veio
ao mundo para isso, para ir devagar, para ser preenchida
com luz, e para brilhar.”

Trad.: Nelson Santander

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When I am among the trees

When I am among the trees,
especially the willows and the honey locust,
equally the beech, the oaks and the pines,
they give off such hints of gladness.
I would almost say that they save me, and daily.
I am so distant from the hope of myself,
in which I have goodness, and discernment,
and never hurry through the world
but walk slowly, and bow often.
Around me the trees stir in their leaves
and call out, “Stay awhile.”
The light flows from their branches.
And they call again, “It’s simple,” they say,
“and you too have come
into the world to do this, to go easy, to be filled
with light, and to shine.”

Mary Oliver – Os usos da tristeza

(enquanto dormia, sonhei este poema)

Alguém que amei uma vez me deu
uma caixa cheia de escuridão.

Levei anos para entender
que isto, também, foi uma dádiva.

Trad.: Nelson Santander

The uses of sorrow

(In my sleep I dreamed this poem)

Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Mary Oliver – Nenhuma viagem

Eu acordo mais cedo, agora que os pássaros chegaram
E cantam nas árvores inabaláveis.
Em um catre junto a uma janela aberta
Eu me estendo como campo consumido, enquanto desabrocha a primavera.

Agora, de todos os viajantes de que me lembro, quem dentre eles
Não embarcou com pesar em seus mapas? —
Até parece que os homens nunca vão a lugar nenhum, que eles só saem
De onde quer que estejam quando a morte começa.

Pessoalmente, acho que minha vida insuficiente
Não implora por nenhuma novidade ou simulação de distância;
Onde, em que país, poderia eu formular esses pensamentos,
de que ainda sou cidadã desta cidade decaída?

Em um catre junto a uma janela aberta, eu me deito e relembro
Enquanto os pássaros nas árvores cantam o círculo do tempo.
Deixem que os moribundos prossigam, e deixem-me, se eu puder,
Herdar do desastre antes de partir.

Oh, vou ver os grandes navios saindo do porto,
E minhas chagas pulsam de impaciência; ainda assim, volto
Para ordenar as ruínas lutuosas de minha casa:
Aqui ou em lugar nenhum, farei as pazes com o fato.

Trad.: Nelson Santander

No Voyage

I wake earlier, now that the birds have come
And sing in the unfailing trees.
On a cot by an open window
I lie like land used up, while spring unfolds.

Now of all voyagers I remember, who among them
Did not board ship with grief among their maps?—
Till it seemed men never go somewhere, they only leave
Wherever they are, when the dying begins.

For myself, I find my wanting life
Implores no novelty and no disguise of distance;
Where, in what country, might I put down these thoughts,
Who still am citizen of this fallen city?

On a cot by an open window, I lie and remember
While the birds in the trees sing of the circle of time.
Let the dying go on, and let me, if I can,
Inherit from disaster before I move.

O, I go to see the great ships ride from harbor,
And my wounds leap with impatience; yet I turn back
To sort the weeping ruins of my house:
Here or nowhere I will make peace with the fact.