Jane Kenyon – Diferente

Pulei da cama
com duas pernas saudáveis.
Poderia ter sido
diferente. Nutri-me de
cereais, leite
açucarado, impecáveis
pêssegos maduros. Poderia
ter sido diferente.
Guiei o cão morro acima,
em direção ao bosque.
A manhã toda eu fiz
o trabalho que amo.

Ao meio dia me deitei
com meu companheiro. Poderia
ter sido diferente.
Jantamos juntos
em uma mesa com castiçais
prateados. Poderia
ter sido diferente.
Dormi em uma cama
num quarto com quadros
nas paredes, e
planejei outro dia
como este.
Mas um dia, eu sei,
será diferente.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: A poetisa e tradutora Jane Kenyon faleceu de leucemia, em abril de 1995, aos 47 anos de idade, pouco depois de escrever este poema. Mais do que ninguém, ela sabia que, em breve, tudo seria diferente.

Otherwise

I got out of bed
on two strong legs.
It might have been
otherwise. I ate
cereal, sweet
milk, ripe, flawless
peach. It might
have been otherwise.
I took the dog uphill
to the birch wood.
All morning I did
the work I love.

At noon I lay down
with my mate. It might
have been otherwise.
We ate dinner together
at a table with silver
candlesticks. It might
have been otherwise.
I slept in a bed
in a room with paintings
on the walls, and
planned another day
just like this day.
But one day, I know,
it will be otherwise.

Richard Eberhart – A marmota

Em junho, entre os campos dourados,
Avistei uma marmota morta.
Morta ela estava; meu juízo se abalou,
E a mente projetou a nossa fragilidade nua.
Lá embaixo, no vigoroso verão,
Sua forma começou a absurda mutação,
E fez oscilar meus sentidos para o sombrio
Vendo a natureza feroz que nela havia.
Inspecionando de perto o poder de suas larvas
E o caldeirão fervilhante do seu ser,
Meio com nojo, meio possuído por um estranho amor,
Mexi nela com um enérgico bastão.
A febre irrompeu, tornou-se chama
E o vigor circunscreveu os céus,
Imensa energia ao sol,
E, através de minha moldura, um tremor sem sol.
O pau que usei não fez nem bem nem mal.
Permaneci então em silêncio durante o dia
Observando o objeto, como antes;
E mantive minha reverência pela experiência,
Tentando controlar, permanecer imóvel,
Apaziguar a paixão do sangue;
Até que me pus de joelhos
Rezando por alegria perante a decadência.
Fui então embora; e retornei
No outono, rigoroso no olhar, para ver.
A seiva abandonara a marmota,
Embora a magra carcaça informe remanescesse.
O ano, porém, tinha perdido seu significado,
E nas correntes intelectuais
Eu perdera a atração e a aversão em igual medida,
Encarcerado entre os muros da sensatez.
Outro verão tomou conta dos campos novamente,
Massivo e abrasador, cheio de vida,
Mas quando me vi no local
Nele havia apenas um pouco de pelo,
E ossos branquejando sob a luz do sol,
Belos como um arquitetura.
Observei-os como um geômetra,
E de uma bétula fiz um bastão.
Já se passaram três anos agora.
Não há nenhum sinal da marmota.
Fiquei parado ali, no rodopiante verão,
Minha mão cobrindo um coração ressequido,
E pensei na China e na Grécia,
Em Alexandre e sua tenda,
Em Montaigne em sua torre,
Em Santa Tereza em seu lamento selvagem.

