Nelson Santander – O ano novo inalcançável

Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história da música – lhe conferem um certo estatuto privilegiado para falar sobre o tema. Se ele diz que a música americana é a melhor do planeta, não sou eu quem irá contradita-lo.

É uma afirmação ousada, concordo. Afinal, todo país conta com artistas capazes de engendrar uma gama de produções artísticas de alta qualidade. Mas não dá para negar que, por uma série de razões (que vão da riqueza econômica do país mais rico do planeta à diversidade cultural que se verifica entre as diversas regiões do país, passando por um sistema educacional que incentiva as atividades voltadas às artes), a produção cultural americana é farta e diversificada. Em um ambiente assim, quase darwiniano, é enorme a possibilidade de que novos artistas talentosos possam surgir. Por sua visibilidade, o campo musical é onde essa profusão se revela com maior clareza: do rock ao jazz, do country à música clássica, do pop ao blues, não há nenhuma forma de expressão musical que os americanos não dominem com maestria. Nos estilos mais populares – mesmo no pop -, melodias sofisticadas costumam vir de par com letras muito bem escritas.

É o caso da pequena pérola chamada This Year, do The White Buffalo – nome artístico do cantor compositor americano Jake Smith -, que publiquei pela primeira vez no blog há dois anos, e à qual eu sempre retorno nos finais de ano. Pouco conhecido do público brasileiro – e mesmo do grande público americano -, Jake Smith já tem uma sólida carreira musical, iniciada com o lançamento de seu primeiro álbum – Hogtied Like a Rodeo – em 2002. Os fãs da série Sons of Anarchy talvez o conheçam porque várias canções interpretadas (e algumas compostas) por ele fizeram parte da trilha sonora do seriado (“Come Join The Murder”,  “Matador”, “Damned”, “Wish It Was True”, “House of the Rising Sun” (com os The Forest Rangers), “The Whistler”, “Set My Body Free”, “Sweet Hereafter”, “Oh Darling, what have I done” e “Bohemian Rhapsody” (também com os The Forest Rangers).

Para alguém que topa com o seu trabalho pela primeira vez, duas coisas impressionam: primeiro, o vozeirão e a técnica vocal do cara. Realmente, é assombroso como ele canta bem. E segundo, a qualidade das suas canções. Influenciado por dois gêneros aparentemente inconciliáveis – o country (o estilo musical favorito de seus pais) e o punk rock, mais rock, soul, folk, blues – suas melodias são belas e variadas. Muitas vezes, imprevisíveis. Sobre suas letras, o artista costuma dizer que, por apreciar “músicas realmente honestas”, como as de Bob Dylan, Leonard Cohen, Elliot Smith e Kris Kristofferson, seu objetivo ao escrever é sempre abordar os temas “de uma forma real, de uma forma honesta”:

“Eu entro em cada personagem e o empurro o mais longe que posso. Por exemplo, “If I Lost My Eyes” é uma canção do novo álbum (ele se refere ao álbum de 2019, “Darkest Darks, Lightest Lights”), é muito sombria e baseada na ideia de que se você perder suas faculdades mentais, seu companheiro ficará com você, ele preencherá esse vazio?” (https://www.musicradar.com/news/the-white-buffalo-youre-just-trying-to-hit-people-in-the-heart-with-songs)

This Year é a nona canção do álbum Shadows, Greys & Evil Ways (um puta álbum, diga-se de passagem). Trata-se de um folk-rock cuja melodia e arranjos seguem, em termos de cadência e força, a história contada na letra, emprestando à canção um sentido mais completo. A letra acompanha por um ano a história da vida de um típico looser americano. Jake Smith se vale da passagem das estações (inverno, primavera, verão, outono e inverno novamente) para indicar o estado de espírito do personagem que conta sua história em primeira pessoa.

O ciclo se inicia com a virada do ano (que ocorre no inverno norte-americano). A força do compositor já pode ser sentida nos primeiros versos que, embora descrevam a euforia típica que toma conta das pessoas nas festas de fim de ano, revelam que se trata de uma falsa felicidade – pelo menos do ponto de vista do personagem que fala de si e de suas agruras. Sob esse aspecto, são reveladoras, nessa primeira parte, os versos “O ano novo veio com o mesmo velho elenco”, “Nós dançamos e bebemos como se ele fosse o último” e “Vamos nos concentrar nesta noite única / E apenas torcer para que cheguemos em casa vivos”.

