Donald Hall – Últimos dias

“Era razoável
esperar.” Então ele escreveu. No dia seguinte,
em um consultório,
a hematologista de Jane, Letha Mills, sentou-se,
tensa, sua secretária
em pé, de costas para a porta.
“Trago péssimas notícias,”
disse Letha. “A leucemia voltou.
Não há nada a fazer.”
Os quatro choramos. Ele perguntou há quanto tempo,
por que isso aconteceu agora?
Jane perguntou apenas: “Posso morrer em casa?”

Em casa, naquela tarde,
eles jogaram os remédios dela no lixo.
Jane vomitou. Ele chorava
enquanto ela permanecia com os olhos secos – em silêncio,
tentando esquecer. À noite,
ele pegou o telefone para fazer
ligações que trouxeram
uma criança ou um amigo para o horror.

Na manhã seguinte,
eles trabalharam escolhendo entre seus poemas
para Otherwise, selecionaram o
hinário para o seu funeral, e trocaram
palavras enquanto escreviam
e revisavam seu obituário. No dia seguinte,
com mais coisas a fazer
em seu livro, ele percebeu o quão fraca ela se sentia,
e disse que talvez não agora; talvez
mais tarde. Jane balançou a cabeça: “Agora,” ela disse.
“Temos que termina-lo agora.”
Mais tarde, enquanto caía exausta no sono,
ela disse, “Não foi divertido?
Trabalharmos juntos? Não foi divertido?”

Ele lhe perguntou, “Com que roupa
devemos vesti-la, quando a enterrarmos?”
“Não tinha pensado nisso,” ela disse.
“Eu queria saber sobre aquele salwar kameez
branco,” ele disse –
a seda indiana favorita dela que haviam comprado
em Pondicherry um ano
e meio antes, que, mais tarde, ela usava para se sentir melhor
ou mais bonita.
Ela sorriu. “Sim. Excelente,” ela disse.
Ele não lhe contou
que um ano antes, sonhando acordado,
ele a tinha visto
no caixão em seu salwar kameez branco.

Contudo, ele não conseguia parar de
planejar. Naquela noite, ele explodiu:
“Quando Gus morrer, vou manda-lo
cremar e espalhar suas cinzas
sobre o seu túmulo!” Ela riu,
seus grandes olhos se acenderam e ela concordou:
“Vai ser bom
para os narcisos.” Ela jazia, pálida, sobre
o travesseiro florido:
“Perkins, de onde você tira essas ideias?”

Eles conversaram sobre suas
aventuras – dirigir pela Inglaterra
quando eles se casaram,
e as excursões à China e Índia.
Também se lembraram dos
dias normais – os verões no lago, trabalhando
juntos em poemas,
passeando com o cachorro, lendo Chekhov
em voz alta. Quando ele elogiou
os milhares de encontros vespertinos
que os levaram ao
êxtase e ao repouso nesta cama pintada,
Jane irrompeu em lágrimas
e gritou, “Nunca mais, porra. Nunca mais, porra!”

Incontinente nas três noites
antes de morrer, Jane precisou ser içada
para o vaso sanitário.
Ele a limpou e a ajudou a retornar para a cama.
Às cinco ele alimentou o cão
e voltou para encontra-la do outro lado do quarto,
sentada em uma poltrona reta.
Se ela não conseguia ficar em pé, como conseguiu caminhar até lá?
Ele temeu que ela caísse
e chamou uma ambulância para o hospital,
mas quando contou a Jane,
sua boca se contraiu e as lágrimas começaram.
“Temos que ir?” Ele cancelou.
Jane disse, “Perkins, esteja comigo quando eu morrer.”

“Morrer é simples,” ela disse.
“O que é pior é… a separação.”
Quando ela já não falava,
eles se deitavam juntos, tocando-se,
e ela fixava nele seus lindos,
enormes, redondos olhos castanhos,
brilhantes, sem piscar,
e apaixonados de amor e de pavor.

Um a um eles vieram,
os mais velhos e queridos, para dizer adeus
à amiga do coração.
No início, ela pronunciou seus nomes, chorou e se comoveu;
em seguida ela sorriu; depois
entortou um dos cantos da boca para cima. No último dia,
ela se despediu silenciosamente
com suas mãos retorcidas e os olhos bem abertos.

Saindo de seu lugar ao lado dela,
onde seus olhos estavam fixos, ele lhe disse:
“Vou colocar essas cartas
na caixa do correio.” Ela não tinha falado
por três horas, e então Jane disse
suas últimas palavras: “Tá bom.”

Às oito daquela noite,
seus olhos se abriram e assim permaneceram
até que ela morreu, a respiração do tronco encefálico
começou, ele se curvou para beijar
seus lábios frios e pálidos novamente, e os sentiu
uma última vez se juntando
e franzindo para beija-lo de volta.