Trad.: Nelson Santander

The Groundhog

In June, amid the golden fields,
I saw a groundhog lying dead.
Dead lay he; my senses shook,
And mind outshot our naked frailty.
There lowly in the vigorous summer
His form began its senseless change,
And made my senses waver dim
Seeing nature ferocious in him.
Inspecting close his maggots’ might
And seething cauldron of his being,
Half with loathing, half with a strange love,
I poked him with an angry stick.
The fever arose, became a flame
And Vigour circumscribed the skies,
Immense energy in the sun,
And through my frame a sunless trembling.
My stick had done nor good nor harm.
Then stood I silent in the day
Watching the object, as before;
And kept my reverence for knowledge
Trying for control, to be still,
To quell the passion of the blood;
Until I had bent down on my knees
Praying for joy in the sight of decay.
And so I left; and I returned
In Autumn strict of eye, to see
The sap gone out of the groundhog,
But the bony sodden hulk remained.
But the year had lost its meaning,
And in intellectual chains
I lost both love and loathing,
Mured up in the wall of wisdom.
Another summer took the fields again
Massive and burning, full of life,
But when I chanced upon the spot
There was only a little hair left,
And bones bleaching in the sunlight
Beautiful as architecture;
I watched them like a geometer,
And cut a walking stick from a brich.
It has been three years, now.
There is no sign of the groundhog.
I stood there in the whirling summer,
My hand capped a withered heart,
And thought of China and of Greece,
Of Alexander in his tent;
Of Montaigne in his tower,
Of Saint Theresa in her wild lament.

Merrit Malloy – Epitáfio

Quando eu morrer
Dá o que restar de mim
às crianças
E aos idosos que esperam para morrer.

E se precisares chorar,
Chora por teu irmão
Que anda pelas ruas a teu lado.
E quando precisares de mim,
Coloca teus braços
Em volta de alguém
E dá-lhe o que precisas me dar.

Quero deixar-te algo,
Algo melhor
Do que palavras
Ou sons.

Busca-me
Nas pessoas que conheci
Ou amei,
E se não podes me deixar partir
Ao menos deixa-me viver em teus olhos
E não em tua mente.

Podes amar-me mais
Deixando as mãos
Tocarem as mãos,
Deixando os corpos tocarem os corpos,
E libertando
As crianças
Que precisam ser livres.

O amor não morre,
Pessoas sim.
Por isso, quando tudo que resta de mim
É amor,
Deixa-me partir.

Trad.: Nelson Santander

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Epitaph

When I die
Give what’s left of me away
To children
And old men that wait to die.

And if you need to cry,
Cry for your brother
Walking the street beside you.
And when you need me,
Put your arms
Around anyone
And give them
What you need to give to me.

I want to leave you something,
Something better
Than words
Or sounds.

Look for me
In the people I’ve known
Or loved,
And if you cannot give me away,
At least let me live on in your eyes
And not your mind.

You can love me most
By letting
Hands touch hands,
By letting bodies touch bodies,
And by letting go
Of children
That need to be free.

Love doesn’t die,
People do.
So, when all that’s left of me
Is love,
Give me away.

Juan Vicente Piqueras – Restaurante, desde 1882

Ristorante dal 1882-
leio no cardápio e me ponho a pensar
que em uma noite, há mais de um século,
uma noite igual a esta,
houve um grupo de amigos que aqui jantaram,
como nós agora,
e riram, conversaram, passaram o sal,
mais ou menos felizes, fugazes, satisfeitos
por estarem juntos rindo
como nós agora,
e que nenhum deles está vivo
e que agora eles somos nós,
os que reservamos esta grande mesa
neste restaurante
de que tanto gostamos que seja antigo,
o ar fantasma do garçom,
e o cozinheiro que nunca vimos
e que admiramos tanto
por saber como nos fazer esquecer
com sabores virtuosos, requintados,
que esta poderia ser perfeitamente
nossa última ceia.