Com a chegada da primavera – que marca, psicologicamente, o início efetivo do ano dos EUA após a temporada de inverno -, o personagem parece se animar. Para demonstrar o novo estado de espírito do homem, o compositor enfileira versos que, sem explicitar a leveza de espírito do personagem, mostram que ele está atento ao que ocorre ao seu redor:

Os dias ficam mais longos, e as noites mais curtas
A mãe acorda um pouco mais radiante do que antes
O gelo derrete e os jardins florescem
O ar fresco e os campos são adoráveis
A grama e os narcisos fazem cócegas em nossos pés
As flores, elas desabrocham e os pássaros, eles cantam
Preenchendo o dia com as melodias que eles produzem

Mas nosso depressivo personagem, embora perceba a beleza da nova estação, não se deixa afetar muito por ela. Conquanto flores e pássaros cantem na sua frente, ele não sente “mais vontade de cantar”, pois, para ele “as estações mudam”, mas ele não muda “em nada”. De toda forma, mesmo consciente de estar sujeito a erros e acertos, ele acredita ser possível “melhorar” e ser “diferente” no ano que se inicia.

O verão é a única estação do ano em que o personagem parece se livrar de seu estado depressivo e acreditar que tudo pode realmente mudar para melhor. É o que ele afirma, peremptoriamente e não sem uma ponta de desconfiança, após descrever como as pessoas e coisas se comportam na estação do ano mais alegre:

Oh, o futuro, o futuro parece promissor
Eu até acho que posso acertar tudo, afinal

Mas chega, então, o “melancólico outono”, soprando “para longe os ventos do verão”. A metáfora não é gratuita. A chegada do outono que expulsa o verão marca o início da derrocada anual do personagem. Jake Smith se vale como nunca dos efeitos causados pelo outono no clima e na natureza para explicitar os dramas internos e externos enfrentados pelo personagem. “As folhas caem das árvores” e ele percebe que nunca mais as verá novamente – constatando que a fase boa de sua vida naquele ano já acabou. O personagem então diz que é hora de se recolher, “ficar dentro de casa”. Os próximos versos – terríveis – também usam as mudanças típicas sofridas pela natureza no outono americano para demonstrar com toda força o grau de devastação interna do personagem:

Sem flores, nem frutos, e os gramados todos morrem
Como pode tudo desmoronar tão rápido?
E por que eu achei que iria durar?
Quando tudo está morrendo, como eu posso me sentir vivo?
Oh, a vida é curta, e todos os dias bons desapareceram

O personagem constata então que talvez esteve “perdido” até aquele momento. Com o restinho de forças que lhe restam, ainda tem a esperança de que talvez possa se encontrar no ano que já vai terminando.

Mas então chega o inverno, a mais terrível das estações para um depressivo. O personagem, que havia se recolhido dentro de casa no outono, é dela arrancado à força pelo inverno, que lhe “derruba a porta” e faz o seu sangue fluir. Ao contrário do que acontecia na primavera (Os “dias ficam mais longos, e as noites mais curtas”), agora os “dias são muito curtos e as noites muito longas”. O natal está próximo, mas não traz felicidade nenhuma, até porque, “todo o dinheiro se foi”, sem que o personagem saiba “para onde”: “O natal não é fácil quando você não pode pagar o aluguel”. É quando “as luzes se apagam para uma noite infeliz”*. À essa altura, embora o personagem saiba que não pode desistir (pois “tudo o que você pode fazer é persistir na luta”), ele tem a plena consciência de que já perdeu o jogo. E de lavada. E sabe que não tem mais tempo para reverter o resultado:

Oh, a vida é dura, eu tenho lutado: um fracasso.
Talvez eu tenha estado perdido
Não acho que eu irei me encontrar
Este ano

