Eugénio de Andrade – De “As mãos e os frutos”

XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber

Joan Margarit – El Primer Frío

Acompanhei-te até o museu, no parque, em uma manhã de inverno. Detivemos-nos ante aquela escultura: El primer frío. Era de mármore cinza: um velho que, nu, olha ao longe por entre folhas mortas que o vento vai carregando. A arte não é diferente da vida, lembro que disseste. Mas eu via apenas um mármore frio, … Continue lendo Joan Margarit – El Primer Frío

Manuel António Pina – Extrema-unção

Uma breve, amável mágoa à flor dos olhos, um distante desapontamento, morrias como se pedisses desculpa por nos fazeres perder tempo. Tinhas pressa mas não o mostravas, receavas que não estivéssemos preparados, e, suspenso sobre nós, esperavas que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado. Morrer não é motivo de orgulho, mas estavas cansado demais para … Continue lendo Manuel António Pina – Extrema-unção

Ferreira Gullar – Notícia da Morte de Alberto da Silva

(Poema Dramático para Muitas Vozes)           I      Eis aqui o morto      chegado a bom porto      Eis aqui o morto      como um rei deposto      Eis aqui o morto      com seu terno curto      Eis aqui o morto      com seu corpo duro      Eis aqui o morto      enfim no seguro           II De barba feita, cabelo penteado jamais esteve tão bem … Continue lendo Ferreira Gullar – Notícia da Morte de Alberto da Silva

Robert Penn Warren – Conta-me uma história

A Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estava plantado Em uma estrada de terra, no início da noite, e ouvi A algaravia dos gansos que se dirigiam para o norte. Não pude vê-los, pois não havia lua, E escassos eram os astros. Eu os ouvi. Eu não sabia o que acontecia em … Continue lendo Robert Penn Warren – Conta-me uma história

William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça, Negra como um Poço em sua inteireza, Agradeço a cada Deus pela graça De minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstâncias Não recuei nem alteei meu pranto. Debaixo dos golpes das contingências Minha fronte sangra - ereta, no entanto. Além deste lugar de desenganos, Somente o Horror … Continue lendo William Ernest Henley – Invictus

Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada na parte suave de tuas coxas. Sopro de brisa nas tuas bochechas. Leve areia sob tua pegada. Queria ser água, água salgada quando corres nua no litoral. Sol cortando em sombra tua banal Silhueta virgem recém-molhada. Tudo quisera ser, indefinido, ao teu redor: vista, luz, ambiente gaivota, céu, navio, vela, … Continue lendo Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

António Barahona – Memórias

Da minha vida, os anos que passaram não os quero de volta: só agora me basta pra viver, a toda a hora, os momentos que em mim se eternizaram. Caminho pesaroso, entre destroços de lutas amorosas, sem ter tréguas. Vão às cegas, meus passos pelas trevas de sombras movediças feitas de ossos. Lembro os que … Continue lendo António Barahona – Memórias

Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

             I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

A. M. Pires Cabral – Folha rubra

É bom sermos como essas folhas verdes que prolongam todo o ano a Primavera. Mas melhor do que isso é sermos como aquela folha rubra que antes das outras pressentiu o Outono e vestiu para ele a sua melhor cor, mesmo sabendo que o Inverno tem um plano para em breve a dissolver no chão.