Nas últimas horas, ela mantivera
os antebraços erguidos com os dedos pálidos cerrados
na altura da bochecha, como
a estatueta da deusa sobre a pia do banheiro.
Por vezes, seu punho direito sacudia
ou espasmava em direção ao rosto. Por doze horas,
até ela morrer, ele continuou
coçando o grande e ossudo nariz de Jane Kenyon.
Um cheiro forte, quase doce,
começou a subir de sua boca aberta.
Ele observou o peito dela ficar imóvel.
Com o polegar, ele fechou seus redondos olhos castanhos.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Donald Hall escreveu este poema para sua esposa, a também poeta Jane Kenyon, com quem foi casado por muitos anos (de 1972 a 1995). Cerca de três anos antes de completar seu 50º aniversário, Kenyon foi diagnosticada com uma leucemia que, depois de uma breve remissão, voltou de forma devastadora e a matou, em 22/04/1995. Donald Hall morreu em 23/06/2018, aos 89 anos de idade. No blog você pode ler as traduções que fiz de alguns poemas dela: https://singularidadepoetica.art/category/jane-kenyon/

Last Days

“It was reasonable
to expect.” So he wrote. The next day,
in a consultation room,
Jane’s hematologist Letha Mills sat down,
stiff, her assistant
standing with her back to the door.
“I have terrible news,”
Letha told them. “The leukemia is back.
There’s nothing to do.”
The four of them wept. He asked how long,
why did it happen now?
Jane asked only: “Can I die at home?”

Home that afternoon,
they threw her medicines into the trash.
Jane vomited. He wailed
while she remained dry-eyed – silent,
trying to let go. At night
he picked up the telephone to make
calls that brought
a child or a friend into the horror.

The next morning,
they worked choosing among her poems
for Otherwise, picked
hymns for her funeral, and supplied each
other words as they wrote
and revised her obituary. The day after,
with more work to do
on her book, he saw how weak she felt,
and said maybe not now; maybe
later. Jane shook her head: “Now,” she said.
“We have to finish it now.”
Later, as she slid exhausted into sleep,
she said, “Wasn’t that fun?
To work together? Wasn’t that fun?”

He asked her, “What clothes
should we dress you in, when we bury you?”
“I hadn’t thought,” she said.
“I wondered about the white salwar
kameez,” he said –
her favorite Indian silk they bought
in Pondicherry a year
and a half before, which she wore for best
or prettiest afterward.
She smiled. “Yes. Excellent,” she said.
He didn’t tell her
that a year earlier, dreaming awake,
he had seen her
in the coffin in her white salwar kameez.

Still, he couldn’t stop
planning. That night he broke out with,
“When Gus dies I’ll
have him cremated and scatter his ashes
on your grave!” She laughed
and her big eyes quickened and she nodded:
“It will be good
for the daffodils.” She lay pallid back
on the flowered pillow:
“Perkins, how do you think of these things?”

They talked about their
adventures – driving through England
when they first married,
and excursions to China and India.
Also they remembered
ordinary days – pond summers, working
on poems together,
walking the dog, reading Chekhov
aloud. When he praised
thousands of afternoon assignations
that carried them into
bliss and repose on this painted bed,
Jane burst into tears
and cried, “No more fucking. No more fucking!”

Incontinent three nights
before she died, Jane needed lifting
onto the commode.
He wiped her and helped her back into bed.
At five he fed the dog
and returned to find her across the room,
sitting in a straight chair.
When she couldn’t stand, how could she walk?
He feared she would fall
and called for an ambulance to the hospital,
but when he told Jane,
her mouth twisted down and tears started.
“Do we have to?” He canceled.
Jane said, “Perkins, be with me when I die.”

“Dying is simple,” she said.
“What’s worst is… the separation.”
When she no longer spoke,
they lay along together, touching,
and she fixed on him
her beautiful enormous round brown eyes,
shining, unblinking,
and passionate with love and dread.

One by one they came,
the oldest and dearest, to say goodbye
to this friend of the heart.
At first she said their names, wept, and touched;
then she smiled; then
turned one mouth-corner up. On the last day
she stared silent goodbyes
with her hands curled and her eye stuck open.

Leaving his place beside her,
where her eyes stared, he told her,
“I’ll put these letters
in the box.” She had not spoken
for three hours, and now Jane said
her last words: “O.K.”

At eight that night,
her eyes open as they stayed
until she died, brain-stem breathing
started, he bent to kiss
her pale cool lips again, and felt them
one last time gather
and purse and peck to kiss him back.

In the last hours, she kept
her forearms raised with pale fingers clenched
at cheek level, like
the goddess figurine over the bathroom sink.
Sometimes her right fist flicked
or spasmed toward her face. For twelve hours
until she died, he kept
scratching Jane Kenyon’s big bony nose.
A sharp, almost sweet
smell began to rise from her open mouth.
He watched her chest go still.
With his thumb he closed her round brown eyes.