Joan Margarit – Amar é onde

Sentado em um trem olho a paisagem
e de repente, fugaz, passa um vinhedo
como o relâmpago de uma verdade.
Seria um erro descer do trem
porque então a vinha já não haveria.
Amar é onde, algo sempre o evoca:
um telhado ao longe, o palco desprovido
(no chão, uma rosa) de um maestro,
os músicos que hoje tocam sozinhos.
Teu quarto ao amanhecer.
E, naturalmente, os pássaros que cantam
naquele cemitério em uma manhã de junho.
Amar é um lugar.
Sobrevive na parte mais profunda: é de onde viemos.
E também o lugar onde perdura a vida.

Trad.: Nelson Santander

Amar es Dónde

Sentado en un tren miro el paisaje
y de pronto, fugaz, pasa un viñedo
como el relámpago de una verdad.
Sería un error bajar del tren
porque entonces la viña desaparecería.
Amar es dónde, algo lo evoca siempre:
un terrado a lo lejos, la tarima vacía
(en el suelo una rosa) de un director de orquesta,
los músicos que hoy están tocando solos.
Tu habitación al clarear el día.
Y, claro está, los pájaros que cantan
en aquel cementerio una mañana de junio.
Amar es un lugar.
Perdura en lo más hondo: es de dónde venimos.
Y también el lugar donde queda la vida.

Joan Margarit – Coisas em comum

Ter-nos conhecido
em um outono num trem que ia vazio;
A radiante, embora cruel,
promessa do desejo.
A cicatriz da melancolia
e o velho afeto com o qual compreendemos
os motivos do lobo.
A lua que acompanha o trem noturno
Barcelona-Paris.
Uma faca de luz para os crimes
que por amor devemos cometer.
Nossa maldita e inocente sorte.
A voz do mar, que sempre te dirá
onde estou, porque é nosso confidente.
Os poemas, que são cartas anônimas
escritas de onde não imaginas
à mesma menina que em um outono
conheci naquele trem que ia vazio.

Trad.: Nelson Santander
Cosas en Común 

Habernos conocido
un otoño en un tren que iba vacío;
La radiante, aunque cruel
promesa del deseo.
La cicatriz de la melancolía
y el viejo afecto con el que entendemos
los motivos del lobo.
La luna que acompaña al tren nocturno
Barcelona-París.
Un cuchillo de luz para los crímenes
que por amor debemos cometer.
Nuestra maldita e inocente suerte.
La voz del mar, que siempre te dirá
dónde estoy, porque es nuestro confidente.
Los poemas, que son cartas anónimas
escritas desde donde no imaginas
a la misma muchacha que un otoño
conocí en aquel tren que iba vacío.

Joana – Sumário

Joana – Joan Margarit

Tradução: Nelson Santander

SUMÁRIO

Apresentação de “Joana”, de Joan Margarit

Joana – Prólogo

Oração para J. M. R.

Enquanto tu dormes

Não há milagres

Riera Pahissa

Amanhecer em Cádiz

Luzes de natal em Sant Just

Às quatro da madrugada

Manhã de domingo com a música de Lluís Claret

Metrô Fontana

Pai e filha

Sant Just, 2 de março de 2001

A felicidade

Oceano Atlântico, 1956

História natural

Água

Mãe e filha

Pilhagem

Súplica

Mari

Última caminhada

Um pobre instante

O dia depois da morte

Teu lobo

Final

Noite de junho

Espaço e tempo

Uma história

Uma fotografia pendurada na parede

Passageira

Recordações militares

Canção de ninar

O presente e Forès

Professor Bonaventura Bassegoda

O primeiro verão sem ti

Quadro com pássaros

Lápide

A espera

Um lugar perdido

No final da noite

Joan Margarit – No final da noite

O ar está congelando.
Até o rouxinol mantém-se em silêncio.
Com a testa apoiada na vidraça
peço perdão às minhas filhas mortas,
porque já quase nunca penso nelas.
O tempo passou, deixando sobre a cicatriz
sua argila empoeirada, e ocorre que, mesmo
quando se ama alguém, sobrevém o esquecimento.
A luz tem a mesma aspereza das gotas
que vão, com o degelo, caindo dos ciprestes.
Ponho uma tora, removo as cinzas,
ressurge a chama entre as brasas.
Começo a fazer café
e vossa mãe, do quarto,
sorri com sua voz: Que cheiro bom.
Acordaste muito cedo esta manhã.