Os versos finais da canção são um verdadeiro exercício de resignação e, surpreendentemente, de esperança. Ele de novo reconhece seus erros e acertos e renova a esperança de que talvez consiga melhorar e de que pode ser que o ano seja diferente. Mas não esse, que acabou. O próximo. A sacada de Jake Smith, aqui, é repetir quase que integralmente o verso em que ele anunciava que o ano que se iniciava talvez pudesse ser diferente para melhor (“Maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, this year”), alterando apenas uma palavra: this é substituída por next. Com isso, o personagem promove o realinhamento de sua vida fracassada com o ano que se inicia, na esperança de que neste ano novo tudo possa melhorar – evidenciando, portanto, o caráter circular da letra da canção.

Publiquei pela primeira vez o vídeo legendado desta canção (com alguns erros de tradução, devidamente corrigidos abaixo) no dia 31 de dezembro de 2018. O vídeo vinha acompanhado do seguinte texto:

Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não.

Feliz 2019!

Dois anos depois, em 31 de dezembro de 2020 – o grande ano da peste – continuo pensando desta forma. Só que hoje estou bem menos esperançoso.

Feliz 2021! Se você conseguir.

* N. do T.: o verso original é assim: And the lights go out to a silent night. Silent Night é o nome de uma das canções natalinas mais conhecidas em todo o planeta. No Brasil, ela foi conhecida por Noite Feliz. Traduzido literalmente, o verso original ficaria mais ou menos assim: E as luzes se apagam para uma noite silenciosa. Para tentar aproveitar o efeito poético da paráfrase usada pelo compositor, também me vali do título em português da canção, mas invertendo o adjetivo de feliz para infeliz, o que, acredito, não afetou o sentido original pretendido pelo autor da canção).

Para quem quiser conhecer mais do trabalho do The White Buffalo, seguem alguns links interessantes:

O site oficial do artista: https://thewhitebuffalo.com/

O canal oficial do artista no Youtube (no qual, dentre outros materiais, periodicamente ele publica uns vídeos divertidíssimos da série “In the garage”, gravados literalmente na garagem da casa dele): https://thewhitebuffalo.com/

Playlist no Spotify com minhas canções preferidas do artista (não inclui as do último álbum – “On the Widow’s Walk”, pois ainda não o decantei completamente): https://open.spotify.com/playlist/2ItEZZwARmif2nWwl93o5x

Este ano

Outro ano mais velho, ele veio e se foi
O sangue, as lágrimas e o dinheiro gasto
O ano novo veio com o mesmo velho elenco
Nós dançamos e bebemos como se ele fosse o último
Agitando e esperando que a contagem regressiva comece
Em câmara lenta, do dez até o um
Um beijo e os fogos de artifício iluminam o céu
Caindo aos pedaços durante a “Auld Lang Syne”
Vamos nos concentrar nesta noite única
E apenas torcer para que cheguemos em casa vivos

A terra gira, a primavera se precipita
Os dias ficam mais longos, e as noites mais curtas
A mãe acorda um pouco mais radiante do que antes
O gelo derrete e os jardins florescem
O ar fresco e os campos são adoráveis
A grama e os narcisos fazem cócegas em nossos pés
As flores, elas desabrocham e os pássaros, eles cantam
Preenchendo o dia com as melodias que eles produzem
E eu não sinto mais vontade de cantar
As estações mudam, mas eu não mudo em nada
Bem, eu errei, eu acertei
Isso está claro
Talvez eu consiga melhorar
Talvez eu seja diferente
Este ano

Ooh, lá vem o verão, ele vem quente
Sem camisa, nada de escola, dê a ele tudo o que você tem
O sol, ele chama, então vamos para fora
Brindar com nossas bebidas ao sol quente
O asfalto arde nas ruas da cidade
É melhor você se apressar ou irá queimar seus pés
Se atirando na água, espirrando e gritando
Amor e riso o suficiente para um e para todos
Oh, o futuro, o futuro parece promissor
Eu até acho que posso acertar tudo, afinal

