Luís Falcão – Sabemos que o tempo passou

Sabemos que o tempo passou Que alguma coisa deveria ter sido dita (talvez depois, talvez mais tarde) Deixamos atrás de nós Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis E, feridos, Por todas as coisas que poderíamos ter evitado a nós próprios Caminhamos para o silêncio E para a escuridão indefinível dos bosques.

Wang Wei – Dedicado a Chang Yin

Instalar armadilhas e esperar pelas lebres astutas, Lançar uma linha à água e espreitar os peixes, Talvez acalme a boca e a barriga, Mas não é esse o sentido da vida do eremita. Eu amo a tranquilidade, Alimento-me de legumes para me desembaraçar das paixões terrenas Doravante, como tu livre e indiferente Lamento aqueles que … Continue lendo Wang Wei – Dedicado a Chang Yin

Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida

A vida terrena, única, seja o meu quinhão! Vida minha, tudo o que tenho na tua mão! Toma-me e usa-me e exaure-me nos dias e então me larga alhures, alijada de ti, fria e impotente e condenada a não renascer na noite, na eterna noite sem amanhecer! Trad.: Luciano Dutra BØN TIL LIVET Eitt jordliv, … Continue lendo Halldís Moren Vesaas – Oração à Vida

Manuel de Freitas – CCB, 2002

Abrem-se devagar os túmulos - e entramos neles. É o nosso ofício, talvez o único. Esperamos, anos fartos, o vazio. Não há engano possível, não há regresso. Todas as ilhas devagar nos mentem. Dançava perto de ti, talvez demasiado só, uma estrela d'nada, bo dispidida. Não me digas que não ouviste.

José Mateos – Canção 1

Ainda quase um menino te sentaste a esperar à orla do grande silêncio. Pensavas que estando a sós com tua voz talvez pudesses roubar ao mar seu segredo. Foi-se tua juventude. Mudos passaram os anos e agora estás oco por dentro. Podias, se ao fim soasse a voz do grande silêncio, chegar a cantar seu … Continue lendo José Mateos – Canção 1

Paulo Henriques Britto – Nenhuma Arte

Os deuses do acaso dão, a quem nada lhes pediu, o que um dia levam embora; e se não foi pedida a coisa dada não cabe se queixar da perda agora. Mas não ter tido nunca nada não seria bem melhor — ou menos mau? Mesmo sabendo que uma solidão completa era o capítulo final, … Continue lendo Paulo Henriques Britto – Nenhuma Arte

Eunice de Souza – Primavera Relutante

os corrupiões dourados se foram. as mariquitas estão em silêncio. a última folha vermelha na amendoeira recusa o próprio outono. Trad.: Nelson Santander Reluctant Spring the golden orioles have gone. the warblers are silent. the last red leaf on the almond tree refuses to fall

Juan Ramón Jiménez – Com tua Voz

Quando eu estiver com as raízes chama-me com tua voz. A mim parecerá que entrou tremendo a luz do sol. Trad.: Nelson Santander Juan Ramón Jiménez - Con tu voz Cuando esté con las raíces llámame tú con tu voz. Me parecerá que entra temblando la luz del sol.

André Tecedeiro – de “O Número de Strahler”

nem o poema dá a dimensão da contradição. o tom dizia odeio-te mas o que lhe saía da boca era amo-te. eu sabia que ficar era morte mas o que me dizia era que fugir era morte. a um hematoma eu teria chamado alívio.

Yves Bonnefoy – As Árvores

Olhávamos as árvores, era do alto Do terraço que nos foi caro, o sol Ficava junto a nós mais esta vez ainda Mas retirado, silencioso anfitrião No limiar da casa em ruínas, que deixávamos A seu poder, imensa, iluminada. Vê, dizia-te eu, ele faz deslizar Na pedra desigual, insondável do nosso apoio A sombra do … Continue lendo Yves Bonnefoy – As Árvores