Categoria: Mary Oliver: a proximidade do mundo

Mary Oliver: a proximidade do mundo

Um pequeno rato está morto no caminho. A voz de “Encontro” o recolhe, sente o corpo ainda macio e já frio e depois o lança para dentro da floresta. Seria possível lamentá-lo, dizer alguma coisa piedosa, inventar para aquela morte uma pequena cerimônia humana. O poema percebe, porém, que tudo isso chegou tarde: as folhas já caíram sobre o animal, o vento já passou por ele, o ano está terminando. O mundo realizou sem nós aquilo que chamaríamos de funeral.

Há nesse gesto uma entrada menos óbvia na poesia de Mary Oliver do que os gansos, as manhãs luminosas e as perguntas sobre o que fazer com a vida. O rato não ensina uma lição consoladora. Sua morte não se transforma numa alegoria destinada a melhorar quem a presencia, e a natureza não aparece como uma mãe benevolente que recolhe todas as criaturas numa ordem tranquilizadora. O animal morreu; a floresta continua. A atenção humana não o salva nem lhe acrescenta sentido. O que ela pode fazer é reconhecer com precisão aquilo que aconteceu e, ao reconhecê-lo, perder um pouco da indiferença com que habitualmente atravessamos o mundo.

É nesse intervalo entre aproximar-se e não possuir que a obra de Oliver adquire grande parte de sua força. Seus poemas observam aves, árvores, tartarugas, insetos, rios e flores com uma intensidade que tornou fácil chamá-la de poeta da natureza. Mas a natureza não é propriamente seu tema. É o lugar de uma experiência mais exigente: alguém olha demoradamente para aquilo que existe e descobre que olhar de verdade significa aceitar que a coisa observada não foi posta ali para confirmar nossas ideias. Um animal pode nos comover e continuar estranho. Uma paisagem pode parecer sagrada e conter predação. A beleza pode ampliar a gratidão e, no mesmo instante, tornar mais intolerável o fato de que tudo aquilo morrerá.

Prestar atenção antes de compreender

“O dia de verão” começa na escala máxima: quem fez o mundo, o cisne, o urso-negro, o gafanhoto? Seria possível prosseguir pela metafísica, mas o poema faz o movimento contrário. A pergunta sobre a criação se estreita até chegar a um gafanhoto, à mecânica de suas mandíbulas, aos olhos complexos, ao cuidado com que limpa o rosto e ao instante em que abre as asas. A voz não sabe definir com segurança o que seja uma oração; sabe ajoelhar-se na relva e prestar atenção.

Essa passagem é decisiva. Oliver não troca pensamento por contemplação ingênua, como se bastasse abandonar as perguntas e admirar a paisagem. Ela modifica a ordem das operações. Antes de dizer o que alguma coisa significa, é preciso deixá-la existir com detalhes suficientes para resistir ao significado que pretendíamos impor. Só depois do gafanhoto concreto a pergunta sobre a vida pode voltar — e, quando volta, já não é uma abstração. O corpo minúsculo que comeu, moveu os olhos e partiu colocou a duração humana sob outra luz.

Em “Quebra”, conchas partidas e restos espalhados pela praia parecem inicialmente fragmentos, sinais de algo destruído. A demora do olhar começa, porém, a reorganizá-los. Aquilo que estava quebrado adquire a aparência de uma linguagem cujas unidades precisam ser aprendidas antes que se tente compreender a história. A cena ensina uma espécie de leitura: o mundo não chega organizado segundo nossa sintaxe; somos nós que precisamos diminuir a velocidade para perceber relações que a pressa deixaria invisíveis.

“Prece” explicita quase metodologicamente esse procedimento. Não é necessário começar pela flor excepcional; uma erva num terreno baldio ou algumas pedras bastam. A tarefa consiste primeiro em prestar atenção e só depois juntar palavras, sem torná-las mais rebuscadas do que a experiência exige. A linguagem não deve competir com a coisa vista. Seu trabalho é abrir passagem da percepção para a gratidão e, depois, para um silêncio em que talvez outra voz possa ser ouvida.

