Joan Margarit – Era Rubra

     A Àlex Susanna Tanto tempo demoraste a aprender que estás atrasado para o grande amor: que nunca viveste uma era de ouro. As rosas de Ronsard jamais serão perfume em teu olhar, nenhum outono haverá de desfolhar morosas pétalas nos braços de ninguém. Com negligência tapas os espelhos como era costume em casas onde havia … Continue lendo Joan Margarit – Era Rubra

Joan Margarit – A partida

Definitivamente, este é o meu Outono, um tempo de alianças impossíveis, a era rubra de todos os perigos para homens maduros e mulheres solitárias. A idade do adultério e da desmemória sem nenhuma esperança, a era do gelo, a partida final contra mim mesmo. Mantenho-me à mesa, sem esperar pela sorte, já não há chances … Continue lendo Joan Margarit – A partida

Manuel António Pina – Estarei ainda muito perto da luz?

Estarei ainda muito perto da luz? Poderei esquecer estes rostos,estas vozes, e ficar diante do meu rosto? Às vezes,como num sonho, vejo formas como um rosto e pergunto: "De quem é este rosto?" E ainda: "Quem pergunta isto?" E: "E com quem fala?" Estarei ainda longe de Ti, quem quer que sejas ou eu seja? … Continue lendo Manuel António Pina – Estarei ainda muito perto da luz?

Maria do Rosário Pedreira – O Último Abraço

Este foi o nosso último abraço. E quando, daqui a nada, deixares o chão desta casa encostarei amorosamente os lábios ao teu copo para sentir o sabor desse beijo que hoje não daremos. E então, sim, poderei também eu partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida foi mais, muito mais, do que mereci.

Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível

https://youtu.be/CzGdx1LUQOo Biquíni Cavadão Tudo bem quando termina bem E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d'água Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras Um vocabulário inteiro de ilusão Tudo que viceja também pode agonizar E perder seu brilho em poucas semanas E não podemos evitar que a vida trabalhe … Continue lendo Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível

Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever

Mãe, se eu morrer de um repentino mal, vende meus bens a bem dos meus credores: a fantasia de festivas cores que usei no derradeiro Carnaval. Vende esse rádio que ganhei de prêmio por um concurso num jornal do povo, e aquele terno novo, ou quase novo, com poucas manchas de café boêmio. Vende também … Continue lendo Giuseppe Ghiaroni – A máquina de escrever

Pedro Mexia – Paráfrase

Este poema começa por te comparar com as constelações, com os seus nomes mágicos e desenhos precisos, e depois um jogo de palavras indica que sem ti a astronomia é uma ciência infeliz. Em seguida, duas metáforas introduzem o tema da luz e dos contrastes petrarquistas que existem na mulher amada, no refúgio triste da … Continue lendo Pedro Mexia – Paráfrase

David Mourão-Ferreira – Praia do Paraíso

Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses … Continue lendo David Mourão-Ferreira – Praia do Paraíso

Antonia Pozzi – Canto da Minha Nudez

Olha para mim: estou nua. Da inquieta languidez da minha cabeleira até à tensão fina do meu pé, sou toda de uma magreza amarga envolta numa cor de marfim. Olha: como é pálida a minha carne. Dir-se-ia que o sangue não a percorre. O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida pulsação azul se esbate no … Continue lendo Antonia Pozzi – Canto da Minha Nudez

Amalia Bautista – Contra ‘Remedia Amoris’

Não sou desse género de mulheres incapazes de amor e de ternura. Odeio o sacrifício e repugna-me a vaidade que nasce da violência, mas sei o que é valor e o que é sangue. Quero ser a mulher de um mercenário, de um poeta ou mártir, vai dar ao mesmo. Porque sei olhar nos olhos … Continue lendo Amalia Bautista – Contra ‘Remedia Amoris’