Trad.: Nelson Santander

Restaurante desde 1882

Ristorante dal 1882-
leo en la carta y me da por pensar
que en una noche de hace más de un siglo,
en una noche que era igual a ésta,
hubo un grupo de amigos que cenaron aquí,
como ahora nosotros,
y rieron, charlaron, se pasaron la sal,
más o menos felices, fugaces, encantados
de estar juntos riendo
como ahora nosotros,
y que ninguno de ellos vive ya
y ahora son nosotros,
los que hemos reservado esta gran mesa
en esto restaurante
del que tanto nos gusta que sea antiguo,
el aire fantasma del camarero,
y el cocinero que nunca hemos visto
y al que admiramos tanto
por su saber hacernos olvidar
con sabores piadosos, exquisitos,
que ésta podría ser perfectamente
nuestra última cena.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – S.T.T.R. Sit Tibi Terra Levis

Hoje recordo os mortos de minha casa
Octavio Paz

De todos os nossos mortos jamais nos esqueceremos
do primeiro. O meu habita a raiz do outono,
sob os álamos. Sua lembrança
me oferece um arbusto, ao tempo em que se inclina
com os braços abertos de outros dias. Lembro-me
de sua estatura nas sombras a ponto de se separar
do espelho, sua cara fechada, o excesso
das obstinadas lições em algum piano. Cruzou,
em uma tarde sem sol, a linha que une
a vida à morte. Seu corpo era a ausência
presente, o nomeado sem nomear. Foi o primeiro
morto a morrer subitamente, e para sempre
haverá de sê-lo. O garoto que fui então agora
o reconhece sentado no peitoril da janela. Víamos
um barco na pureza impassível das nuvens,
e diásporas de formigas nas liedes de Schubert;
e me falava de Stevenson ou Melville, da jornada
que quis realizar quando jovem, ao fim da nostalgia
que se alçava em sua voz quando cantava. Fez
aquela única viagem naquela tarde. Até então
nunca havia perscrutado os olhos de um morto,
o eco imóvel de dois diáfanos reservatórios,
nem as lágrimas dos meus, perplexos, que eram outros.

Ele foi o primeiro ausente de muitos e de ninguém,
a presença, o não-ser, a fatigada luz
exposta, o que se nomeia sob as árvores,
de repente, o esquecermos que já não está
mais aqui sua solidão, sua frágil anedota de navios
fantasmas, de arpejos que iluminaram o sonho
daquela nossa vida. Que lhe seja leve a terra
que fecunda, seu exílio infinito sob nossas folhas.

Trad.: Nelson Santander

S.T.T.L. Sit Tibi Terra Levis

Hoy recuerdo a los muertos de mi casa
Octavio Paz

De todos nuestros muertos jamás olvidaremos
al primero. Habita en la raíz del otoño,
debajo de los álamos, el mío. Su memoria
me ofrece un arrayán al tiempo que se inclina
con los brazos abiertos de otros días. Recuerdo
su estatura en penumbras a punto de apartarse
del espejo, su rostro velado, el abalorio
de las tercas lecciones de algún piano. Cruzó
la línea que reúne la vida con la muerte
una tarde sin sol. Su cuerpo era la ausencia
presente, lo nombrado sin nombrar. Era el muerto
primero en estar muerto de súbito, y por siempre
habrá de serlo. El niño que fui entonces ahora
lo distingue sentado en un alféizar. Veíamos
un barco en la pureza impasible de las nubes,
y diásporas de hormigas en los lieder de Schubert;
y me hablaba de Stevenson o Melville, del trayecto
que quiso hacer de joven al fin de la nostalgia
que se alzaba en su voz cuando cantaba. Hizo
aquel único viaje aquella tarde. Hasta entonces
nunca me había asomado a los ojos de un muerto,
el eco inóvil de dos diáfanos aljibes,
ni al llanto de los míos, perplejos, que eran otros.

Él fue el primer ausente de cuántos y de nadie,
la presencia, el no ser, la fatigada luz
abierta, el que se nombra debajo de los árboles
de pronto, al olvidarnos que ya no sigue aquí
su soledad, su frágil anécdota de buques
invisibles, de arpegios que alumbraron el sueño
de aquella vida nuestra. Le sea leve la tierra
que fecunda, su exilio sin fin tras nuestras hojas.

Rodrigo da Silva – Chegará um dia em que o seu coração parará de bater

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, esvaziando as enzimas dos tecidos. O cálcio endurecerá os seus músculos. E o seu corpo passará a exalar um odor acre, fruto de uma mistura química constituída por mais de quatrocentos compostos orgânicos.

