Mês: março 2022
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Nickole Brown – Susto

Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmoque de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista podeparecer majestosa e livre, mas o que você não vê équão perto da superfície ela adormece,como a luz a empola deixando-a em carne viva e comoas gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao aros…
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Lêdo Ivo – A Queimada

Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à…
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Victoria Kennefick – Depoimento

Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até…
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Cassiano Ricardo – Ladainha

Por que o raciocínio,os músculos, os ossos?A automação, ócio dourado.O cérebro eletrônico, o músculomecânicomais fáceis que um sorriso. Por que o coração?O de metal não tornará o homemmais cordial,dando-lhe um ritmo extra-corporal? Por que levantar o braçopara colher o fruto?A máquina o fará por nós.Por que labutar no campo, na cidade?A máquina o fará por…
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David Whyte – O verdadeiro amor

“O verdadeiro amor”, um poema de David Whyte que apresenta o amor como travessia íntima e corajosa, onde dizer “sim” à mão estendida é escolher viver depois de anos à deriva.
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Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a…
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Lucille Clifton – o que eu sei é isso

o que eu sei é isso:minha mãe enlouqueceuna casa dos meus paispor falta de carinho o que eu sei é isso:os dias de algumas mulheressão desperdiçadosnas cozinhas de suas vidasé por isso que eu sei:os deusessão homens Trad.: Nelson Santander this is what i know this is what i know my mother went mad in…
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Carlos Drummond de Andrade – Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores,…
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Czesław Miłosz – Dádiva

Um dia tão feliz.O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.Em meu corpo…
