Mary Oliver – O martim-pescador

O martim-pescador surge da onda negra
como uma flor azul, em seu bico
ele carrega uma folha prateada. Acredito ser este
o mundo mais bonito – desde que você não se importe
de morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um dia
que não tenha sua gota de felicidade?
Há mais peixes do que folhas
em mil árvores, e, de toda forma, o martim-pescador
não veio ao mundo para pensar nisso, ou em qualquer outra coisa.
Quando a onda se fecha sobre sua cabeça azul, a água
permanece água – a fome é a única história
que ele já ouviu em toda sua vida na qual pode confiar.
Não digo que ele esteja certo. Nem,
tampouco, errado. Religiosamente, ele engole a folha prateada
com seu rio vermelho dividido, e com um grito áspero e agradável
que não poderia me despertar do meu corpo pensativo
se minha vida dependesse disso, ele se desloca de volta
para o mar brilhante para fazer a mesma coisa, para faze-lo
(como eu desejo fazer alguma coisa, qualquer coisa) perfeitamente.

Trad.: Nelson Santander

The kingfisher

The kingfisher rises out of the black wave
like a blue flower, in his beak
he carries a silver leaf. I think this is
the prettiest world – so long as you don’t mind
a little dying, how could there be a day in your whole life
that doesn’t have its splash of happiness?
There are more fish than there are leaves
on a thousand trees, and anyway the kingfisher
wasn’t born to think about it, or anything else.
When the wave snaps shut over his blue head, the water
remains water – hunger is the only story
he has ever heard in his life that he could believe.
I don’t say he’s right. Neither
do I say he’s wrong. Religiously he swallows the silver leaf
with its broken red river, and with a rough and easy cry
I couldn’t rouse out of my thoughtful body
if my life depended on it, he swings back
over the bright sea to do the same thing, to do it
(as I long to do something, anything) perfectly.

Mary Oliver – O véu

Há momentos em que o véu parece
quase se levantar, e compreendemos o que
a terra significa para nós — as
árvores em sua docilidade, as colinas em
sua paciência, as flores e as
videiras em sua selvagem, doce vitalidade.
A Palavra, então, está em nós, e o
Livro, posto de lado.

Trad.: Nelson Santander

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The veil

There are moments when the veil seems 
almost to lift, and we understand what
the earth is meant to mean to us—the
trees in their docility, the hills in
their patience, the flowers and the
vines in their wild, sweet vitality.
Then the Word is within us, and the
Book is put away.

Mary Oliver – Canção dos construtores

Em uma manhã de verão
sentei-me
em uma encosta
para pensar em Deus—

um nobre passatempo.
Perto de mim, vi
um grilo solitário;
estava movendo os grãos da encosta

de um lado para o outro.
Quão grande era sua energia,
quão humilde o seu esforço.
Esperemos que

seja sempre assim,
cada um de nós avançando
por nossos inexplicáveis caminhos
construindo o universo.

Trad.: Nelson Santander

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Song of the Builders

On a summer morning
I sat down
on a hillside
to think about God—

a worthy pastime.
Near me, I saw
a single cricket;
it was moving the grains of the hillside

this way and that way.
How great was its energy,
how humble its effort.
Let us hope

it will always be like this,
each of us going on
in our inexplicable ways
building the universe.

Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Quando estou entre as árvores,
especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,
mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,
elas emitem tantos sinais de alegria.
Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.
Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,
nas quais eu reúno bondade, e discernimento,
e nunca me apresso no mundo,
mas caminho lentamente, e com frequência me curvo.
À minha volta, as árvores agitam suas folhas
e bradam: “Fique mais um pouco.”
A luz flui de seus ramos.
E elas convidam novamente: “É simples,” elas dizem,
“e você também veio
ao mundo para isso, para ir devagar, para ser preenchida
com luz, e para brilhar.”

Trad.: Nelson Santander

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When I am among the trees

When I am among the trees,
especially the willows and the honey locust,
equally the beech, the oaks and the pines,
they give off such hints of gladness.
I would almost say that they save me, and daily.
I am so distant from the hope of myself,
in which I have goodness, and discernment,
and never hurry through the world
but walk slowly, and bow often.
Around me the trees stir in their leaves
and call out, “Stay awhile.”
The light flows from their branches.
And they call again, “It’s simple,” they say,
“and you too have come
into the world to do this, to go easy, to be filled
with light, and to shine.”

Mary Oliver – Os usos da tristeza

(enquanto dormia, sonhei este poema)

Alguém que amei uma vez me deu
uma caixa cheia de escuridão.

Levei anos para entender
que isto, também, foi uma dádiva.