Tudo o que constitui a sua existência entrará em colapso – o que significa dizer que a sua linha do tempo chegará ao derradeiro ponto final. A partir destes preciosos segundos você não deixará mais qualquer rastro nesta bola azul gigante perdida no espaço. Não haverá mais nenhum som. Nem qualquer imagem. Nem tato. Nem cheiro. Restará apenas o inadiável: carne em processo de decomposição, um fenômeno da natureza conhecido como morte, óbito, falecimento, perecimento, fim.

E não se engane, o mundo permanecerá no mesmo lugar. As partidas de futebol não farão um minuto de silêncio em homenagem à sua história. Nas ruas os carros continuarão buzinando aleatoriamente, e nas emissoras de TV os apresentadores de telejornal prosseguirão dando notícias que você jamais ouvirá. Nas esquinas os pedestres insistirão em atravessar as ruas como se você nunca tivesse existido.

No seu círculo social, a implacável indiferença tomará conta do tempo. Os seus amigos permanecerão dedicando vastas horas ao consumo dos milhões de vídeos de gatinhos disponíveis na internet. E nas redes sociais os seus inimigos pleitearão longas batalhas retóricas sobre política com pessoas que eles nunca viram. Os seus entes mais próximos padecerão de sofrimento nas primeiras semanas, mas paulatinamente voltarão a executar os processos naturais da vida, adaptando-se à sua ausência.

Tudo permanecerá intocado: as baladas, os bares, os programas de auditório, o carnaval, os shows de humor, os barulhos ensurdecedores dos carros rebaixados. Virá a primavera, o verão, o outono, o inverno. E então tudo se repetirá num novo ciclo. Você deixará de ser carne para virar memória. E o tempo não falhará em transformar sua existência numa vaga lembrança, um túmulo abandonado no meio de um cemitério, uma refeição ordinária numa quarta-feira entediante para uma porção de bactérias e insetos.

Dentro da gente habita uma bomba relógio invisível. Ninguém sabe exatamente o prazo dela, mas o artefato abstrato atravancado é religiosamente pontual. Cada instante da vida é uma escolha sobre como gastar o tempo que o tempo tem. Mesmo a decisão que levou à leitura deste texto até aqui. Pode parecer clichê de empreendedor de palco, melodrama de parachoque de caminhão, mas você é literalmente a única pessoa no mundo capaz de administrar cada minuto que resta entre o término desta frase e o seu túmulo.

Nesse caminho, tentarão até prometer vagas soluções, parceladas em doze vezes sem juros. Mas acredite: não há outro indivíduo neste planeta apto a salvá-lo da apatia e da improdutividade. Nem quem tenha a capacidade de libertá-lo dos relacionamentos tóxicos, dos subempregos e dos vampiros emocionais. Há um monte de gente bacana lá fora esperando encontrar gente bacana. E há um monte de babaca tentando sugar cada gota da sua energia. Há um monte de coisas grandes prontas para serem conquistadas. E há o tempo perdido. É você quem determina o que fazer com o que resta desse relógio.

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater.

Mas não hoje. Não agora.

Ferreira Gullar – Morrer no Rio de Janeiro

Se for março
  quando o verão esmerila a grossa luz
  nas montanhas do Rio
teu coração estará funcionando normalmente
entre tantas outras coisas que pulsam na manhã
  ainda que possam de repente enguiçar.

Se for março e de manhã
  as brisas cheirando a maresia
quando uma lancha deixa seu rastro de espumas
no dorso da baía
  e as águas se agitam alegres por existirem
  se for março
nenhum indício haverá
  nas frutas sobre a mesa
  nem nos móveis que estarão ali como agora
  – e depois do desenlace – calados.

Tu de nada suspeitas
  e te preparas para mais um dia no mundo.
Pode ser que de golpe
  ao abrires a janela para a esplêndida manhã
te invada o temor:
  ”um dia não mais estarei presente à festa da vida”.
Mas que pode a morte em face do céu azul?
  do escândalo do verão?

