Mês: julho 2019
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Eugénio de Andrade – De “As mãos e os frutos”

XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber
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Joan Margarit – El Primer Frío

Acompanhei-te até o museu, no parque,em uma manhã de inverno. Detivemo-nosdiante daquela escultura: El primer frío.Era de mármore cinzento: um velho, nu,olha ao longe, entre as folhas mortasque o vento carrega.A arte não é diferente da vida,lembro que disseste. Mas euvia apenas um mármore frio,um tanto retórico, e pensava em garotas.Entre aquele dia e hoje,…
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Manuel António Pina – Extrema-unção

Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para…
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Ferreira Gullar – Notícia da Morte de Alberto da Silva

(Poema Dramático para Muitas Vozes) I Eis aqui o morto chegado a bom porto Eis aqui o morto como um rei deposto Eis aqui o morto com seu terno curto Eis aqui o morto com seu corpo duro Eis aqui o morto enfim no seguro II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem…
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Robert Penn Warren – Conta-me uma história

A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estavaEm uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouviA algaravia dos gansos que rumavam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua,E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Não sabia o que se passava em meu coração. Era a estação antes dos…
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William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror…
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Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela,…
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Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te…
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A. M. Pires Cabral – Folha rubra

É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.
