Tag: Soneto
-
Jules Laforgue – Mediocridade

No infinito coberto de eternas belezas,Como átomo perdido, incerto, solitário,Um planeta chamado Terra, dias contados,Voa com os seus vermes sobre as profundezas. Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,Marchando, indiferentes ao grande mistério,E quando um dos seus é enterrado, já sérios,Saúdam-no. Do torpor não são arrancados. Viver, morrer, sem desconfiar da históriaDo globo, sua…
-
Olavo Bilac – Nel Mezzo Del Camin…

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigadaE triste, e triste e fatigado eu vinha.Tinhas a alma de sonhos povoada,E a alma de sonhos povoada eu tinha… E paramos de súbito na estradaDa vida: longos anos, presa à minhaA tua mão, a vista deslumbradaTive da luz que teu olhar continha. Hoje, segues de novo… Na partidaNem o pranto teus…
-
Machado de Assis – A Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiroEm que descansas dessa longa vida,Aqui venho e virei, pobre querida,Trazer-te o coração do companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiroQue, a despeito de toda humana lida,Fez a nossa existência apetecidaE num recanto pôs um mundo inteiro. Trago-te flores, – restos arrancadosDa terra que nos viu passar unidosE ora mortos nos deixa…
-
Carlos Drummond de Andrade – Destruição

“Destruição”, um poema de Carlos Drummond de Andrade que desnuda o amor como força devoradora, capaz de anular os amantes e deixar apenas a ferida persistente do que foi vivido.
-
Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucenase mostra toda a cor neste teu rosto,enquanto o teu olhar ardente, honesto,acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjasdo ouro se escolheu, com voo presto,sobre o formoso colo branco, ereto,o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primaverao doce fruto,…
-
Francisca Aguirre – E se, depois de tudo, fosse o resto

E se, depois de tudo, fosse o restoum ir morrendo para ao fim morrermospor este louco afã de convertermo-nosem contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto eraeste sermão que vem nos repetirque avança o furacão de nos ferir,e é vã e absurda esta carreira. Então fique tranquilo, amor meu,e goza desta…
-
Petrarca – Soneto CXXXIII (“O Amor me Assinalou com sua Seta”)

O amor me assinalou com sua seta,como a neve ao sol, como a cera ao fogo,como névoa ao vento; e já estou rouco,dama, de humilhar-me, feito um pateta. De teus olhos o golpe mortal veio,contra o qual tempo e espaço nada são;Vêm de ti, e vês como diversão,o sol, o fogo e o vento aos…
-
Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil —…
-
Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe…
-
José Lino Grünewald – Soneto Burocrático

Salvo melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, maximé, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante qual mormente, oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado,…