Eugénio de Andrade – Elegia

Às vezes era bom que tu viesses. Falavas de tudo com modos naturais: em ti havia a harmonia dos frutos e dos animais. Maio trouxe cravos como outrora, cravos morenos, como tu dizias, mas cada hora passa e não se demora na tristeza das nossas alegrias. Ainda sabemos cantar, só a nossa voz é que … Continue lendo Eugénio de Andrade – Elegia

Eugénio de Andrade – Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. O que sonhei cabe nas tuas mãos gastas a tecer melancolia: um país crescendo em liberdade, entre medas de trigo e de alegria. Porém a morte passeia nos … Continue lendo Eugénio de Andrade – Não é verdade

Eugénio de Andrade – Canção Breve

Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que … Continue lendo Eugénio de Andrade – Canção Breve

Eugénio de Andrade – O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém - mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem … Continue lendo Eugénio de Andrade – O sal da língua

Eugénio de Andrade – Sou fiel ao ardor…

Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.

Eugénio de Andrade – De “As mãos e os frutos”

XIX Terra: se um dia lhe tocares o corpo adormecido, põe folhas verdes onde pões silêncio, sê leve para quem o foi contigo. Dá-lhe o meu cabelo para sonho, e deixa as minhas mãos para tecer a mágoa infinita das raízes que no seu corpo um dia hão-de beber

Eugénio de Andrade – Quando em silêncio passas entre as folhas…

Quando em silêncio passas entre as folhas, uma ave renasce da sua morte e agita as asas de repente; tremem maduras todas as espigas como se o próprio dia as inclinasse, e gravemente, comedidas, param as fontes a beber-te a face.

Eugénio de Andrade – Com o tempo aproximar-se-ão os rios…

Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.

Eugénio de Andrade – Ver claro

Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.