Lynn Ungar – Pandemia

E se pensasses nissoda mesma forma que os judeus consideram o Sabbath —o mais sagrado dos tempos?Cessa com as viagens.Cessa com as compras e as vendas.Desiste, por enquanto,de tentar fazer o mundodiferente do que é.Canta. Reza. Toca apenas aquelesa quem confias tua vida.Alcança o equilíbrio. E quando teu corpo estiver imóvel,expande o teu coração.Compreende que … Continue lendo Lynn Ungar – Pandemia

Carolyn Forché – Dois poemas

Penso em você naquele mar de túmulos além da cidade,onde muitas pedras foram deixadas, entre elas a minha: uma pequena lasca de dolomita para pesar um pedaço de papel.Eu teria colocado suas luvas e o guarda-chuva no caixão, juntamente com uma manhã em Berlin com Tanya, uma horade pombos ascendendo ao seu redor, lilases embrulhados … Continue lendo Carolyn Forché – Dois poemas

Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Um caracol escala o peitoril da janelado seu quarto, depois de uma noite dechuva. Você me chama para ver,e eu explico que seria cruel deixa-lo lá: ele pode rastejar até o chão; devemos cuidar para que ninguém o esmague. Você entende e o carrega para fora, com mão diligente,para comer uma flor amarela.Vejo, então, que … Continue lendo Fleur Adcock – Para uma criança de cinco anos

Mark Wunderlich – Peônias

No pátio, as peônias rebentam em brancos corações,rebordos arredondados que desabrocham apenas para elas.Sua simplicidade, a lâmina disso, fende a manhã. Neste Brooklyn de pátios aureolados por arames farpadose roupas sujas balançando como bandeiras de rendição,vapor de resina flutuando até essas janelas, sombras viajando dos pulmões de um fumante,eu observo o helicóptero da polícia ameaçar … Continue lendo Mark Wunderlich – Peônias

Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui

Lisel Mueller – Românticos

Românticos Johannes Brahms e Clara Schumann Os biógrafos modernos se preocupamem “o quão longe” foi sua terna amizade.Eles se perguntam o que exatamente significaquando ele escreve que pensa nela constantemente,seu anjo da guarda, amada amiga.Os biógrafos modernos fazem a rude e irrelevante indagaçãode nossa era como se o eventode dois corpos entrelaçados estabelecesse a medida … Continue lendo Lisel Mueller – Românticos

Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Você está desembarcando de um trem.Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopiaao redor da bainha do seu sobretudo, ao redorda mão que segura a valise de couro marrom,a mão que, há pouco, penteou para tráso cabelo e em seguida ajeitou o fedoradefronte a um espelho com … Continue lendo Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Colocar a espiral logarítmica naConcha e no papel, e vê-las se encaixar,Observar a mesma ideia funcionarNa subida do piloto de caça, ajustando a mira Em seu alvo, preparando a matança,E no voo de certos insetos estrábicosQue não conseguem ver que voam para a morteMas têm que lançar nela seu olhar de esguelhaE dirigir-se, mas girando, … Continue lendo Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Javier Salvago – Nada, nada importa

Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A … Continue lendo Javier Salvago – Nada, nada importa

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do … Continue lendo Joan Margarit – Noturno em Solivella