Trad.: Nelson Santander

The uses of sorrow

(In my sleep I dreamed this poem)

Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Mary Oliver – Nenhuma viagem

Eu acordo mais cedo, agora que os pássaros chegaram
E cantam nas árvores inabaláveis.
Em um catre junto a uma janela aberta
Eu me estendo como campo consumido, enquanto desabrocha a primavera.

Agora, de todos os viajantes de que me lembro, quem dentre eles
Não embarcou com pesar em seus mapas? —
Até parece que os homens nunca vão a lugar nenhum, que eles só saem
De onde quer que estejam quando a morte começa.

Pessoalmente, acho que minha vida insuficiente
Não implora por nenhuma novidade ou simulação de distância;
Onde, em que país, poderia eu formular esses pensamentos,
de que ainda sou cidadã desta cidade decaída?

Em um catre junto a uma janela aberta, eu me deito e relembro
Enquanto os pássaros nas árvores cantam o círculo do tempo.
Deixem que os moribundos prossigam, e deixem-me, se eu puder,
Herdar do desastre antes de partir.

Oh, vou ver os grandes navios saindo do porto,
E minhas chagas pulsam de impaciência; ainda assim, volto
Para ordenar as ruínas lutuosas de minha casa:
Aqui ou em lugar nenhum, farei as pazes com o fato.

Trad.: Nelson Santander

No Voyage

I wake earlier, now that the birds have come
And sing in the unfailing trees.
On a cot by an open window
I lie like land used up, while spring unfolds.

Now of all voyagers I remember, who among them
Did not board ship with grief among their maps?—
Till it seemed men never go somewhere, they only leave
Wherever they are, when the dying begins.

For myself, I find my wanting life
Implores no novelty and no disguise of distance;
Where, in what country, might I put down these thoughts,
Who still am citizen of this fallen city?

On a cot by an open window, I lie and remember
While the birds in the trees sing of the circle of time.
Let the dying go on, and let me, if I can,
Inherit from disaster before I move.

O, I go to see the great ships ride from harbor,
And my wounds leap with impatience; yet I turn back
To sort the weeping ruins of my house:
Here or nowhere I will make peace with the fact.

Mary Oliver – Nos bosques de Blackwater

Veja, as árvores
estão transformando
os próprios corpos
em pilares

de luz,
e exalando uma rica
fragrância de canela
e contentamento,

as longas velas
de taboas
explodem e flutuam sobre
as orlas azuis

das lagoas,
e cada lagoa,
não importa qual seja seu
nome, nome

não tem agora.
Todos os anos
tudo o que
aprendi

em minha vida
me leva de volta a isto: os incêndios
e o rio negro de perda
em cuja outra margem

se encontra a salvação,
e cujo significado
nenhum de nós jamais saberá.
Para viver neste mundo

você deve ser capaz
de fazer três coisas:
amar o que é mortal;
cingi-lo

contra o peito sabendo
que sua própria vida depende disso;
e, quando chegar a hora de deixa-lo ir,
deixa-lo ir.

Trad.: Nelson Santander

In Blackwater Woods

Look, the trees
are turning
their own bodies
into pillars

of light,
are giving off the rich
fragrance of cinnamon
and fulfillment,

the long tapers
of cattails
are bursting and floating away over
the blue shoulders

of the ponds,
and every pond,
no matter what its
name is, is

nameless now.
Every year
everything
I have ever learned

in my lifetime
leads back to this: the fires
and the black river of loss
whose other side

is salvation,
whose meaning
none of us will ever know.
To live in this world

you must be able
to do three things:
to love what is mortal;
to hold it

against your bones knowing
your own life depends on it;
and, when the time comes to let it
go,
to let it go.

Mary Oliver – O dia de verão

Quem fez o mundo?
Quem fez o cisne e o urso-negro?
Quem fez o gafanhoto?
Este gafanhoto, quero dizer –
o que se lançou da grama,
o que agora come açúcar na minha mão,
o que move suas mandíbulas para frente e para trás ao invés de para cima e para baixo –
o que olha ao redor com seus enormes e complexos olhos.
Agora ergue seus pálidos antebraços e lava cuidadosamente a cara.
Agora estala as asas abertas e flutua para longe.
Não sei ao certo o que é uma oração.
Eu sei como ficar atenta, como cair
na grama, como me ajoelhar na grama,
como estar ociosa e abençoada, como passear pelos campos
que é o que tenho feito todos os dias.
Diga-me, o que mais eu deveria ter feito?
No fim, tudo não morre, e muito cedo?
Diga-me, o que você planeja fazer
Com sua única selvagem e preciosa vida?

