Paulo Henriques Britto – Vers de circonstance

A estupidez é sua própria recompensa.  Graças a ela, o mundo faz sentido,  um só, que é fácil de identificar. E só o fácil satisfaz a quem não pensa. Pensar só dá trabalho. E dói. A ignorância  é o sumo bem dos cidadãos de bem,  é a verdadeira marca dos eleitos. Ter sucesso é não … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Vers de circonstance

Paulo Henriques Britto – O aqualouco

A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio.Depois somem as palavras fáceis("eternidade" etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém tivesse … Continue lendo Paulo Henriques Britto – O aqualouco

Paulo Henriques Britto – Lacrimæ rerum

É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.

Paulo Henriques Britto – Plaudite, amici

Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Plaudite, amici

Paulo Henriques Britto – Da irresolução

Por não se estar preparado perde-se a vida inteira. A preparação, porém, pra ser completa e certeira, exigiria no mínimo uma existência e meia. Compreende-se, portanto, aquele que titubeia ao se ver face a face com tamanho compromisso e termina decidindo viver mesmo de improviso.

Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV) II Isto, também, será lembrado um dia, porém não tal qual é sentido agora. Não que as lembranças sejam distorcidas de propósito; é só porque a memória, entre o vivido e o lembrado, interpõe como que um filtro, com pequenas falhas ou até mesmo substituições - nem tanto por mentiras deslavadas, mas por … Continue lendo Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaço com a consciência de ainda estar em mim e não de volta ao nada de onde vim. Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço, junto a uma mesa no Cais da Ribeira; permito-me, sem culpa, desfrutar de pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar, todo o … Continue lendo Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Ninguém se molha duas vezes na mesma tempestade. Mudam você, a água, nem é o mesmo, na sua mão, o guarda-chuva; muda o motivo pelo qual você houve por bem molhar-se, oferecendo ao temporal - por assim dizer - a outra face; não muda, porém, a consciência de que os sapatos encharcados e a calça … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Heraclitus meets Pascal

Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero, mas não por haver esperança. Falta a ênfase, o tempero, o sal da intemperança, sem o qual não é iguaria à altura de grandes gestos. É mais da categoria das migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassa há que se tirar sustância. (Até mesmo na desgraça é pra poucos … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério