Joan Margarit – Último trem

Último trem Crematório de Collserola Se visses a chuva que enverniza o verde escuro e denso do jardim. Teu vagão solitário está chegando à sala espaçosa, sem adornos, nem mobiliário, nem nenhuma luminária, da Estación de Francia da morte. Só se ouve o murmúrio do motor que arrasta o peso da infância e da juventude … Continue lendo Joan Margarit – Último trem

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos — o da liberdade e o da idade —, já não posso abrir nosso cofre. A porta com seus dígitos giratórios é a roleta na qual já não aposto. Desde o primeiro suspiro, conservei a encouraçada claridade daquela rosa. Agora, nu em nosso quarto, com a janela aberta e a luz … Continue lendo Joan Margarit – A senha

Joan Margarit – Despedidas

Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu … Continue lendo Joan Margarit – Despedidas

Joan Margarit – Ela me disse

Procuremos uma casa para morrer. Por exemplo, aquele apartamento onde começamos a nossa história: arquitetura vulgar dos anos sessenta, mas arejado e com flores. Um bom lugar - e alegre - para nele morrer: Talvez na sala, sempre com música e a luz que chegava do mar. Ou na cozinha, em que recebia as ordens … Continue lendo Joan Margarit – Ela me disse

Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro. Com um gesto grave comprime o punho e tenta explicar a força que parece ver na pintura. Esta velha obsessão de transmitir aos pequenos nossos pobres recursos. Atento, o menino olha com temor. Talvez pressinta a solidão que ocultam os gestos, a retórica da arte. Temos … Continue lendo Joan Margarit – No museu

Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento um pouco, ao terminar uma visita a uma obra em algum bairro estranho e entro para tomar um café num pequeno bar onde não me conhecem, penso ser alguém que está saindo para não mais voltar. Quando fujo para o vazio de uma pausa e procuro a escada que leva aos banheiros, … Continue lendo Joan Margarit – A aventura

Joan Margarit – Noite escura na rua Balmes

Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às … Continue lendo Joan Margarit – Noite escura na rua Balmes

Joan Margarit – Água-forte

Os granizos metralham as vidraças, as rajadas arrasam as calçadas. E tu e eu aqui, onde o mau tempo resume os obstáculos que às vezes nos conduzem à margem do abismo. Olhos cintilantes de desacertos, mãos queimadas por se salvarem agarrando-se aos gelados corrimãos do inferno. Que o acaso prossiga disparando sem razão, como sempre, … Continue lendo Joan Margarit – Água-forte

Joan Margarit – Anos Sessenta

Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de … Continue lendo Joan Margarit – Anos Sessenta