Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

É uma música modestacomo um jantar na cozinha,hospitaleira como ter tido filhos.Compadece-se do corpoque a maré arrastaà praia invernal de cada um.Que franqueza nas notas mais abruptasdizendo-me: é amortambém aquilo que parece hostil.Quando se extingue o eco do piano,o que escutei ainda me estremece.A música de Schuberté uma forma de caridade. Trad.: Nelson Santander Arkadi … Continue lendo Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçadaonde não me espera ninguém.Aqui sem ti. Um estranho.Foi aqui que eu me perdi.Caminho sem mim, contigo.Minha sombra é apenas um erro,vem dos lugares mais gélidos:teu coração e tuas mãos.Por isso eu parti.A vida desconhecidaeu a vivi sem ti.A teu lado. Trad.: Nelson Santander Separado La casa se abre … Continue lendo Joan Margarit – Separado

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do … Continue lendo Joan Margarit – Noturno em Solivella

Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Fui à montanha dos túmulos:lá cheguei cruzando o ermoda Can Tunis, coberto de seringase de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,as estátuas de trapo dos drogados.Corre o boato de que a Prefeiturairá destruí-lo, cobrindo de concretoos terrenos com mato em frente à enorme grade do cemitério, erguida de frente para o mar.Que má companhia será para … Continue lendo Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Nem essa violência com a qual desejoter sempre razão.Nem tampouco crer que a felicidadetem uma relação, sutil, com a mentira.Nem chegar a tero coração tão sujo como o meu,apesar de ter sido a guerra que o sujou.Minha paz deve ser uma falsa paz.Tampouco não abjurar a luxúriae a vaidade.Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa … Continue lendo Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Joan Margarit – Último trem

Último trem Crematório de Collserola Se visses a chuva que enverniza o verde escuro e denso do jardim. Teu vagão solitário está chegando à sala espaçosa, sem adornos, nem mobiliário, nem nenhuma luminária, da Estación de Francia da morte. Só se ouve o murmúrio do motor que arrasta o peso da infância e da juventude … Continue lendo Joan Margarit – Último trem

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos — o da liberdade e o da idade —, já não posso abrir nosso cofre. A porta com seus dígitos giratórios é a roleta na qual já não aposto. Desde o primeiro suspiro, conservei a encouraçada claridade daquela rosa. Agora, nu em nosso quarto, com a janela aberta e a luz … Continue lendo Joan Margarit – A senha

Joan Margarit – Despedidas

Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu … Continue lendo Joan Margarit – Despedidas