A simplicidade verbal de Oliver nasce daí. Ela não é prova de simplicidade intelectual. É uma disciplina de retirada. Quanto mais ornamentada a linguagem se torna, maior o risco de que o poema passe a admirar a própria voz e deixe de escutar aquilo que o interrompeu.

O animal não precisa de nós

Há, entretanto, um risco nessa poética da atenção. Observar amorosamente um animal pode ser apenas outra maneira de transformá-lo em espelho humano. Oliver sabe disso, e alguns de seus melhores poemas começam justamente quando a projeção falha.

Em “A Tartaruga”, a consciência humana está pronta para admirar perseverança, determinação, paciência — virtudes que reconhecemos porque pertencem ao nosso vocabulário moral. O poema, porém, corrige a interpretação. A tartaruga não está construindo uma biografia exemplar nem demonstrando caráter. Faz aquilo que sua forma de vida exige. Continuar chamando-a de perseverante talvez diga mais sobre nossa necessidade de histórias do que sobre ela.

A correção é importante porque o pertencimento em Oliver nunca deveria ser entendido como fusão. Em “Encontrando a raposa”, o desejo humano de aproximação encontra uma fronteira. A raposa não aceita a intimidade imaginada para ela; permanece pertencente a um mundo que pode cruzar o nosso sem se tornar nosso. A experiência é preciosa justamente porque não termina na posse.

“O martim-pescador” produz uma resistência diferente. A ave não é apenas beleza em movimento: mergulha porque tem fome. A elegância do voo e a morte da presa pertencem ao mesmo acontecimento. A contemplação que excluísse a violência produziria uma natureza decorativa, incapaz de sustentar o peso real daquilo que Oliver observa.

Isso esclarece também a famosa comunidade de “Gansos selvagens”. O poema pode ser lido como acolhimento porque retira o leitor da solidão moral em que ele se julga obrigado a merecer seu lugar na existência. Mas o pertencimento oferecido pelos gansos não significa que o mundo tenha sido organizado para nosso conforto. Eles cruzam o céu com sua própria urgência. Pertencemos à mesma realidade porque estamos vivos nela, não porque os outros seres existam para nos consolar.

A proximidade do mundo tem, portanto, uma condição: aceitar que aquilo de que nos aproximamos conserve sua alteridade.

A beleza tem dentes

Parte da popularização de Mary Oliver transformou o assombro em sua tonalidade quase exclusiva. Mas uma leitura suficientemente demorada percebe que seus poemas nunca esquecem por muito tempo aquilo que vive da morte de outra coisa.

É por isso que “Chumbo” começa praticamente anunciando que contará uma história capaz de partir o coração. Uma ave mergulhadora morre, e a morte não recebe nenhuma compensação filosófica proporcional. O poema sabe que histórias de animais mortos podem tornar-se facilmente instrumentos sentimentais; em vez de utilizar a criatura para demonstrar nossa sensibilidade, pergunta o que acontece conosco quando já não conseguimos manter intacta a proteção que nos separava daquela morte.

Partir o coração, nesse contexto, não significa simplesmente produzir tristeza. Significa abrir. O coração protegido sabe sobreviver mantendo distância; o coração partido se torna mais exposto ao que existe. A vulnerabilidade que daí resulta não é agradável, mas talvez seja uma condição da atenção verdadeira.

Em “Primavera”, a ursa que sai de sua estação subterrânea traz outra medida para a vida. O corpo animal, seus ciclos, sua fome e sua presença não entram na paisagem como símbolos exteriores à existência humana. Obrigar-se a olhar a ursa é lembrar que nós também pertencemos a uma ordem de corpos que comem, dormem, envelhecem, atravessam estações e morrem. A diferença entre nós e ela permanece; o privilégio de imaginar que estamos fora do mesmo processo, não.