Melancólico outono sopra para longe os ventos do verão
As folhas caem das árvores, nunca as verei novamente
Como brasas, elas flutuam pelas ruas
Dourada e vermelha dança que se repete
Bem, agora é fechar as cortinas
Vamos ficar dentro de casa
Sem flores, nem frutos, e os gramados todos morrem
Como pode tudo desmoronar tão rápido?
E por que eu achei que iria durar?
Quando tudo está morrendo, como eu posso me sentir vivo?
Oh, a vida é curta, e todos os dias bons desapareceram
Talvez eu tenha estado perdido
Talvez eu me encontre
Este ano

Bem, o inverno e o frio chegam com a tempestade
Derrubam a porta e seu sangue flui
Os dias são muito curtos e as noites muito longas
Os corais de natal aparecem, eu não consigo cantar junto
Oh, todo o dinheiro se foi, não sei para onde
O natal não é fácil quando você não pode pagar o aluguel
E as luzes se apagam para uma noite infeliz
E tudo o que você pode fazer é persistir na luta
E eu simplesmente não consigo ver o errado
E eu simplesmente não consigo ver o correto
Oh, a vida é dura, eu tenho lutado: um fracasso.
Talvez eu tenha estado perdido
Não acho que eu irei me encontrar
Este ano

Bem, eu errei, eu acertei
Isso está claro.
Mas talvez eu consiga melhorar
Talvez seja diferente
No próximo ano

Trad.: Nelson Santander

The White Buffalo – This Year

Another year older, it came and went
Blood and the tears and the money spent
The new year’s here with the same old cast
We dance and we drink like it may be our last
Buzzin’ waitin’ for the countdown to come
Feels like slow motion from ten to one
A kiss and the fireworks light the sky
Falling apart over Auld Lang Syne
Let’s focus on this night alone
Just hope that we’d make it home alive
The Earth it turns, spring rushes in
Days get longer and nights go thin
Mother wakes up a little brighter than before
Cold melts away and the gardens grow
The air is crisp and fields are sweet
Grass and the daffodils tickling our feet
Flowers they bloom and the birds they sing
Fill up the day with the songs they bring
And I don’t feel much like singing at all
Seasons change but I don’t change at all
Well I’ve done wrong, well I’ve done right, that’s clear
Maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, this year
Ooh, here comes summer, well it’s comin’ in hot
No shirt, no school, give it all you got
The sun, it calls so let’s go outside
Toastin’ our drinks in the warm sunshine
The asphalt smoulders in the city streets
You better run fast or you’re gonna burn your feet
Splashin’ and yellin’ the cannonball
Enough love and laughter for one and all
Oh the future’s, future’s looking bright
I think that I might get it right after all
Moody autumn blows in off a summer wind
Leaves fall off of the trees, never see them again
Like embers they float into the streets
Golden and red dance repeat
Well it’s close of the curtains, let’s stay inside
No flower, no fruit and the lawns all die
Well how could it all fall apart so fast
And why would I think it would ever last?
When everything is dying, well, how can I feel alive?
Oh, life is short, well all good days disappear
Maybe I’ve been lost, maybe I’ll get found, this year
Well the winter and the cold come storming in
Kicks down the door and your blood runs thin
Day’s too short and the night’s too long
Carolers came, I can’t sing along
Oh money’s all gone, don’t know where it went
Christmas ain’t easy when you can’t pay the rent
And the lights go out to a silent night
And all you can do is just stay in the fight
And I just can’t see the wrong, and I just can’t see the right
Oh, life is hard, I’ve been fighting, a failure
Maybe I’ve been lost, don’t think I’ll get found, this year
Well I’ve done wrong, well I’ve done right, that’s clear
But maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, next year

Aldir Blanc – Valsa pra Leila

Tu te esfumarás
me neblinarei
sobre os telhados
galáxias azuis.
Sonambularás
te voltearei
gatos lambendo as estrelas
Wendy e Peter Pan
sem o amanhã
nunca, pra nós dois, é sempre cedo.
Marietarás,
eu Buarquirei
em dois cavalos
com asas de luz.
Tu te nublarás,
me eclipsarei
nuvens em nossa cabeça.
Toma, Peter Pan,
só um lexotan
pra que tanto amor não te enlouqueça.
Vagalumarás por sobre o campo,
eu virei do mar, teu pirilampo.
Como um circo aceso, o céu da manhã
saudará o amor que não dormiu.
Tu desabarás
eu despencarei
e o mar azul vai nos cobrir.

