Danusha Laméris – Vestindo-se para o enterro

Ninguém fala sobre a hilaridade após a morte —
a forma como na semana em que o meu irmão se matou
a esposa dele e eu caímos na cama gargalhando
porque ela não conseguia decidir sobre o que vestir para o grande dia,
e me perguntou, “Eu quero ser sexy ou Amish?” Eu respondi: sexy.
E nós rolamos sobre o colchão que eles haviam compartilhado
por dezoito anos, nossas barrigas até doendo.
Enquanto isso, ele repousava em uma estreita gaveta refrigerada,
cachos castanhos macios brotando de seu couro cabeludo,
emoldurando seu bonito rosto. Isso foi quando
ele ainda tinha um rosto, e íamos vê-lo.
“Mostre-me a saia preta de novo,” eu disse. E ela, “Qual delas?”
E então ela falou, “Você está tão Máfia Chic,” e eu disse, “Obrigada,”
e isso continuou até que nós duas nos cansamos e nossos costelas doeram e agora
eu nem me lembro o que acabamos vestindo. Lembro apenas que estávamos fabulosas
chorando por causa daquele buraco aberto no chão.

Trad.: Nelson Santander

Dressing for the Burial

No one wants to talk about the hilarity after death —
the way the week my brother shot himself,
his wife and I fell on the bed laughing
because she couldn’t decide what to wear for the big day,
and asked me, “Do I go for sexy or Amish?” I told her sexy.
And we rolled around on the mattress they’d shared
for eighteen years, clutching our sides.
Meanwhile, he lay in a narrow refrigerated drawer,
soft brown curls springing from his scalp,
framing his handsome face. This was back when
he still had a face, and we were going to see it.
“Hold up the black skirt again,” I said. She said, “Which one?”
And then she said, “You look so Mafia Chic,” and I said, “Thank you,”
and it went on until we both got tired and our ribs hurt and now
I don’t even remember what we wore. Only that we both looked fabulous
weeping over that open hole in the ground.

Danusha Laméris – Pequenas Gentilezas

Estive pensando sobre como, quando você caminha
por um corredor lotado, as pessoas recolhem suas pernas
para deixa-lo passar. Ou como estranhos ainda dizem “saúde”
quando alguém espirra, um resquício
da peste bubônica. “Não morra”, estamos dizendo.
E das vezes que, ao derrubar limões
de sua sacola de compras, outra pessoa o ajuda
a recolhe-los. Sobretudo, não queremos magoar uns aos outros.
Queremos receber nossa xícara de café quente
e agradecer à pessoa que a entregou. Sorrir
para eles para que eles nos sorriam em retribuição. Para que a garçonete
nos chame de queridos quando servir a tigela com a sopa de mariscos,
e para que o motorista da picape vermelha dê-nos passagem.
Temos tão pouco uns dos outros agora. Estamos tão longe
da tribo e do fogo. Apenas esses breves momentos de partilha.
Talvez eles sejam a verdadeira morada do sagrado, estes
templos fugazes que construímos juntos quando dizemos “Aqui,
pegue o meu lugar”, “Por favor, você primeiro”, “Bonito chapéu”.

Trad.: Nelson Santander

Small Kindnesses

I’ve been thinking about the way, when you walk
down a crowded aisle, people pull in their legs
to let you by. Or how strangers still say “bless you”
when someone sneezes, a leftover
from the Bubonic plague. “Don’t die,” we are saying.
And sometimes, when you spill lemons
from your grocery bag, someone else will help you
pick them up. Mostly, we don’t want to harm each other.
We want to be handed our cup of coffee hot,
and to say thank you to the person handing it. To smile
at them and for them to smile back. For the waitress
to call us honey when she sets down the bowl of clam chowder,
and for the driver in the red pick-up truck to let us pass.
We have so little of each other, now. So far
from tribe and fire. Only these brief moments of exchange.
What if they are the true dwelling of the holy, these
fleeting temples we make together when we say, “Here,
have my seat,” “Go ahead—you first,” “I like your hat.”