Trad.: Nelson Santander

Joana e Joan, em 2000. Foto: arquivo da família Margarit Ribalta

JOANA FOI ESCRITO DE 10 DE OUTUBRO DE 2000 A 1 DE SETEMBRO DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA


Este livro foi escrito violando todos os conselhos que os poetas nos damos sobre a distância obrigatória entre os fatos e o poema. Uma vez que precisava escreve-lo assim, e, ademais, já começo a ter idade suficiente para ignorar os conselhos, usei como garantia a vigilância poética — pela qual ora agradeço — de meus amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel e Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio e Jesús Munárriz, Àlex Susanna e Sam Abrams. E de Almudena del Olmo, que, diante das minhas dúvidas, me disse: Não penses mais nisso e dá-lhe o título do que é realmente a tua obsessão: Nunca mais. Foi assim que este livro começou a ser intitulado, mas no final ganhou o nome simples da protagonista, em relação à qual, ao fim e ao cabo, o título sugerido não passava de uma afirmação filosófica. Como me recordou Sam Abrams, o mesmo corvo de Poe diz Nevermore, e o nosso Nunca mais é Never again.

AL FONDO DE LA NOCHE

Está helando en el aire.
Guarda silencio hasta el ruiseñor.
Con la frente apoyada en el cristal
pido perdón a mis dos hijas muertas,
porque ya casi nunca pienso en ellas.
El tiempo ha ido dejando sobre la cicatriz
su polvorienta arcilla, y es que, incluso
cuando uno ama a alguien, sobreviene el olvido.
La luz tiene la misma dureza de las gotas
que van, con el deshielo, cayendo del ciprés.
Pongo un leño, remuevo las cenizas,
vuelve a surgir la llama entre las brasas.
Empiezo a hacer café
y vuestra madre, desde el dormitorio,
sonríe con su voz: Qué buen aroma.
Has madrugado mucho esta mañana.

JOANA FUE ESCRITO DEL 10 DE OCTUBRE DE 2000 AL 1 DE SEPTIEMBRE DE 2001

What will survive of us is love.
PHILIP LARKIN

Nota a JOANA

Este libro fue escrito vulnerando todos los consejos que los poetas damos sobre la obligada distancia entre los hechos y el poema. Puesto que necesitaba hacerlo así y, además, ya empiezo a tener la edad de saltarme los consejos, he utilizado como garantía la vigilancia poética —que aquí agradezco— de mis amigos Pere Rovira, Paco Díaz de Castro, Ramón Andrés, Enrique Badosa, Luis García Montero, Antonio Jiménez Millán, Miguel Ángel y Ana del Arco, Isidor Cònsul, Maite Merodio y Jesús Munárriz, Àlex Susanna y Sam Abrams.Y de Almudena del Olmo, que, ante mis dudas, me dijo: No le des más vueltas y ponle por título lo que realmente es tu obsesión: Nunca más. Así se empezó titulando este libro, pero al final ha ganado el sencillo nombre de la protagonista frente al que, al fin y al cabo, no era más que una afirmación filosófica. Como me
ha recordado Sam Abrams, el mismo cuervo de Poe dice Nevermore, y nuestro Nunca más es Never again.

Joan Margarit – Um lugar perdido

UM LUGAR PERDIDO
In memoriam
Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)
Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)

Reluz o sol do conto de fadas
que para Marta foi esta casa
pequena e luminosa em frente aos campos.
Ninguém tocou em um único tronco
da lenha cortada e ordenada.
Joana fez um desenho para ela
onde lhe dizia: Que sejas muito feliz.
Quando Joana tinha dois anos éramos
tu e eu que lhe dizíamos:
Que sejas muito feliz.

Não é difícil imaginar que as duas
ainda estão aqui,
sentir a brisa das conversas
agitando o cortinado da porta.
Mas não há nada além de nossos olhos.
E os arranham velozes andorinhas
que agora se lançam
com seus chilreios entre as árvores frutíferas.