Essa consciência ganha um peso ético em “Sobre viajar para lugares bonitos”. Admirar o mundo não nos torna automaticamente inocentes diante dele. Podemos desejar paisagens intactas e participar, ao mesmo tempo, das formas de vida que as degradam. Pertencer à comunidade das coisas também significa pertencer à história de sua destruição. A atenção, quando levada até esse ponto, deixa de ser apenas uma prática espiritual e se transforma em constrangimento moral.

O mundo de Oliver é belo, mas a beleza não é absolvição. Há dentes dentro dela.

A morte não chega de fora

A mortalidade é talvez aquilo que impede definitivamente essa poesia de se tornar apenas uma liturgia do encantamento. Tudo o que recebe atenção suficiente revela, cedo ou tarde, sua duração limitada.

Em “Nos bosques de Blackwater”, a paisagem atravessa uma espécie de combustão. Árvores se transformam em luz, plantas se desfazem sobre as lagoas, os nomes deixam de parecer necessários. A beleza da transformação conduz ao rio escuro da perda, e o poema chega então a uma formulação conhecida não porque tenha descoberto como evitar o sofrimento, mas porque percebeu que viver exige amar aquilo que não pode ser conservado.

Há uma severidade escondida nessa posição. Amar o mortal significa envolver-se inteiramente com algo sabendo que a própria intensidade do vínculo aumentará a violência da separação. Não existe estratégia capaz de conservar apenas o amor e excluir seu preço. Quando chega o momento de deixar partir, a aprendizagem não apaga a ferida nem explica por que a perda precisou acontecer.

“Quando a morte chegar” olha diretamente para essa chegada e recusa tratá-la como argumento em favor de uma vida menor. A consciência do fim produz uma exigência de curiosidade e presença. O desejo não é morrer tendo resolvido o enigma da existência, mas tendo participado suficientemente dela para não descobrir tarde demais que a vida foi apenas uma visita mantida à distância.

A doença torna essa questão ainda mais física em “Hospital Universitário de Boston”. Do lado de fora, árvores bem cuidadas continuam exuberantes; dentro dos quartos, médicos e máquinas registram sangue, ossos e o desespero da mente. A tecnologia pode acompanhar minuciosamente o corpo e ainda assim não eliminar a experiência de vulnerabilidade que aquele espaço contém. Quando o quarto enfim fica vazio, o silêncio não se oferece como mensagem. É profundo e neutro.

Essa neutralidade aproxima o hospital da floresta de “Encontro”. Nem as folhas nem o quarto vazio fornecem uma interpretação consoladora. A natureza e o silêncio não confirmam que tudo aconteceu por alguma razão. A poesia se mantém diante deles sem fabricar uma resposta apenas porque nós gostaríamos de recebê-la.

O coração aprende a carregar

Se a morte não pode ser explicada, resta perguntar o que acontece com aqueles que continuam vivos.

Em “Pesado”, a perda não é apresentada como um peso que um dia será simplesmente abandonado. O aprendizado está no modo de carregá-lo. Essa diferença impede que sobrevivência seja confundida com retorno a um estado anterior. Quem sofreu profundamente pode voltar a caminhar, amar e prestar atenção, mas não porque tenha conseguido deixar a experiência para trás. O corpo encontra outra relação com aquilo que permanece pesado.

“Os usos da tristeza” condensa esse movimento numa revelação retrospectiva. Só depois de anos algo recebido como perda pode mostrar outra dimensão. A transformação não converte retroativamente a tristeza em bem, nem afirma que o sofrimento era necessário. O tempo apenas permite perceber que uma experiência dolorosa produziu consequências que não estavam visíveis quando ela aconteceu.

Por isso a alegria, quando aparece em Oliver, possui uma importância particular. Em “Não hesite”, recebê-la é quase um dever de hospitalidade. A alegria não precisa justificar-se diante do sofrimento nem esperar que o mundo tenha sido reparado para poder entrar. Sua fragilidade é justamente a razão para não adiá-la.

