Tag: Nelson Ascher
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Ernest Dowson – Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan

Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam A brevidade da vida impede que possamos acalentar longas esperanças – Horácio A alegria, o desejo, o pranto, o amorE a raiva duram pouco.Nada disso, que eu saiba, há de transporO umbral conosco. Poucos dias de rosas e de vinho:Surge num vago sonhoE logo se desfaz nosso…
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Janus Vitalis – Sobre Roma

Recém-chegado que, buscando Roma em Roma,não encontras, em Roma, Roma alguma,olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas,ruínas, que assustam, de um teatro imenso:é Roma isto que vês – cidade tão soberba,que ainda exala ameaças seu cadáver.Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo,para que nada mais seguisse invicto,jaz, na vencida Roma, Roma, a…
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Philip Larkin – Este Seja o Poema

Teu pai e mãe fodem contigo.Que não o queiram, tanto faz.Passam-te cada podre antigo,além de uns novos, especiais. Mas de cartola e fraque, outrora,fodera-os já do mesmo modo,gente ora austero-piegas, orase engalfinhando cega de ódio. Miséria é o que legamos: fossasnum mar que só fica mais fundo.Dá o fora, pois, tão logo possassem pôr nenhum…
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Horácio – Ode 1/11

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopoda babilônia e aceita: o que há de ser, será,quer nos dê Jove mais invernos, quer só esteque em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebeteu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.Apanha…
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John Ashbery – Medo da morte

“Medo da Morte”, um poema de John Ashbery que entrelaça música, tempo e solidão para sondar os limites da existência, enquanto um vento passageiro sugere tanto a liberdade quanto a finitude.
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Attila József – Dói demais

A morte atentade dentro e fora te afugenta(ratinho oculto com receio) e, enquanto arderes,vais procurar junto às mulheresrefúgio em braço, joelho e seio. Mais que o calordo colo afável, mais que o ardor,precisar muito é que te apressa; assim, quem querque possa abraça uma mulheraté que a boca empalideça. Fardo supremoé ter que amar, mas…
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Giuseppe Ungaretti – Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em clarocaído ao ladode um companheiromassacradocom sua bocaarreganhadaexposta à lua cheiacom o hematomade suas mãoscravadoem meu silêncioescrevicartas cheias de amorNão tinha nunca estadotãoaferrado à vida Trad.: Nelson Ascher REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/12/2017 Veglia Cimma Quattro il 23 dicembre 1915 Un’intera nottatabuttato…
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W. H. Auden – Blues Fúnebre (em duas traduções de Nelson Ascher)

BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto —…
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Nelson Ascher – Visita ao asilo

Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo…
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Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a…