Idea Vilariño – Não mais

Não mais será não mais não viveremos juntos não criarei teu filho não coserei tua roupa não te terei à noite não te beijarei ao partir nunca saberás quem fui por que me amaram outros. Não chegarei a saber por que nem como nunca nem se era verdade o que disseste que era nem quem … Continue lendo Idea Vilariño – Não mais

Nazim Hikmet – O último ônibus

Meia-noite. O último ônibus. O condutor rasga os bilhetes. Não me esperam em casa nem uma má notícia nem a fartura da bebida. Para mim, é a partida que espera. Caminho em direção a ela sem medo ou tristeza. A escuridão imensa se aproxima de mim. Posso olhar para o mundo calma e serenamente, agora. … Continue lendo Nazim Hikmet – O último ônibus

Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro:            o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos … Continue lendo Daniel Faria – Infância

Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima … Continue lendo Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Amanheceu e nós estávamos dentro da vil realidade, o que não pode ser bom. Melhor seria que passassem logo as horas inúteis em que o dia proscreve a aventura com as normas do tédio laboral, e que voltassem a noite e as suas estrelas a envolver-nos no seu véu fantástico e a dar-nos a inútil … Continue lendo Luis Alberto de Cuenca – O véu protetor

Yehuda Amichai – 1924

Nasci em 1924. Se eu fosse um violino da minha idade não seria dos melhores. Como vinho seria um cinco estrelas ou vinagre. Como cachorro estaria morto. Como um livro estaria me tornando caro, ou estaria abandonado num sebo qualquer. Como uma floresta eu seria jovem; como uma máquina, ridículo. Como uma criatura humana, estou … Continue lendo Yehuda Amichai – 1924

Walt Whitman – Pleno de vida agora

Pleno de vida agora, consistente, visível, Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados, Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for, A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto. Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível, Enquanto tu … Continue lendo Walt Whitman – Pleno de vida agora

Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire

frente ao fotógrafo e ao leitor o homem envelhecido parece que já não olha Mitra o deus sol dos psicadélicos noutra foto no interior da revista o poeta está sentado a uma pequena mesa de frente para a janela onde as cortinas brancas filtram a luz e o ruído da rua sentado na cadeira de … Continue lendo Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire

Andreia C. Faria – San Cibrán de Las

Ainda aos sábados os homens passeiam pelo que resta das muralhas e as mulheres procuram vestígios - os pulsos nus, a canteira e a nascente de água, a paciência necessária a quem se alimentava desse pão É também este o meu plano para a velhice: ervas de que não sei o nome, a ruína interior … Continue lendo Andreia C. Faria – San Cibrán de Las

Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo

é porque existe o desejo, o olfato, e o medo, e os vivos apaixonam-se por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos, e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho, e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias um … Continue lendo Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo