Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.
As mãos ao volante e esta luz
de boate no painel me permitem
– fantasia invernal – dançar contigo.
Atrás de mim, como um grande caminhão,
o amanhã fabrica explosões de luzes.
Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,
mas agora tu e eu viajamos juntos
e a carruagem pode ser a dos cavalos
dos anos sessenta para Paris.
“Je ne regrette rien”, canta Edith Piaf.
Desço o vidro, infiltra-se a noite
fria da rodovia, e o passado
se aproxima de frente, velozmente:
cruza e me cega sem baixar as luzes.

Trad.: Nelson Santander

Faros en la noche

Intento seducirte en el pasado.
Las manos al volante y esta luz
de club nocturno del tablier me dejan
-fantasía invernal- bailar contigo.
Detrás de mí, igual que un gran camión,
el mañana hace ráfagas de luces.
No lo conduce nadie y me adelanta,
pero ahora tú y yo viajamos juntos
y el coche puede ser el dos caballos
de los años sesenta hacia París.
«Je ne regrette rien» canta Edith Piaf.
Bajo la ventanilla, entra la noche
fria de la autopista, y el pasado
se aproxima de cara, velozmente:
cruza y me ciega sin bajar las luces.

Joan Margarit – Arcadi Volodos: Sonata D894

É uma música modesta
como um jantar na cozinha,
hospitaleira como ter tido filhos.
Compadece-se do corpo
que a maré arrasta
à praia invernal de cada um.
Que franqueza nas notas mais abruptas
dizendo-me: é amor
também aquilo que parece hostil.
Quando se extingue o eco do piano,
o que escutei ainda me estremece.
A música de Schubert
é uma forma de caridade.

Trad.: Nelson Santander

Arkadi Volodos: Sonada D894

Es una música modesta
como una cena en la cocina,
hospitalaria como haber tenido hijos.
Se compadece de este cuerpo
que la marea arrastra
a la playa invernal de cada uno.
Qué franqueza en las notas más abruptas
diciéndome: es amor
también aquello que parece hostil.
Cuando el eco del piano se ha extinguido,
lo que he escuchado me estremece aún.
La música de Schubert
es una forma de la caridad.

Joan Margarit – Separado

A casa se abre para uma calçada
onde não me espera ninguém.
Aqui sem ti. Um estranho.
Foi aqui que eu me perdi.
Caminho sem mim, contigo.
Minha sombra é apenas um erro,
vem dos lugares mais gélidos:
teu coração e tuas mãos.
Por isso eu parti.
A vida desconhecida
eu a vivi sem ti.
A teu lado.

Trad.: Nelson Santander

Separado

La casa se abre a una acera
donde no me espera nadie.
Aquí sin ti. Un extraño.
Fue aquí donde me extravié.
Paseo sin mí, contigo.
Mi sombra es sólo un error,
viene de sitios más gélidos:
tu corazón y tus manos. 
Es por lo que me marché.
La vida desconocida
yo la he vivido sin ti.
A tu lado.

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.
Detiveste o trator entre as cercas de arame
onde se embalam, verdes e densas, as videiras,
e escutaste a terra à tua volta.
O restaurante te dá dinheiro,
mas de madrugada, com ele já fechado,
fazendo um café para ti no balcão,
pensas o quanto gostas de, à noite, visitar
sozinho os arames do vinhedo.
Este local sem ninguém te lembra
quando era um bar de aldeia, com os velhos
que perto do fogão jogavam cartas.
Na penumbra, ocultava-se um Deus
encurralado como as garrafas
de anis que ninguém mais pedia,
ou como os retratos dos mortos
do refeitório, o oleado, como uma bandeira
cobrindo um caixão, sobre a mesa.
Alguns deles transportavam vinho
– voltando com carvão – para os Pirineus.
Talvez seja a solidão que te atrai
ao vinhedo à noite. Houve um outro
apostador que acabou no curral
pendurado pelas rédeas em uma viga.
Talvez tenha apostado a vida dele na tua.
E aquela bisavó fuzilada
ao pé do cemitério: legou-te
a fúria de existir. São negros melros
que a mão da morte deteve em pleno voo.
Haver vivido um dia é uma centelha
brilhante em uma escura eternidade
sem qualquer retorno ou ressurreição.
Era isto o que telegrafavam as fileiras
de arames através do vinhedo, à noite.

Trad.: Nelson Santander

Nocturno en Solivella

Vienes de recorrer las viñas en la noche.
Detuviste el tractor entre las alambradas
donde se emparran verdes y tupidas las cepas,
y escuchaste la tierra a tu alrededor.
Te va dando dinero el restaurante,
pero de madrugada, ya cerrado,
haciéndote un café en el mostrador,
piensas cuánto te gusta a solas recorrer,
de noche, los alambres de las viñas.
Este local sin nadie te recuerda
cuando era un bar de pueblo, con los viejos
que cerca de la estufa jugaban a las cartas.
En la penumbra se ocultaba un Dios
arrinconado como las botellas
de anís que nadie ya solicitaba,
o como los retratos de los muertos
del comedor, el hule, igual que una bandera
cubriendo un ataúd, sobre la mesa.
Alguno de ellos transportaba vino
– volviendo con carbón – al Pirineo.
Quizá es su soledad la que te atrae
de noche hasta las viñas. Otro fue
un jugador y terminó en la cuadra
colgado con las riendas de una viga.
Quizá apostó su vida por la tuya.
Y aquella bisabuela fusilada
al pie del cementerio: te legó
la furia de existir. Son negros mirlos
que paró en pleno vuelo la mano de la muerte.
Haber vivido un día es una chispa
brillante en una oscura eternidad
sin vuelta alguna ni resurrección.
Esto telegrafían las hileras
de alambres por las viñas en la noche.

Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Fui à montanha dos túmulos:
lá cheguei cruzando o ermo
da Can Tunis, coberto de seringas
e de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,
as estátuas de trapo dos drogados.
Corre o boato de que a Prefeitura
irá destruí-lo, cobrindo de concreto
os terrenos com mato em frente à enorme grade
do cemitério, erguida de frente para o mar.
Que má companhia será para os mortos:
os defuntos, seu muro e sua quietude
harmonizam melhor com esses drogados
que, soldados sem forças e perdidos,
deambulam depois da derrota.
À medida que subimos pela velha estrada do porto,
os barcos e os guindastes ficam menores,
enquanto o mar fica mais largo. Aqui, no alto,
estás a salvo das dores do mundo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T. em 18/02/2021: a publicação da tradução que fiz deste poema já estava agendada há mais de 2 meses. O poema narra uma visita que o poeta faz ao túmulo de um ente querido – presumivelmente, o de sua filha, Joana, falecida em 2001, vítima do câncer. Há dois dias, depois de uma breve batalha contra o câncer (sempre ele), faleceu também o poeta. Não sei se ele foi enterrado no mesmo cemitério Montjuïc, onde repousa a amada filha. Mas me anima pensar que, onde quer que esteja neste momento, também ele está a salvo das dores do mundo.

Mañana en el cementerio de Montjuïc

He ido a la montaña de las tumbas:
he llegado hasta allí cruzando el yermo
de Can Tunis, nevado de jeringas
y de plásticos grises, donde tiemblan, errantes,
las estatuas de trapo de los yonquis.
Corre el rumor de que el Ayuntamiento
lo arrasará, cubriendo de hormigón
los campos de hierbajos ante la enorme reja
del cementerio, alzado frente al mar.
Qué mala compañía será para los muertos:
los difuntos, su muro y su quietud
armonizan mejor con esos yonquis
que, soldados sin fuerzas y perdidos,
deambulan después de la derrota.
Al subir por el viejo camino frente al puerto
los barcos y las grúas van empequeñeciéndose,
mientras se ensancha el mar. Aquí, en lo alto,
estás salvada del dolor del mundo.

Joan Margarit – Nada engrandece um velho

Nem essa violência com a qual desejo
ter sempre razão.
Nem tampouco crer que a felicidade
tem uma relação, sutil, com a mentira.
Nem chegar a ter
o coração tão sujo como o meu,
apesar de ter sido a guerra que o sujou.
Minha paz deve ser uma falsa paz.
Tampouco não abjurar a luxúria
e a vaidade.
Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa é a nossa derrota.
Um campo de batalha onde, ao anoitecer,
estou cercado pelos mortos enquanto ouço
vozes distantes de jovens
celebrando o que hoje,
para eles, é ainda a vitória.

Trad.: Nelson Santander

Nada enaltece a un viejo

Ni esa violencia con la que deseo
tener siempre razón.
Ni tampoco creer que la felicidad
tiene una relación, sutil, con la mentira.
Ni llegar a tener
tan sucio el corazón como los míos,
a pesar de que a ellos los ensució la guerra.
Mi paz debe ser una paz falsa.
Tampoco no abjurar de la lujuria
ni de la vanidad.
¿Cómo podemos ser vanidosos, los viejos? Esa es nuestra derrota.
Un campo de batalla donde, al oscurecer,
me rodean los muertos mientras oigo
lejanas voces de gente joven
celebrando lo que hoy,
para ellos, es aún la victoria.

Joan Margarit – Perdidos em um conto

Após a demolição, começam as obras
no terreno onde ficava nossa casa.
Aqui li para ti contos
junto à cama até que a luz se apagasse.
Lembro-me daquele lobo que ainda chora
porque não reconhece sua dor
na dor alheia. Com seu sinistro
ruído de ferros, uma escavadeira
remove as terras roxas de ontem
enquanto, defronte a cerca, a princesa
ainda está varrendo as folhas secas
de um palácio sem ecos e sem ninguém.
Reuniões noturnas em escolas vazias.
Madrugadas velando-te a febre.
Um tempo de oscilações e castelos de areia,
dias de zoológico e Walt Disney,
horas pensando em ti, falando de ti.
A noite em que estiveste à beira da morte
ainda não terminou: meu olhar abriu
o mais desolador de seus lugares.
Hoje que falas tantas línguas
desconhecidas, teu potente voo
afastou-te de mim, mas subitamente
estou ouvindo aquela mesma voz
com a qual me chamaste tantas vezes.
Da qual vêm o desprezo e a indiferença
dos monstros da adolescência.
Atrás de ti talvez esteja me chamando
a menina de quem me esqueci e que, apesar disso,
eu sei que tive em meus braços. Talvez deva
dizer-lhe adeus. Minha tenda é a insônia:
teso como um soldado, monto guarda
sob o casaco, entre ninhos desertos
nas ramagens nuas invernais.
A vida nunca cuida de nós.

Trad.: Nelson Santander

Perdidos en un cuento

Tras el derribo empieza a edificarse
el solar donde estuvo nuestra casa.
Aquí te leí cuentos
junto a la cama hasta apagar la luz.
Recuerdo el de aquel lobo que llora todavía
porque no reconoce su dolor
en el dolor ajeno. Con su oscuro
ruido de hierros, una excavadora
remueve rojas tierras del ayer
mientras, ante la valla, la princesa
aún está barriendo la hojarasca
de un palacio sin ecos y sin nadie.
Reuniones en escuelas vacías por la noche.
Madrugadas velándote la fiebre.
Un tiempo de columpios y castillos de arena,
días de zoológico y Walt Disney,
horas pensando en ti, hablando de ti.
La noche que estuviste al borde de la muerte
no ha terminado: mi mirada abrió
el más desolador de sus lugares.
Hoy que hablas tantas lenguas
desconocidas, tu potente vuelo
te ha alejado de mí, pero de pronto
estoy oyendo aquella misma voz
con la que me llamaste tantas veces.
Desde qué monstruos de la adolescencia
vienen la indiferencia y el desprecio.
Detrás de ti quizá me está llamando
la niña que olvidé y que, a pesar de ello,
sé que tuve en mis brazos. Quizá deba
decirle adiós. Mi tienda es el insomnio:
duro como un soldado monto guardia
bajo el capote, entre desiertos nidos
en las desnudas ramas invernales.
La vida nunca cuida de nosotros.

Joan Margarit – Dignidade

Se a desesperança
tem o poder de uma certeza lógica,
e a inveja uma programação tão secreta
quanto um trem militar,
já estamos condenados.
O castelhano me sufoca, embora nunca o tenha odiado.
Ele não é culpado por sua força
e muito menos por minha fraqueza.
Ele foi, ontem, um idioma bem articulado
para pensar, negociar, sonhar,
que já ninguém mais fala: um subconsciente
de perdas e ambições
onde soam belíssimas canções.
O presente é o idioma das ruas,
maltratado e espúrio, que se agarra
feito hera às ruínas da história.
O idioma em que escrevo.
Também é um idioma bem articulado
para pensar, negociar. Para sonhar.
E as velhas canções
se salvarão.

