Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

Laura Liuzzi – Fio Sem Fim

Chega-se, enfim, à última página embora deixe claro: não se chega ao fim. Um mesmo fio fino frágil mas firme, da mesma fibra de rio conduz memória e história: storage — está estendido para sempre e para sempre soará, suará a cada renovação do sol, mesmo quando atingirmos o final — mesmo assim não se … Continue lendo Laura Liuzzi – Fio Sem Fim

Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer

Eu queria cantar para dentro de alguém, sentar-me junto de alguém e estar aí. Eu queria embalar-te e cantar-te mansamente e acompanhar-te ao despertares e ao adormeceres. Queria ser o único na casa a saber: a noite estava fria. E queria escutar dentro e fora de ti, do mundo, da floresta. Os relógios chamam-se anunciando … Continue lendo Rainer Maria Rilke – Para recitar antes de adormecer

Rainer Maria Rilke – Fonte Romana

Vila Borghese Duas velhas bacias sobrepondo suas bordas de mármore redondo. Do alto a água fluindo, devagar, sobre a água, mais embaixo, a esperar, muda, ao murmúrio, em diálogo secreto, como que só no côncavo da mão, entremostrando um singular objeto: o céu, atrás da verde escuridão; ela mesma a escorrer na bela pia, em … Continue lendo Rainer Maria Rilke – Fonte Romana

Adélia Prado – A Treva

Me escolhem os claros do sono engastados na madrugada, a hora do Getsêmani. São cruas claras visões às vezes pacificadas, às vezes o terror puro sem o suporte dos ossos, que o dia pleno me dá. A alma desce aos infernos, a morte tem seu festim. Até que todos despertem e eu mesma possa dormir, … Continue lendo Adélia Prado – A Treva

Anne Sexton – Frágil Fio

Minha fé é um grande peso suspenso por um frágil fio, como a aranha suspende seu bebê em uma fina teia, como a videira, galhos finos e madeira, sustenta as uvas como globos oculares, como muitos anjos dançam na cabeça de um alfinete. Deus não precisa de muito fio para manter-Se lá, apenas uma veia … Continue lendo Anne Sexton – Frágil Fio

Laura Riding – Uma Gentileza

Estar viva é estar curiosa. Quando perder interesse pelas coisas E não estiver mais atenta, álacre Por fatos, acabo este minguado inquérito. A morte é a condição do supremo tédio. Vou deixar que me desintegre E aí, por saber da paz que a morte traz, Seria bom seguir convencendo o destino A ser mais generoso, … Continue lendo Laura Riding – Uma Gentileza

Giuseppe Ungaretti – Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915 Toda uma noite em claro caído ao lado de um companheiro massacrado com sua boca arreganhada exposta à lua cheia com o hematoma de suas mãos cravado em meu silêncio escrevi cartas cheias de amor Não tinha nunca estado tão aferrado à vida Trad.: Nelson Ascher

Giuseppe Ungaretti – Não gritem mais

Parem de matar os mortos, Não gritem mais, não gritem Se ouvir ainda os quiserem, Se imperecer ainda esperam. Eles, sussurro imperceptível, Não fazem mais ruído Que o mato quando cresce, Alegre, onde homem não passa. Trad.:  Aurora Bernardini