Jorge Luis Borges – Mortes de Buenos Aires

I La Chacarita Porque a entranha do cemitério do Sul foi saciada pela febre amarela até dizer basta; porque os tugúrios fundos do Sul lançaram morte sobre a face de Buenos Aires e porque Buenos Aires não pôde encarar essa morte, golpes de pá te abriram na ponta perdida do Oeste, atrás das tempestades de … Continue lendo Jorge Luis Borges – Mortes de Buenos Aires

Jorge Luis Borges – A noite que no sul o velaram

A noite que no sul o velaram                     para Letizia Álvarez de Toledo Pelo passamento de alguém — mistério cujo desconhecido nome possuo e cuja realidade não abarcamos — há até o alvorecer uma casa aberta no Sul, uma casa ignorada que não estou destinado a … Continue lendo Jorge Luis Borges – A noite que no sul o velaram

Jorge Luis Borges – O cego

I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível … Continue lendo Jorge Luis Borges – O cego

Jorge Luis Borges – João 1,14

Não será menos enigmática esta página que as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetem as bocas ignorantes, por julgá-las de um homem, não espelhos obscuros do Espírito. Eu que sou o É, o Foi e o Será torno a condescender com a linguagem, que é tempo sucessivo e emblema. Quem brinca com … Continue lendo Jorge Luis Borges – João 1,14

Jorge Luis Borges – Cristo na Cruz

Cristo na cruz. Os pés tocam a terra. Os três madeiros são de igual altura. Cristo não é o do meio. É o terceiro. A negra barba pende sobre o peito. O rosto não é este das gravuras. É áspero e judeu. Mas não o vejo E vou buscá-lo sempre até o dia De meu … Continue lendo Jorge Luis Borges – Cristo na Cruz

Jorge Luis Borges – Elogio da Sombra

A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão) pode ser o tempo de nossa felicidade. O animal morreu ou quase morreu. Restam o homem e sua alma. Vivo entre formas luminosas e vagas que não são ainda a escuridão. Buenos Aires, que antes se espalhava em subúrbios em direção à planície incessante, … Continue lendo Jorge Luis Borges – Elogio da Sombra

Jorge Luis Borges – James Joyce (em três traduções)

Primeira tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques. Revisão de trad.: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz Em um dia do homem estão os dias do tempo, desde o inconcebível dia inicial do tempo, em que um terrível Deus prefixou os dias e agonias, até aquele outro em que o ubíquo rio do tempo terrenal … Continue lendo Jorge Luis Borges – James Joyce (em três traduções)

Jorge Luis Borges – Cambridge

Nova Inglaterra e a manhã. Dobro por Craigie. Penso (já pensei) que o nome Craigie é escocês e que a palavra crag é de origem celta. Penso (já pensei) que neste inverno estão os antigos invernos dos quais deixaram escrito que o caminho está prefixado e que já somos do Amor ou do Fogo. A … Continue lendo Jorge Luis Borges – Cambridge

Jorge Luis Borges – Labirinto

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro. E o alcácer abarca o universo E não tem anverso nem reverso Não tem extremo muro nem secreto centro. Não esperes que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro teu destino Como … Continue lendo Jorge Luis Borges – Labirinto

Jorge Luis Borges – Sobre nós

Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o … Continue lendo Jorge Luis Borges – Sobre nós