“Quando estou entre as árvores” leva essa disponibilidade para outro lugar. As árvores parecem chamar a pessoa de volta a uma vida que vinha sendo atravessada depressa demais. Não oferecem um programa filosófico; exigem presença. O perigo não está apenas em morrer. Está em passar pelo mundo sem ter estado suficientemente nele.

Essa talvez seja a forma mais exigente da esperança em Mary Oliver. Não acreditar que tudo terminará bem, mas continuar disponível ao que pode ser amado mesmo depois de saber que será perdido.

O sagrado sem garantia

A espiritualidade de Oliver também costuma ser simplificada. Como seus poemas falam em oração, bênção, alma, graça e Deus, pode parecer que a natureza funciona neles como prova de uma ordem transcendente já aceita. Mas a fé que emerge do corpus é menos doutrinária e mais experimental. O sagrado não antecede necessariamente a atenção; muitas vezes é o nome provisório dado ao que acontece quando a atenção atinge certa intensidade.

Por isso “Prece” começa retirando solenidade da própria oração. O objeto não precisa ser excepcional e a linguagem não precisa ser grandiosa. Pedras e ervas bastam. A gratidão surge de uma relação renovada com aquilo que já estava presente, e o ponto de chegada é significativamente um silêncio — não uma resposta.

Essa disposição também impede que o mistério seja tratado como uma falha temporária do conhecimento. Em “Às vezes”, a fome de respostas precisa ceder alguma coisa para que a vida não seja inteiramente transformada num problema a resolver. Há questões que podem permanecer abertas sem que nossa existência fique suspensa à espera de sua solução.

O gesto aproxima Oliver de uma linhagem norte-americana para a qual caminhar, observar e escrever podem constituir práticas espirituais sem exigir uma instituição religiosa que as organize. Mas sua diferença está no quanto a morte e a alteridade resistem a qualquer transcendência fácil. A floresta pode parecer templo; nela, entretanto, animais continuam matando e morrendo. A atenção pode se parecer com oração; isso não garante que haverá alguém respondendo do modo como esperamos.

O sagrado, quando aparece, não torna o mundo menos estranho.

Torna-nos mais disponíveis a ele.

A proximidade do mundo

Seria possível reunir os versos mais citados de Mary Oliver e construir a imagem de uma poeta que nos ensina a viver melhor. O problema é que essa imagem preservaria as conclusões e eliminaria quase todo o trabalho que os poemas realizam para chegar até elas.

Antes da pergunta sobre a vida preciosa há um gafanhoto observado por muito tempo. Antes da comunidade anunciada pelos gansos há solidão. Antes de aprender a deixar partir existe aquilo que foi amado e que efetivamente será perdido. Antes da gratidão há pedras, ervas, um gesto de atenção e depois silêncio. As frases que circulam como sabedoria só recuperam sua força quando retornam às experiências concretas que lhes deram origem.

Também por isso a natureza não é uma coleção de exemplos morais. A tartaruga corrige nossa interpretação, a raposa recusa nossa amizade, o martim-pescador mata, o rato já morreu, as folhas não esperam nossa cerimônia. Quanto mais perto chegamos, menos o mundo parece existir para nós.

É justamente essa perda de centralidade que torna possível outra espécie de pertencimento. Não somos espectadores diante de uma paisagem nem consciências superiores encarregadas de lhe atribuir significado. Somos corpos entre corpos, igualmente submetidos à fome, às estações, ao acaso e à morte, embora cada forma de vida atravesse essas condições à sua maneira.

A atenção de Mary Oliver não promete que essa descoberta nos tornará felizes. Pode produzir alegria, gratidão e assombro; também pode partir o coração. Seu resultado mais duradouro talvez seja outro: aquilo que vimos já não consegue voltar inteiramente à distância anterior.

O rato desaparece entre as folhas. O vento continua.

Nós seguimos também, mas o mundo ficou mais perto.