Trad.: Nelson Santander

UN LUGAR PERDIDO
In memoriam
Marta Ribalta i Taltavull (17-VIII-1946, 11-V-1999)
Joana Margarit i Ribalta (20-VIII-1970, 2-VI-2001)

Reluce el sol del cuento de la infancia
que para Marta fue esta luminosa,
pequeña casa enfrente de los campos.
Nadie ha tocado un solo tronco
de la leña cortada y ordenada.
Joana hizo un dibujo para ella
en donde le decía: Que seas muy feliz.
A los dos años éramos tú y yo
los que a Joana le decíamos:
Que seas muy feliz.

No es difícil pensar que, todavía,
siguen aquí las dos,
sentir la brisa de conversaciones
agitando el visillo de la puerta.
Pero no hay nada más que nuestros ojos.
Y los rayan veloces golondrinas
que ahora están lanzándose
con sus chillidos entre los frutales.

Joan Margarit – A espera

Muitas coisas estão sentindo a tua falta.
Cada dia é repleto de momentos que esperam
aquelas pequenas mãos
que seguraram as minhas tantas vezes.
Teremos de nos habituar à tua ausência.
Um verão já passou sem teus olhos
e o mar também terá que se acostumar.
Por muito tempo ainda,
a rua esperará diante de nossa porta,
pacientemente, pelos teus passos.
Não se cansará nunca de esperar:
ninguém sabe esperar como uma rua.
E a mim me domina este desejo
de que me toques e de que me olhes,
de que me digas o que fazer com minha vida,
enquanto os dias, com chuva ou céu azul,
já organizam a solidão.

Trad.: Nelson Santander

LA ESPERA

Muchas cosas te están echando en falta.
Cada día se llena de momentos que esperan
esas pequeñas manos
que cogieron las mías tantas veces.
Tendremos que avezarnos a tu ausencia.
Ya ha pasado un verano sin tus ojos
y el mar también tendrá que acostumbrarse.
Durante mucho tiempo todavía,
la calle esperará ante nuestra puerta,
con paciencia, tus pasos.
No se cansará nunca de esperar:
nada sabe esperar como una calle.
Y a mí me colma esta voluntad
de que me toques y de que me mires,
de que me digas qué hago con mi vida,
mientras los días van, con lluvia o cielo azul,
organizando ya la soledad.

Joan Margarit – Lápide

LÁPIDE
ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001

Nossa memória guarda vossos nomes
em uma pequena praia que jamais
figurará nos mapas dos navios.
Quão próximas estais aqui, uma da outra,
minhas filhas, depois de tanto tempo.
Tão unidas agora, atrás de vossos nomes,
que olham para o mar
e que o sol lê a cada amanhecer.

Trad.: Nelson Santander

LÁPIDA
ANNA, 1967; JOANA, 1970-2001

Nuestra memoria guarda vuestros nombres
en una leve playa que jamás
figurará en los mapas de los barcos.
Qué cerca estáis aquí, la una de la otra,
hijas mías, después de tanto tiempo.
Tan juntas ya, detrás de vuestros nombres,
que miran hacia el mar
y que el sol lee cada amanecer.

Joan Margarit – Quadro com pássaros

A parede é, deste lado, escura e triste,
como naquela história
que um dia te contei. Fosse de verdade,
todos os pássaros que pintaste
estariam a tua espera do outro lado
cantando para ti:
acolher-te-ia aquela parte clara
de que falava a história
como o faríamos tua mãe e eu
se pudesses voltar para casa novamente.

Conto para mim mesmo esta história
enquanto olho para os últimos pássaros que pintaste.
Aqui, do lado sombrio da parede,
como poderia eu pagar por esta ilusão
de sentir-te na brisa de um momento?

Trad.: Nelson Santander

CUADRO CON PÁJAROS

El muro es, de este lado, oscuro y triste,
igual que en aquel cuento
que un día te expliqué. De ser verdad,
todos los pájaros que tú pintaste
te esperarían en el otro lado
cantando para ti:
te acogería esa parte clara
de la que hablaba el cuento
como lo haríamos tu madre y yo
si pudieses volver de nuevo a casa.

Me explico a mí mismo esta historia
mientras miro los últimos pájaros que pintaste.
Aquí, en el lado lóbrego del muro,
¿de qué forma podría pagar esta ilusión
de sentirte en la brisa de un momento?

Joan Margarit – O primeiro verão sem ti

I
Penhascos de um cinza esverdeado,
como grandes machados pré-históricos,
mergulham na água.
Como alguém descascando frutas,
a estrada recorta suas curvas
através das velhas colinas calcinadas.