Leila Pinheiro – Valsa pra Leila

Chico Buarque e Cristovão Bastos – Todo sentimento

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado,
Ao lado teu

Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Antonio Carlos Santos de Freitas – Infinito particular

Eis o melhor e o pior de mim
No meu termômetro o meu quilate
Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler

Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, ‘tá na cara
Eu sou porta-bandeira de mim

Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder

Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber

Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

The White Buffalo – This Year

Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não.

Feliz 2019!

The White BuffaloThis Year (Tradução e Legendas: Nelson Santander)

Chico Amaral e Samuel Rosa – As Noites

As ruas desse lugar
Conhecem bem
As noites longas, as noites pálidas
Quando eu te procurava

As casas desse lugar
Se lembrarão
Do nosso abraço, da sombra insólita
Espelho azul no chão

As ruas desse lugar
Agora eu sei
Sempre escutaram a nossa música
Quando eu te respirava

As pedras municipais
Se impregnaram
Da dupla imagem, da dupla solidão,
A sombra ali no chão

E, lá no céu, constelações
Num arranjo inusitado
O seu nome desenhado
– Pelo menos tinha essa ilusão

E, lá no céu, os astros
Num arranjo surpreendente
Se buscavam como a gente
– Pelo menos tinha essa ilusão

São milhares de estrelas
Singulares letras vivas no céu

Bruno Gouveia e Miguel Cunha – Impossível

Biquíni Cavadão

Tudo bem quando termina bem
E os seus olhos, e os seus olhos não estão rasos d’água
Mas eu sei que no coração ficaram muitas palavras
Um vocabulário inteiro de ilusão

Tudo que viceja também pode agonizar
E perder seu brilho em poucas semanas
E não podemos evitar que a vida trabalhe com o seu relógio invisível
Tirando o tempo de tudo que é perecível

É impossível, é impossível esquecer você
É impossível esquecer o que vivi
É impossível esquecer, o que senti

Tudo que morre fica vivo na lembrança
Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça
Mas antes que eu me esqueça, antes que tudo se acabe
Eu preciso, eu preciso, dizer a verdade

É impossível, é impossível esquecer você
É impossível esquecer o que vivi
É impossível esquecer, o que senti
É impossível!

Arnaldo Antunes – Lugar Nenhum

Não sou brasileiro
Não sou estrangeiro
Não sou brasileiro
Não sou estrangeiro
Eu não sou de nenhum lugar
Sou de lugar nenhum
Sou de lugar nenhum
Não sou de São Paulo
Não sou japonês
Não sou carioca
Não sou português
Não sou de Brasília
Não sou do Brasil
Nenhuma pátria me pariu

Eu não tô nem aí
Eu não tô nem aqui
Eu não tô nem aí

Renato Russo – Música Urbana 2

Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
cantam música urbana
Motocicletas querendo atenção às três da manhã
É só música urbana

Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana

Os uniformes, os cartazes
Cinemas e os lares
Favelas, coberturas
Quase todos os lugares
E mais uma criança nasceu
Não há mais mentiras nem verdades aqui
Só há música urbana

Belchior – Comentários a Respeito de John

Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decido a minha vida
Não preciso que me digam de que lado nasce o sol
Porque bate lá o meu coração

Sonho e escrevo em letras grandes de novo
pelos muros do país
João, o tempo andou mexendo com a gente, sim

John, eu não esqueço (oh no, oh no, oh no),
a felicidade é uma arma quente
John, eu não esqueço (oh no, oh no, oh no),
a felicidade é uma arma quente

Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho
Deixem que eu decido a minha vida
Não preciso que me digam de que lado nasce o sol
Porque bate lá o meu coração

Sob a luz do teu cigarro na cama
Teu rosto rouge, teu batom me diz
João, o tempo andou mexendo com a gente, sim

John, eu não esqueço (oh no, oh no, oh no),
a felicidade é uma arma quente
John, eu não esqueço (oh no, oh no, oh no),
a felicidade é uma arma quente