Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecida é preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijão as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos botões de liga e desliga a política da limpeza se toda sujeira é política. as cores das chaves, as trancas trocadas encaixar, tirar e encaixar de novo na busca … Continue lendo Helena Zelic – Bem-vinda

Eugénio de Andrade – Fim de tarde em S Lázaro

Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um … Continue lendo Eugénio de Andrade – Fim de tarde em S Lázaro

Luis Alberto de Cuenca – Mal de ausência

Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta … Continue lendo Luis Alberto de Cuenca – Mal de ausência

Francisco Brines – Última declaração de amor

Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has … Continue lendo Francisco Brines – Última declaração de amor

Giuseppe Ungaretti – Sou uma criatura

Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti - Sono una creatura Valloncello di Cima … Continue lendo Giuseppe Ungaretti – Sou uma criatura

Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar - decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer. … Continue lendo Raymond Carver – Esta manhã

Paulo Henriques Britto – Da irresolução

Por não se estar preparado perde-se a vida inteira. A preparação, porém, pra ser completa e certeira, exigiria no mínimo uma existência e meia. Compreende-se, portanto, aquele que titubeia ao se ver face a face com tamanho compromisso e termina decidindo viver mesmo de improviso.

Joan Margarit – Helena

O ontem é teu inferno. É cada instante em que, sem sabê-lo, te perdeste e também cada instante em que foste salvo. Quando o jovem que foste está muito distante, o amor é vingança do passado. Vens de uma guerra em que foste vencido, de armas e acampamentos abandonados na Troia que levas em ti … Continue lendo Joan Margarit – Helena

Manuel António Pina – Café Orfeu

Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim … Continue lendo Manuel António Pina – Café Orfeu