Thomas Mann – Morte em Veneza (excerto)

"(...) Gustav von Aschenbach era de estatura um pouco abaixo da média, moreno, rosto inteiramente barbeado. A cabeça parecia um pouco grande demais em relação à sua figura quase franzina. O cabelo, penteado para trás, escasso no alto da cabeça, abundante e já bem grisalho nas têmporas, enquadrava uma testa alta, cheia de rugas que … Continue lendo Thomas Mann – Morte em Veneza (excerto)

Carlos Drummond de Andrade – José

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – José

Mário Chamie – Fantasma

Um fantasma ausente põe tijolo sobre tijolo ao seu redor. Primeiro mede o terreno Divide o espaço. Calca com o pé a planta que não floresce. Mas que cresce sob estacas de cimento. Depois, a ausência se preenche. O fantasma move a cal, a pedra, a pá. O fantasma move o corpo já presente do … Continue lendo Mário Chamie – Fantasma

Cecilia Meireles – Cantarão os Galos

Cantarão os galos, quando morrermos, e uma brisa leve, de mãos delicadas, tocará nas franjas, nas sedas mortuárias. E o sono da noite irá transpirando sobre as claras vidraças. E os grilos, ao longe, serrarão silêncios, talos de cristal, frios, longos ermos, e o enorme aroma das árvores. Ah, que doce lua verá nossa calma … Continue lendo Cecilia Meireles – Cantarão os Galos

Cecília Meireles – Epigrama nº 7

A tua raça de aventura quis ter a terra, o céu, o mar. Na minha, há uma delícia obscura em não querer, em não ganhar... A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir. A minha raça quer passar.

Cecília Meireles – O Jardim

O jardim é verde, encarnado e amarelo. Nas alamedas de cimento, movem-se os arabescos do sol que a folhagem recorta e o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores, nas asas tênues das borboletas, -e ensina a cintilar a mais ignorada areia, perdida nas sombras, submersas nos limos. Ensina a cintilar também … Continue lendo Cecília Meireles – O Jardim

Carlos Drummond de Andrade – A Um Bruxo Com Amor

Em certa casa da Rua Cosme Velho (que se abre no vazio) venho visitar-te; e me recebes na sala trastejada com simplicidade onde pensamentos idos e vividos perdem o amarelo de novo interrogando o céu e a noite. Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro. Daí esse cansaço nos gestos e, … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – A Um Bruxo Com Amor

Mário de Andrade – Poema da Amiga (VIII)

Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou.

Philip Roth – A Marca Humana (excerto)

"Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe... Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da seqüência de eventos, as incertezas, os infortúnios, a incoerência, as irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. 'Todo mundo sabe' é a invocação do clichê e o início da … Continue lendo Philip Roth – A Marca Humana (excerto)

Affonso Romano de Sant’Anna – Carta aos Mortos

Amigos, nada mudou em essência. Os salários mal dão para os gastos, as guerras não terminaram e há vírus novos e terríveis, embora o avanço da medicina. Volta e meia um vizinho tomba morto por questão de amor. Há filmes interessantes, é verdade, e como sempre, mulheres portentosas nos seduzem com suas bocas e pernas, … Continue lendo Affonso Romano de Sant’Anna – Carta aos Mortos