Trad.: Nelson Santander

Dignidad

Si la desesperanza
tiene el poder de una certeza lógica,
y la envidia un horario tan secreto
como un tren militar,
estamos ya perdidos.
Me ahoga el castellano, aunque nunca lo odié.
Él no tiene la culpa de su fuerza
y menos todavía de mi debilidad.
El ayer fue una lengua bien trabada
para pensar, pactar, soñar,
que no habla nadie ya: un subconsciente
de pérdida y codicia
donde suenan bellísimas canciones.
El presente es la lengua de las calles,
maltratada y espuria, que se agarra
como hiedra a las ruinas de la historia.
La lengua en la que escribo.
También es una lengua bien trabada
para pensar, pactar. Para soñar.
Y las viejas canciones
se salvarán.

Joan Margarit – Último trem

Último trem
Crematório de Collserola

Se visses a chuva que enverniza
o verde escuro e denso do jardim.
Teu vagão solitário está chegando
à sala espaçosa, sem adornos,
nem mobiliário, nem nenhuma luminária,
da Estación de Francia da morte.
Só se ouve o murmúrio do motor
que arrasta o peso
da infância e da juventude
– de teu anônimo tempo já perdido
que ninguém nunca mais reclamará -,
em direção ao forno e sua boca incandescente
que se reflete na vidraça gotejada de chuva.
As lágrimas adornam o lugar,
feio como um subúrbio, e, ainda assim,
recupero-te em um longínquo inverno,
numa manhã azul sob os plátanos:
imóvel, com as mãos atrás das costas,
olhas a multidão entre os quiosques
como um sobrevivente que se esforça
por identificar em seu redor
os restos do naufrágio.

Trad.: Nelson Santander

Último tren
Crematorio de Collserola

Si tú vieras la lluvia que barniza
el verde oscuro y denso del jardín.
Tu vagón solitario está llegando
a la sala espaciosa, sin adornos,
ni mobiliario, ni ninguna lámpara
de la Estación de Francia de la muerte.
Sólo se oye el murmullo del motor
que va arrastrando el peso
de infancia y juventud
—de tu anónimo tiempo ya perdido
que no reclamará nunca más nadie—,
hacia el horno y su boca incandescente
que se refleja en el cristal de lluvia.
Las lágrimas adornan el lugar,
feo como un suburbio, y aún así,
te recupero en un lejano invierno,
una mañana azul bajo los plátanos:
inmóvil, con las manos a la espalda,
miras la multitud entre los quioscos
como un superviviente que se esfuerza
por identificar en torno suyo
los restos del naufragio.

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos
— o da liberdade e o da idade —,
já não posso abrir nosso cofre.
A porta com seus dígitos giratórios
é a roleta na qual já não aposto.
Desde o primeiro suspiro, conservei
a encouraçada claridade
daquela rosa.
Agora, nu em nosso quarto,
com a janela aberta e a luz apagada,
ouço o rumor urbano da noite,
enquanto a leve brisa me acaricia.
Aquela menina e aquele menino
permanecem muito próximos, estão dentro de mim:
um cheiro familiar, uma canção,
podem traze-los de volta, mas se quero lhes falar,
já desapareceram. Vivíamos à mercê
do que ignorávamos.
É como se entre todos os direitos
que a vida tivesse,
houvesse um misterioso direito a não saber.
O ninho metálico custodia nossos sonhos.
Estou chorando: a senha
é a data de sua morte.

Trad.: Nelson Santander

La combinación

Sola entre dos infiernos
—el de la libertad y el de la edad—,
ya no puedo abrir nuestra caja fuerte.
La puerta con sus cifras giratorias
es la ruleta en la que ya no apuesto.
Desde el primer suspiro conservé,
la acorazada claridad
de aquella rosa.
Ahora, desnuda en nuestro dormitorio,
con la ventana abierta y la luz apagada,
oigo el rumor urbano de la noche
mientras la leve brisa me acaricia.
Aquella chica y aquel chico
permanecen muy cerca, están dentro de mí:
un olor familiar, una canción,
pueden hacer que vuelvan, pero si quiero hablarles
ya han desaparecido. Vivimos a merced
de lo que de nosotros ignorábamos
Es como si entre todos los derechos
que tuviese la vida,
hubiera un misterioso derecho a no saber.
El metálico nido custodia nuestros sueños.
Estoy llorando: la combinación
era la fecha de tu muerte.