Tag: Jorge Luis Borges
-
Jorge Luis Borges – Everness

Só uma coisa há. É o esquecimento.Deus, que salva o metal, salva a escóriaE cifra na sua profética memóriaas luas que serão e que hão sido. Já tudo está. Os mil reflexos,Que entre os dois crepúsculos do diaTeu rosto foi deixando nos espelhose os que irá deixando ainda. E tudo é uma parte do diversoCristal…
-
Jorge Luis Borges – Cosmogonia

Nem treva nem caos. A trevaRequer olhos que vêem, como o som.E o silêncio requer o ouvido,O espelho, a forma que o povoa.Nem o espaço nem o tempo. Nem sequerUma divindade que premeditaO silêncio anterior à primeiraNoite do tempo, que será infinita.O grande rio de Heráclito o EscuroSeu irrevogável curso não há empreendido,Que do passado…
-
Jorge Luis Borges – O Suicida

Não ficará na noite uma estrela.Não ficará a noite.Morrerei e comigo a sumaDo intolerável universo.Apagarei as pirâmides, as medalhas,Os continentes e as caras.Apagarei a acumulação do passado. Farei pó a história, pó o pó.Estou olhando o último poente.Ouço o último pássaro.Lego o nada a ninguém. Trad.: Antonio Cícero REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 24/02/2016
-
Jorge Luis Borges – Remorso por qualquer morte

Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus…
-
Jorge Luis Borges – Maio 20, 1928

Agora é invulnerável como os deuses. Nada na terra pode feri-lo, nem o desamor de uma mulher, nem a tísica, nem as ansiedades do verso, nem essa coisa branca, a lua, que já não precisa fixar em palavras. Caminha lentamente sob as tílias; olha as balaustradas e as portas, não para recordá-las. Já sabe quantas…
-
Jorge Luis Borges – James Joyce (em três traduções)

Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques.Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os diasdo tempo, desde o inconcebíveldia inicial do tempo, em que um terrívelDeus prefixou os dias e agonias,até aquele outro em que o ubíquo riodo tempo terrenal torne a sua fonte,que é o…
-
Jorge Luis Borges – Labirinto

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.E o alcácer abarca o universoE não tem anverso nem reversoNão tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminhoQue fatalmente se bifurca em outro,Que fatalmente se bifurca em outro,Terá fim. É de ferro teu destino Como o juiz. Não creias na investidaDo…
-
Jorge Luis Borges – As Causas

Todas as gerações e os poentes.Os dias e nenhum foi o primeiro.A frescura da água na gargantaDe Adão. O ordenado Paraíso.O olho decifrando a maior treva.O amor dos lobos ao raiar da alba.A palavra. O hexâmetro. Os espelhos.A Torre de Babel e a soberba.A lua que os Caldeus observaram.As areias inúmeras do Ganges.Chuang Tzu e…
-
Jorge Luis Borges – Limites

Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,Há um espelho que me viu pela última vez,Há uma porta que fechei até o fim do mundo.Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)Há algum que já nunca abrirei.Este verão cumprirei cinqüenta anos:A morte me desgasta,…