O carro estaciona próximo ao mar
e no retrovisor não estão teus olhos.
Em frente, branco, La Gambina
com seu letreiro — HOTEL — azul
no alto, no telhado, mirando o amanhã.

II
Sentada diante das ondas:
as nuvens se acumulam sobre o povoado,
mas tu estás voltada para o horizonte,
ainda sob o céu do passado,
que é o nosso melhor momento.
O mar, as pessoas, as embarcações,
tudo está se movendo
neste último cartão postal de ti.

O vento ensaia rajadas
que sopram para longe um guarda-sol.
Gotas frias de chuva sobre a pele quente
são como um conselho maternal:
que os olhos recolham a sombra do perigo
em uma praia abandonada ao vento.

III
Joana, o temporal desliza agora
sob teus pés cansados.
Vejo-te fugir: lentamente
e cruzando os olhos da chuva.
De repente, já não estás na casa nem na praia,
teus retratos sorridentes são açoitados
pelos ventos do assombro.

Durante muitos anos prendeste tuas muletas
entre os pedregulhos para chegar ao mar.
Debaixo da ponte de ferro
— dir-te-ão as andorinhas mortas —
teu amado povoado de Colera
nunca mais se transformará para os teus olhos.

Trad.: Nelson Santander

PRIMER VERANO SIN TI

I
Acantilados de un verdoso gris,
igual que grandes hachas prehistóricas,
se hunden en el agua.
Como quien pela fruta,
la carretera va recortando sus curvas
por las viejas colinas abrasadas.

El coche se detiene junto al mar
y en el retrovisor no están tus ojos.
Enfrente, blanco, La Gambina
con su letrero —HOTEL— color azul
arriba, en la azotea, mirando hacia el mañana.

II
Sentada ante las olas:
las nubes se amontonan sobre el pueblo,
pero tú estás de cara al horizonte,
debajo aún del cielo del pasado,
que es nuestro mejor tiempo.
El mar, la gente, las embarcaciones,
todo se está moviendo
en esta última postal de ti.

El viento ensaya ráfagas
que se llevan volando una sombrilla.
Gotas frías de lluvia sobre la piel caliente
son como una advertencia maternal:
que los ojos recojan la sombra del peligro
en una playa abandonada al viento.

III
Joana, el temporal resbala ahora
bajo tus pies cansados.
Te veo huir: despacio
y cruzando los ojos de la lluvia.
De pronto ya no estás ni en casa ni en la playa,
tus retratos sonrientes
los baten tramontanas del espanto.

Durante muchos años clavaste tus muletas
entre cantos rodados para llegar al mar.
Bajo el puente de hierro
—te lo dirán las golondrinas muertas—
tu amado pueblo de Colera
nunca más cambiará para tus ojos.

Joan Margarit – Professor Bonaventura Bassegoda

Lembrei-me de você, alto e corpulento,
atrevido, sentimental. Na época, você
era uma autoridade em Alicerces Profundos.
Iniciava as aulas sempre assim:
Senhores, bom dia.
Hoje faz tantos anos, tantos meses
e tantos dias que minha filha morreu.

E costumava secar algumas lágrimas.
Tínhamos vinte anos, mais ou menos,
e o homem corpulento que você era,
chorando durante a aula,
nunca nos fez sorrir.
Há quanto tempo você já não conta o tempo?
Tenho pensado em nós,
hoje que sou uma amarga sombra sua
porque minha filha agora faz dois meses,
três dias e seis horas
que tem seus alicerces profundos na morte.

5 de agosto de 2001, à meia noite

Trad.: Nelson Santander

PROFESOR BONAVENTURA BASSEGODA

Le he recordado, alto y corpulento,
procaz, sentimental. Por entonces, usted
era una autoridad en Cimientos Profundos.
Iniciaba las clases siempre así:
Señores, buenos días.
Hoy hace tantos años, tantos meses
y tantos días que murió mi hija.

Y solía secarse alguna lágrima.
Teníamos veinte años, más o menos,
y el hombre corpulento que usted era
llorando en plena clase,
nunca nos hizo sonreír.
¿Cuánto hace ya que usted no cuenta el tiempo?
He pensado en nosotros,
hoy que soy una amarga sombra suya
porque mi hija ahora hace dos meses,
tres días y seis horas
que tiene sus profundos cimientos en la muerte.

5 de agosto de 2001, a las 12 de la noche