Jane Hirshfield – Sopesagem

As razões do coração
vistas com clareza,
inclusive as mais duras,
carregarão
suas marcas de chicote e tristezas
e devem ser perdoadas.

Como a elande faminta
pela seca que perdoa
o leão faminto pela seca
que finalmente a arrebata,
e entra em seguida de bom grado
na vida que ela não pode recusar,
e torna-se leão, está alimentada,
e não se lembra da anterior.

Tão poucos grãos de felicidade
mensurados contra toda a escuridão
e mesmo assim as escalas se nivelam.

O mundo só quer de nós
a força que temos e damos.
Então ele pede mais, e nós damos.

Trad.: Nelson Santander

The Weighing

The heart’s reasons
seen clearly,
even the hardest
will carry
its whip-marks and sadness
and must be forgiven.

As the drought-starved
eland forgives
the drought-starved lion
who finally takes her,
enters willingly then
the life she cannot refuse,
and is lion, is fed,
and does not remember the other.

So few grains of happiness
measured against all the dark
and still the scales balance.

The world asks of us
only the strength we have and we give it.
Then it asks more, and we give it.

Jane Hirshfield – Hoje, outro universo

O arborista determinou:
senescência         pragas        cancro
acelerado pela seca
|                                    mas, em qualquer caso,
não podável       não tratável       não passível de escoras.

E assim.

O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e sua companheira.

O tronco onde a formiga.

O playground de vinte e cinco metros dos esquilos vermelhos.

A casca    as camadas    a seiva-do-pinheiro    o aglomerado de formigueiros.

Os padrões japoneses        a teia-tatuada.

As manchas de determinados peixes.

Hoje, para alguns, um universo desaparecerá.
Primeiro, ruidosamente,
depois, apenas mais um silêncio.

O silêncio do depois, de quando o teatro se esvazia.

Da perplexidade após a Era Glacial,
a espécie, a estrela.

Outra coisa, na escala das coisas velozes,
irá substituí-la,

este vazio de luz na luz, os pássaros confusos desviando-se dele.

Trad.: Nelson Santander

 

Today, another universe

The arborist has determined:
senescence         beetles        canker
quickened by drought
|                                    but in any case
not prunable       not treatable       not to be propped.

And so.

The branch from which the sharp-shinned hawks and their mate-cries.

The trunk where the ant.

The red squirrels’ eighty-foot playground.

The bark    cambium    pine-sap    cluster of needles.

The Japanese patterns        the ink-net.

The dapple on certain fish.

Today, for some, a universe will vanish.
First noisily,
then just another silence.

The silence of after, once the theater has emptied.

Of bewilderment after the glacier,
the species, the star.

Something else, in the scale of quickening things,
will replace it,

this hole of light in the light, the puzzled birds swerving around it.

Jane Hirshfield – Jasmim

Quase o século vinte e um —
quão rapidamente o pensamento ficará datado,
até mesmo pitoresco?

Nossas esperanças, nosso futuro,
passarão como as esperanças e futuros dos outros.

E todas as nossas ansiedades e terrores,
noites de insônia,
pesares,
se apresentarão então como realmente são —

Abelhas delirantes e trôpegas pelo aroma do chá de jasmim.

In “The lives of the heart (1994-1997)

Trad.: Nelson Santander

Jasmine

Almost the twenty-first century —
how quickly the thought will grow dated,
even quaint.

Our hopes, our future,
will pass like the hopes and futures of others.

And all our anxieties and terrors,
nights of sleeplessness,
griefs,
will appear then as they truly are —

Stumbling, delirious bees in the tea scent of jasmine.

Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio

Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.
Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”
Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.
Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.
Até que a raiva e a injúria se reconheçam como pernas incineráveis de uma mesa imprestável.
Até que se dobrem espontaneamente os indiferentes joelhos.
Até que o medo se curve para o seu objeto como a sombra de um pássaro se curva para o seu pássaro.
Até que a dor da solidão penetre as mãos, as costelas, os tornozelos.
Até que o som que o rato faz penetre a boca do gato.
Até que os inaudíveis ácidos banhem o coral.
Ate que se sinta que o que ninguém está pesando já não é mais sem peso.
Até que se sinta que o que ninguém está ganhando já não é mais subtraído.
Até que a dor, a pena, a confusão, o riso, a saudade se reconheçam nos espelhos.
Até que por nós nós queiramos dizer eu, eles, você, o rato almiscarado, o tigre, a fome.
Até que por eu nós queiramos dizer como late um cachorro, soando e sumindo, soando e sumindo completamente.
Até que por até nós queiramos dizer eu, nós, você, eles, o rato almiscarado, o tigre, a fome,
o solitário latido do cão antes de obter uma resposta.

Trad.: Nelson Santander

Spell to be said against hatred

Until each breath refuses they, those, them.
Until the Dramatis Personae of the book’s first page says “Each one is you.”
Until hope bows to its hopelessness only as one self bows to another.
Until cruelty bends to its work and sees suddenly: I.
Until anger and insult know themselves burnable legs of a useless table.
Until the unsurprised unbidden knees find themselves bending.
Until fear bows to its object as a bird’s shadow bows to its bird.
Until the ache of the solitude inside the hands, the ribs, the ankles.
Until the sound the mouse makes inside the mouth of the cat.
Until the inaudible acids bathing the coral.
Until what feels no one’s weighing is no longer weightless.
Until what feels no one’s earning is no longer taken.
Until grief, pity, confusion, laughter, longing know themselves mirrors.
Until by we we mean I, them, you, the muskrat, the tiger, the hunger.
Until by I we mean as a dog barks, sounding and vanishing and sounding and
vanishing completely.
Until by until we mean I, we, you, them, the muskrat, the tiger, the hunger,
the lonely barking of the dog before it is answered.

Jane Hirshfield – Um destino macio

Há muito tempo, alguém
me disse: evite o ou.

Isso inquieta a mente
como um pedaço de carne estendido perturba um cão.

Agora eu também tenho sessenta.
Não havia outra vida.

Trad.: Nelson Santander

A Cottony Fate

Long ago, someone
told me: avoid or.

It troubles the mind
as a held-out piece of meat disturbs a dog.

Now I too am sixty.
There was no other life.

Jane Hirschfield – Meu esqueleto

Meu esqueleto,
que um dia doeu
com o próprio crescimento,

está agora,
a cada ano
imperceptivelmente menor,
mais leve,
absorvido por sua própria
concentração.

Quando eu dancei,
você dançou.
Quando você quebrou,
eu.

E assim foi, deitando,
caminhando,
subindo os fatigantes degraus.
Seus maxilares. Meu pão.

Algum dia você,
o que resta de você,
será extirpado deste casamento.

Artrite dos ossos do pulso,
harpa trincada da caixa torácica,
ponta partida do calcanhar,
exposta cavidade do crânio,
pratos gêmeos da pélvis –
cada pedaço seu me deixará para trás,
afinal serena.

O que sabia eu de seus dias,
suas noites,
eu que o segurei por toda minha vida
em minhas mãos
e pensei que elas estivessem vazias?

Você que me segurou a vida toda
em suas mãos
como uma mãe recente
segura seu próprio filho indefeso,
sem pensar em nada.

Trad.: Nelson Santander

My skeleton

My skeleton,
who once ached
with your own growing larger,

are now,
each year
imperceptibly smaller,
lighter,
absorbed by your own
concentration.

When I danced,
you danced.
When you broke,
I.

And so it was lying down,
walking,
climbing the tiring stairs.
Your jaws. My bread.

Someday you,
what is left of you,
will be flensed of this marriage.

Angular wristbone’s arthritis,
cracked harp of rib cage,
blunt of heel,
opened bowl of the skull,
twin platters of pelvis—
each of you will leave me behind,
at last serene.

What did I know of your days,
your nights,
I who held you all my life
inside my hands
and thought they were empty?

You who held me all your life
in your hands
as a new mother holds
her own unblanketed child,
not thinking at all.