A cidade estará em pleno funcionamento
  com suas avenidas ruidosas
  e aciona este dia
que atravessa apartamentos e barracos
da Barra ao morro do Borel, na Glória
onde mendigos estendem roupas
sob uma passarela do Aterro
e é quando um passarinho
  entra inadvertidamente em tua varanda, pia
saltita e se vai.
Uma saudação? um aviso?

Essas perguntas te assaltam misturadas
  ao jorrar do chuveiro
persistem durante o café da manhã
com iogurte e geleia. Mas o dia
  te convida a viver, quem sabe
um passeio a Santa Teresa para ver do alto
a cidade noutro tempo do agora.
  Em cada recanto da metrópole desigual
nos tufos de capim no Lido
nos matos por trás dos edifícios da rua Toneleros
por toda a parte a cidade
  minuciosamente vive o fim do século,
sua história de homens e de bichos,
de plantas e larvas,
de lesmas e de levas
  de formigas e outros minúsculos seres
transitando nos talos, nos pistilos, nos grelos que se abrem
  como clitóris na floresta.
São sorrisos, são ânus, caramelos,
são carícias de línguas e de lábios
  enquanto
         terminado o café
         passas o olho no jornal.

A morte se aproxima e não o sentes
         nem pressentes
não tens ouvido para o lento rumor que avança escuro
  com as nuvens
  sobre o morro Dois Irmãos
  e dança nas ondas
  derrama-se nas areias do Arpoador
sem que o suspeites a morte
  desafina no cantarolar da vizinha na janela.

Teu coração
(que começou a bater quando nem teu corpo existia)
  prossegue
         suga e expele sangue
  para manter-te vivo
  e vivas
  em tua carne
as tardes e ruas (do Catete,
  da Lapa, de Ipanema)
– as lancinantes vertigens dos poemas
que te mostraram a morte num punhado de pó
  o torso de Apolo
ardendo como pele de fera a boca da carranca
dizendo sempre a mesma água pura na noite
com seus abismos azuis

  Teu coração,
esse mínimo pulsar dentro da Via Láctea,
  em meio a tempestades solares,
  quando se deterá?
Não o sabes pois a natureza ama se ocultar.
  E é melhor que não o saibas
para que seja por mais tempo doce em teu rosto
a brisa deste dia
  e continues a executar
sem partitura
a sinfonia do verão como parte que és
desta orquestra regida pelo sol.

Philip Roth – Patrimônio (excerto)

“Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério, a gente costuma se dar conta de como são limitados e banais nossos pensamentos sobre o assunto. Ah, pode-se tentar conversar com o morto, caso você acredite que isso possa ser útil; pode-se começar, como fiz naquela manhã, dizendo: “Muito bem, mamãe…”, porém é difícil não pensar – mesmo que se tenha ido além da primeira frase- que você poderia, do mesmo modo, estar conversando com a coluna vertebral pendurada no consultório de alguma osteopata. Você pode fazer promessas a eles, pô-los a par das últimas notícias, implorar que o compreendam, que o desculpem ou que lhe deem seu amor – ou pode optar por uma abordagem oposta, mais efetiva, arrancando as ervas daninhas, ajeitando os cascalhos, passando o dedo pelas letras gravadas na lápide; pode até se abaixar e pôr as mãos diretamente sobre os vestígios deles – tocando a terra, a terra deles, pode fechar os olhos e recordar-se de como eram quando ainda estavam ao seu lado. Mas nada se modifica com tais recordações, exceto que os mortos parecem ainda mais distantes e fora do alcance do que estavam quando você dirigia o carro dez minutos antes. Se não há ninguém no cemitério para observá-lo, você pode fazer algumas coisas bem doidas a fim de conseguir que os mortos pareçam algo mais do que são. Mas, mesmo que você tenha êxito e se motive suficientemente para sentir a presença deles, ainda assim irá embora sem eles. O que os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram, enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso é fundamental e, embora inaceitável, bem fácil de compreender.”