Trad.: Nelson Santander

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The Summer Day

Who made the world?
Who made the swan, and the black bear?
Who made the grasshopper?
This grasshopper, I mean –
the one who has flung herself out of the grass,
the one who is eating sugar out of my hand,
who is moving her jaws back and forth instead of up and down –
who is gazing around with her enormous and complicated eyes.
Now she lifts her pale forearms and thoroughly washes her face.
Now she snaps her wings open, and floats away.
I don’t know exactly what a prayer is.
I do know how to pay attention, how to fall down
into the grass, how to kneel in the grass,
how to be idle and blessed, how to stroll through the fields
which is what I have been doing all day.
Tell me, what else should I have done?
Doesn’t everything die at last, and too soon?
Tell me, what is it you plan to do
With your one wild and precious life?

Mary Oliver – Quando a morte chegar

Quando a morte chegar
como um urso faminto no outono;
Quando a morte chegar e tirar da carteira todas as moedas brilhantes

para me comprar, e em seguida lacra-la;
quando a morte chegar
como um sarampo-varicela

quando a morte chegar
como um iceberg entre as omoplatas,

quero atravessar o portal cheia de curiosidade, me perguntando:
como será essa cabana das trevas?

Por isso enxergo tudo como uma confraternização,
e vejo o tempo como não mais do que uma ideia,
e considero a eternidade como outra possibilidade,

e penso em cada vida como uma flor, tão comum
e singular quanto uma margarida do campo,

e cada nome como uma confortável canção entre os lábios,
tendendo, como fazem todas as canções, ao silêncio,

e cada corpo, a coragem de um leão, e algo
precioso para a terra.

Quando isso acabar, pretendo dizer que por toda minha vida
fui uma noiva do assombro.
Eu fui a noiva, tomando o mundo entre meus braços.

Quando isso acabar, não quero me perguntar
se fiz de minha vida algo especial, e real.
Não quero me ver suspirando e assustada,
ou cheia de argumentação.

Eu não quero terminar tendo simplesmente visitado este mundo.

Trad.: Nelson Santander

When death comes

When death comes
like the hungry bear in autumn;
when death comes and takes all the bright coins from his purse

to buy me, and snaps the purse shut;
when death comes
like the measle-pox

when death comes
like an iceberg between the shoulder blades,

I want to step through the door full of curiosity, wondering:
what is it going to be like, that cottage of darkness?

And therefore I look upon everything
as a brotherhood and a sisterhood,
and I look upon time as no more than an idea,
and I consider eternity as another possibility,

and I think of each life as a flower, as common
as a field daisy, and as singular,

and each name a comfortable music in the mouth,
tending, as all music does, toward silence,

and each body a lion of courage, and something
precious to the earth.

When it’s over, I want to say all my life
I was a bride married to amazement.
I was the bridegroom, taking the world into my arms.

When it’s over, I don’t want to wonder
if I have made of my life something particular, and real.
I don’t want to find myself sighing and frightened,
or full of argument.

I don’t want to end up simply having visited this world.

Mary Oliver – A jornada

Um dia você finalmente soube
o que tinha que fazer, e começou,
embora as vozes à sua volta
continuassem berrando
seus maus conselhos –
embora a casa toda
começasse a tremer
e você sentisse o velho puxão
nos seus calcanhares.
“Remende minha vida!”
cada voz clamou.
Mas você não parou.
Você sabia o que tinha que fazer,
embora o vento tateasse
com seus dedos rijos
suas próprias fundações,
e embora sua melancolia
fosse terrível.
Já era tarde
o bastante, e uma noite selvagem,
e a estrada estava cheia de galhos
e pedras espalhados.
Mas pouco a pouco
à medida que você deixava aquelas vozes para trás,
as estrelas começaram a queimar
através das camadas de nuvens,
e havia uma nova voz
que você lentamente
reconheceu como sua,
e que se manteve a seu lado
enquanto você acelerava cada vez mais fundo
no mundo,
determinada a fazer
a única coisa que poderia fazer –
determinada a salvar
a única vida que poderia salvar.

Trad.: Nelson Santander

The journey

One day you finally knew
what you had to do, and began,
though the voices around you
kept shouting
their bad advice –
though the whole house
began to tremble
and you felt the old tug
at your ankles.
“Mend my life!”
each voice cried.
But you didn’t stop.
You knew what you had to do,
though the wind pried
with its stiff fingers
at the very foundations,
though their melancholy
was terrible.
It was already late
enough, and a wild night,
and the road full of fallen
branches and stones.
But little by little,
as you left their voice behind,
the stars began to burn
through the sheets of clouds,
and there was a new voice
which you slowly
recognized as your own,
that kept you company
as you strode deeper and deeper
into the world,
determined to do
the only thing you could do —
determined to save
the only life that you could save.