Jane Hirshfield – Dentro desta árvore

Dentro desta árvore
outra árvore
habita o mesmo tronco;
dentro desta pedra
outra pedra descansa,
com muitos tons de cinza
iguais,
com superfície
e peso idênticos.
E dentro do meu corpo,
outro corpo,
cuja história, à espera,
canta; não há outro corpo,
ela canta,
não há outro mundo.

Trad.: Nelson Santander

Within this tree

Within this tree
another tree
inhabits the same body;
within this stone
another stone rests,
its many shades of grey
the same,
its identical
surface and weight.
And within my body,
another body,
whose history, waiting,
sings; there is no other body,
it sings,
there is no other world.

Jane Hirshfield – O emissário

Um dia, naquele quarto, um pequeno rato.
Dois dias depois, uma cobra.
Que, vendo-me entrar,
serpenteou a longa listra de seu
corpo para baixo da cama,
e depois se enrolou como um dócil animal doméstico.
Não sei como veio ou saiu.
Mais tarde, a lanterna nada encontrou.
Por um ano, eu observei
como alguma coisa – terror? felicidade? dor? –
entrou e, em seguida, saiu do meu corpo.
Sem saber como entrou,
sem saber como saiu.
Pendurou-se onde as palavras não podiam alcança-la.
Dormiu onde a luz não podia ir.
Seu cheiro não era de cobra nem de rato,
nem sensualista nem ascético.
Existem desvãos em nossas vidas
sobre os quais nada sabemos.
Através deles
o rebanho marcado desloca-se quando quer,
pernas longas e sedento,
coberto por uma poeira estranha.

Trad.: Nelson Santander

The envoy

One day in that room, a small rat.
Two days later, a snake.
Who, seeing me enter,
whipped the long stripe of his
body under the bed,
then curled like a docile house-pet.
I don’t know how either came or left.
Later, the flashlight found nothing.
For a year I watched
as something – terror? happiness? grief? –
entered and then left my body.
Not knowing how it came in,
Not knowing how it went out.
It hung where words could not reach it.
It slept where light could not go.
Its scent was neither snake nor rat,
neither sensualist nor ascetic.
There are openings in our lives
of which we know nothing.
Through them
the belled herds travel at will,
long-legged and thirsty, covered with foreign dust.

Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Eu vendi o relógio do meu avô,
seu ouro nacarado e padrões pontilhados,
para ser derretido.
Engrenagem condenada.
Tampa faltando.
Corrente — deve ter havido uma —
faltando.
Números que foram pintados
com um única e hábil cerda.
Dei corda na coroa
antes de entrega-lo por sobre o balcão.
O homem gentil agarrou
o que eu lhe trouxe como se fosse para a Stasi.
Ele pesou o mel do tempo.

Trad.: Nelson Santander

The kind man

I sold my grandfather’s watch,
its rosy gold and stippled pattern
to be melted.
Movement unreparable.
Lid missing.
Chain — there must have been one —
missing.
Its numbers painted
with a single, expert bristle.
I touched the winding stem
before I passed it over the counter.
The kind man took it,
what I’d brought him as if to the Stasi.
He weighed the honey of time.

Jane Hirshfield – Alzheimer

Quando os ratos roem
um tapete velho e de boa qualidade,
as cores e os padrões
do que resta
não se alteram.
Como um leito de rocha, inclinado,
continua um leito de rocha,
as estrias roxas e vermelhas por interromper.
Grandeza inata que se não pode roubar.
“Como está?”, perguntei,
sem saber o que esperar.
“O contrário da alegria Keatsiana.” foi a resposta.

Trad.: Francisco José Craveiro de Carvalho

Alzheimer’s

When a fine, old carpet
is eaten by mice,
the colors and patterns
of what’s left behind
do not change.
As bedrock, tilted,
stays bedrock,
its purple and red striations unbroken.
Unstrippable birthright grandeur.
“How are you,” I asked,
not knowing what to expect.
“Contrary to Keatsian joy,” he replied.